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O que diz Rossanda?

Partiu Rossana Rossanda, uma curiosa e nunca resignada testemunha do século XX cujas crónicas, nascidas no grande marasmo da história comunista, foram pensadas para fazer história. Artigo de Salvatore Cannavò.
Rossana Rossanda -2020). Imagem Jacobin Italia.

Diz-se que durante muito tempo o refrão do Il Manifesto, histórico jornal diário comunista, era este: "O Valentino está lá? Será que o Luigi escreve? O que diz a Rossana"? Os três eram Valentino Parlato, Luigi Pintor e Rossana Rossanda. A última do tríptico partiu agora aos 96 anos de idade, depois de uma longa vida conduzida no campo da esquerda e dos ideais comunistas pelos quais combateu. Saindo sempre, no final, derrotada.

Para muitas gerações ela foi uma "boa professora", com quem se aprendia sempre, mesmo quando não se concordava com ela, porque é evidente que ela sempre defendeu as suas ideias com seriedade, compostura, inteligência, vistas largas. Esse olhar tão incisivo e severo, pleno e denso de vida levada no seio da onda ascendente que a sociedade italiana teve após a Segunda Guerra Mundial e depois amadurecida pela curva descendente, a derrota pessoal e coletiva amadureceu nas últimas décadas do século passado.

A rapariga do século passado” é o título do livro de memórias que surgiu em 2005 e que termina em 1969, ano de nascimento do Il Manifesto, o seu mais precioso legado, e a expulsão do PCI, há muito esperada mas identificativa da derrota pessoal.

E a vida de Rossanda está totalmente mesclada nesse século vivido desde 1924, quando ela nasceu em Pola, Croácia, primeiro Jugoslávia, depois Itália. De lá para Veneza após o terramoto de 1929, e depois para Milão onde estudou Letras, mas deparou-se com o marxismo de Antonio Banfi, um professor tutelar para ela, que certamente "não descobriu o comunismo  em casa". Banfi "era o oposto do determinismo ao qual reduziram Marx, o oposto de uma teleologia". Transmite-lhe um pensamento crítico e não fossilizado e é com este pensamento que após a aprendizagem da Resistência - pequena estafeta entre Milão e Como, onde é deslocada e de onde pode fazer viajar por comboio pacotes e mensagens clandestinas - ela entra no PCI em cujas secções "descia para desenhar a outra história, aquela saída vitoriosa da Resistência que não venceu". O partido comunista que Rossana conhece é aquele "pesado", que se desgastará nos anos setenta e oitenta, povoado por homens e mulheres a quem "a sua própria situação deixava de parecer casual e desesperada, adquirindo o seu próprio significado num quadro mundial de avanços e recuos".

Depois houve os grupos dirigentes, os cargos eleitos, dos quais também fará parte, mas "os que se encontravam na cave, os que passavam de secção em secção ou de casa em casa no fim do trabalho para recolher os boletins de adesão, configuravam uma outra sociedade dentro desta". O "país dentro do país" do qual Pier Paolo Pasolini falará nos anos setenta, que marca uma história difícil de compreender aos olhos de hoje, mas que deixa a sua marca na imaginação e experiência daqueles que, como Rossana, se prepararam para executar a sua intervenção direta no mundo. Tão confiante no futuro como toda a sua geração política, fosse comunista ou socialista.

Imersa no caldo comunista marcado pelo jdanovismo que soprava de Moscovo e pelo realismo socialista com uma intervenção direta do Partido na cultura e na arte, Rossana construiu em vez disso um pensamento autónomo e livre, embora sempre respeitoso da casa comum em que militava e que respeitava. Um desdobramento que marcaria a sua biografia e constituiria, no fundo, o tecido de uma alma inquieta, em busca de uma recomposição da dissidência interior.

A partir daí, começando em 1947 o "trabalho político", primeiro tomando conta da Associação para as relações culturais entre a Itália e a União Soviética (um destino sarcástico considerando o que vai acontecer depois), depois um pouco de trabalho operário, às portas da Autobianchi em Milão, e finalmente o destino natural para quem se inscreveu na universidade aos 17 anos de idade, graças à média de oito e às capacidades intelectuais: “Tinha de tirar a Casa da Cultura das ruínas de 1948", escreve ela nas suas memórias.

1948, com a derrota da esquerda e a vitória decisiva dos democratas-cristãos, foi um golpe muito duro para aqueles que pensavam poder liderar o país após a destruição da guerra e a necessidade de reconstrução. O PCI demorou algum tempo a recuperar dessa derrota e em Milão, entre as caves das secções populares e o trabalho da fábrica, enveredou-se por um caminho ambicioso e, em todo o caso, decisivo. Também porque a abordagem que o PCI escolhe com Rossanda é a da unidade com toda a esquerda e os laicos.

Naquela Casa da Cultura, lia-se todo o Brecht com Enrico Rame, irmão de Franca, passava Vittorio Gassman e "Strehler era lá de casa". Foi assim moldado o perfil político e cultural já traçado por Banfi e pelo crítico de arte Marangoni na universidade. Imersa no caldo comunista marcado pelo jdanovismo que soprava de Moscovo e pelo realismo socialista com uma intervenção direta do Partido na cultura e na arte, Rossana construiu em vez disso um pensamento autónomo e livre, embora sempre respeitoso da casa comum em que militava e que respeitava. Um desdobramento que marcaria a sua biografia e constituiria, no fundo, o tecido de uma alma inquieta, em busca de uma recomposição da dissidência interior.

O fio da meada rompeu-se em 1956 com o relatório Khrushchov, que deu a conhecer os crimes de Estaline, numa tentativa tardia do regime soviético de recuperar um caminho de inovação e reforma. E depois a ocupação soviética de Budapeste e a repressão sangrenta da revolta húngara. Nessa altura, escreve ela, "a idade da inocência tinha acabado". "Franco Fortini telegrafou-me: 'Espero que os trabalhadores te partam a cara'". Fiel ao partido, manteve a Casa da Cultura sempre aberta, não fugiu do confronto, "mas no partido nada voltou a ser como antes": "Os comunistas que se fazem odiar estão sempre errados". Foi nessa época, aos 32 anos de idade, que lhe apareceram os cabelos brancos, traço distintivo de uma vida, sinal de uma sabedoria imortalizada num rosto todavia filho de uma dor aguda, pessoal e política.

Algo se parte, mas a vida política vai em frente, tal como o trabalho cultural. São anos em que se discute com Sartre e Adorno, Feltrinelli lança o seu Doutor Jivago, também para "fazer a URSS pagar". A década mais interessante está prestes a começar, mudam os costumes, as ideias, uma nova geração política entra em cena de forma esmagadora. Rossana apercebe-se disso, o PCI muito menos, imerso em rituais burocráticos e conflitos surdos do seu aparelho. Mas é ainda o grande partido dos trabalhadores e do povo, aquele que dá um grande salto para as políticas de 1963 e depois novamente em 1968. É eleita deputada na legislatura que assiste à formação do governo de centro-esquerda liderado por Aldo Moro, torna-se responsável nacional da cultura, é-lhe confiada a relação com os intelectuais. Mudou-se para Roma, conheceu o grupo dirigente, teve uma relação nada trivial com Palmiro Togliatti.

A URSS é-lhe tirada "tacitamente de cima" e a década das transformações foi abordada com um debate rico, mesmo que no final não tenha sido capaz de marcar realmente esse tempo: "Em suma, nos anos sessenta, aconteceu comigo e com muitos dos meus companheiros o mesmo que à lagartixa a quem o gato mordeu a cauda: volta a crescer".

No PCI ela é uma dirigente, mas raramente é tratada como tal, "a mais jovem entre os homens do PCI". Pesa a condição da mulher num lugar de homens, mas é nomeada no mítico Comité Central. Trabalha com alguns jovens cujos nomes estão destinados a ocupar uma posição de destaque: Achille Occhetto, Sandro Curzi, Lucio Magri, "a brilhante Luciana Castellina", mas também Alfredo Reichlin ou Sergio Garavini. Alguns deles irão marcar a história política dos anos oitenta e noventa, frequentemente fustigados e criticados por Rossanda, que se oporá à decisão de Occhetto de mudar o nome do PCI e nunca se entusiasmará com o projeto da Refundação Comunista, liderado no início pelo próprio Garavini.

O trabalho cultural empolgou-a, tentou recuperar as relações com o partido, procurando encerrar a "época da arte proletária". Ela move-se entre Cesare Luporini e Galvano Della Volpe, entre Lucio Colletti quando ainda era marxista, e também um Louis Althusser “corpulento desportivo em tweed", a única voz do PCF que era interessante.

No congresso de 1968, Rossanda discursou entre os muito poucos delegados que se opuseram à maioria do partido: "Estamos aqui reunidos enquanto o exército de um país chamado socialista ocupa outro país socialista". A delegação soviética deixou a sala juntamente com as outras, exceto a vietnamita.

Mas o PCI não era aquele de Rossanda, como o confirmavam as conversas frequentes com Togliatti, aquele que tinha "uma cauda muito longa de passado". Inclusive, Il Migliore [como lhe chamavam na altura] permitiu-lhe publicar no Rinascita a famosa carta de Antonio Gramsci de 1926, aquela em que o secretário do PCI criticou o PCUS pela forma como tinha tratado Trotski, com uma resposta de Togliatti: "Também tenho a nota que Gramsci me deixou em resposta. Vamos publicar tudo". E tudo foi publicado, mas nunca houve qualquer vestígio desse debate na história do PCI, nada aconteceu.

Os nós estão prestes a ser desatados. Após a morte de Togliatti, em 1964, abriu-se uma guerra interna, não tanto pela sucessão que, para além da transição de Luigi Longo, todos imaginavam que deveria ser confiada a Enrico Berlinguer, mas pela linha política. Por um lado, a proposta de Gianfranco Amendola, e Giorgio Napolitano, de unificação com o PSI, uma forma de dizer que é necessário inserir-se no quadro político do centro-esquerda, por outro lado a ideia do "novo modelo de desenvolvimento" defendido por Pietro Ingrao, mais atento aos novos movimentos e ao conflito operário. Rossana, juntamente com Magri, Pintor, Aldo Natoli e outros, escolheu Ingrao que, no entanto, "nunca se moveu como um líder efetivo, não calculou os movimentos, não colocou os seus peões, nem sequer os defendeu quando estavam a ser comidos". E perdeu, juntamente com todos os seus que foram postos à margem, sem mais perspetivas no partido, "fora de qualquer função no aparelho central ou periférico".

O PCI parece um elefante atordoado, não aproveita a época de 1967-69, fica parado e quando chega a segunda invasão, a checoslovaca, ao mesmo tempo que condena a URSS, limita-se a falar de "erro trágico". No congresso de 1968, Rossanda discursou entre os muito poucos delegados que se opuseram à maioria do partido: "Estamos aqui reunidos enquanto o exército de um país chamado socialista ocupa outro país socialista". A delegação soviética deixou a sala juntamente com as outras, exceto a vietnamita. Berlinguer atrás do palco diz-lhe: "Fizeste mal, não sabes como eles são. São bandidos". E eles eram os soviéticos.

Mas a separação está traçada, e quando Pintor, Castellina, Magri, Parlato, Eliseo Milani e outros decidem juntos relançar, fazer o que todo o intelectual deseja fazer, ou seja, criar uma revista, o partido decide que a linha vermelha foi ultrapassada. Vota-se a expulsão, decide-se que nenhum debate interno pode ser tolerado, os dissidentes têm de procurar outra casa. Pietro Ingrao também vota a favor da expulsão, enquanto Beppe Chiarante, Cesare Luporini, Achille Occhetto, Sergio Garavini continuam a apoiá-los. "Nós já não éramos os deles, os nossos". Nasceu Il Manifesto com o primeiro número da revista intitulado "Praga está sozinha". Também Rossanda estava sozinha, mas neste momento animada por uma forte confiança num futuro que será sempre marcado pelo que tinha acontecido antes.

A vida no Il Manifesto é entendida mais claramente ao olhar para esta vida anterior. "O que diz Rossanda?" é a pergunta que se refere ao valor intelectual da mulher, à clareza das coordenadas, ao respeito por uma ideologia que, precisamente, está dentro da história dominante, mas que a corrige, a retoca, pede um resultado diferente, capaz de se renovar e de se tornar mais verde.

A história do Il Manifesto conduzido por Rossana e os da sua geração é, de facto, esta história. Há a tentativa do partido político, Il Manifesto como um grupo entre os vários grupos da nova esquerda. Depois há a aliança com o PDUP [Partito de Unità Proletaria per il Comunismo], do qual o próprio Lucio Magri será líder. Mas tudo acontece sempre com os olhos postos na casa mãe, na história que foi, atenta a cada movimento mínimo que pudesse assinalar uma mudança de trajetória, uma correção.

Precisamente devido a esta intensidade para com esse mundo e esse pensamento, Rossana elabora o seu outro grande contributo para a compreensão da história contemporânea, quando insere a história das Brigadas Vermelhas no "álbum de família" da esquerda comunista.

As Brigadas Vermelhas não são semelhantes à ETA ou ao IRA, nem sequer à RAF alemã ou à guerrilha latino-americana. São antes - escreve ela no prefácio da entrevista com Mario Moretti [principal dirigente da organização armada], realizada juntamente com Carla Mosca - "um produto de culturas e humores de um país industrialmente avançado e fortemente de esquerda". São expressões do norte industrial, convencido de que o Partido Comunista é "o conjunto de um 'povo comunista' que, no entanto, é algo diferente da linha do seu secretariado, da sua direção, do seu comité central".

Não será assim, mesmo que durante uma fase as forças se toquem e se aplaudam umas às outras. Com esta ideia de que o PCI é algo diferente consoante se olha para ele desde a cúpula ou desde a base, também fracassam as experiências políticas da nova esquerda. Para que algo novo aconteça, será preciso esperar pelo movimento de Occhetto, a quem Il Manifesto, e Rossanda em particular, se opõe fortemente mas sem nunca casar com a aventura da Refundação Comunista. Tal como Ingrao, cuja intenção de permanecer "no remoinho" ficou célebre [foi a expressão que utilizou para justificar a sua adesão ao PDS de Occhetto após este ter liquidado o antigo PCI].

Mas esta história é a história de um remoinho que envolve todos, os ortodoxos e os críticos, um movimento de dissolução geral que se alimenta de enganos, ilusões, erros de presunção, insuficiências. Sobre tudo isto Rossana escreverá sempre ao longo dos anos em artigos, reflexões e intervenções. Mas sempre na perspetiva de quem já sofreu a derrota e sabe que nada pode fazer, e por isso com mais desencanto mesmo quando, juntamente com os seus companheiros de vida e na revista Il Manifesto, dirigida por Lucio Magri, ela procura fazer nascer, dirigindo-se à Rifondazione Comunista e às outras almas da esquerda, uma esquerda alternativa mais ampla e unitária ao lado dos então Democratas de Esquerda, que já navegavam a toda a vela em direção às sereias blairistas. Estamos no início dos anos 2000 e também essa tentativa falha.

Vista a partir do final parece uma história "tristíssima", como a da morte assistida de Lucio Magri que ela acompanha na Suíça, amiga e solidária até ao fim.

Quando apresentou o seu livro, “O Alfaiate de Ulm", num debate em 2010 que teve lugar na Câmara dos Deputados, uma espécie de reunião com Alfredo Reichlin, Mario Tronti e outros, reconhecerá a Magri um mérito: ter reafirmado a importância de 1917 como um divisor de águas decisivo e que não pode ser reduzido a um desastre. Mas criticou-o por ter feito demasiadas concessões no seu livro à URSS e muitas ao togliattismo, incluindo à linha berlingueriana do "compromisso histórico". À qual sempre se opôs: "Foi um erro grave", disse Rossanda, porque nessa altura na Europa o risco de ditadura não só não existia, como havia fenómenos de desmoronamento das ditaduras existentes, como no caso de Portugal e Espanha.

Nesse lugar, repete o que tentámos resumir nas linhas anteriores: o declínio do PCI não começa com o compromisso histórico ou com a fase que virá depois, desde o rapto da Moro até à derrota na Fiat; já começou em meados dos anos sessenta - "os anos decisivos da história italiana do pós-guerra" - quando, perante o descongelamento da sociedade, o PCI "se mostra hesitante", incapaz de ajudar os estudantes em '68, acomodado ao seu próprio declínio operário até à derrota dos anos setenta.

Desde 1971, data de nascimento do jornal Il Manifesto, até à rutura com esse jornal - nunca explicitada ou contada de forma compreensível - Rossanda tentou recuperar da derrota, para voltar a pôr na linha um percurso cultural e humano que tinha sido consumado. Il Manifesto foi um companheiro decisivo para a politização e participação política de gerações inteiras, até nos erros ou incompreensões. A partir desse jornal, além de manter um ponto de vista rigoroso sobre as questões decisivas relativas à classe trabalhadora, o papel da esquerda, os acontecimentos do comunismo e do socialismo, o debate internacional - foi memorável a edição especial do Manifesto sobre o golpe do Estado polaco contra o Solidarnosc - teve também sempre uma visão consistente das garantias constitucionais, ao empenhar-se na linha da frente contra a montagem do processo de 7 de Abril, defendendo Toni Negri e ficando desapontada com a sua "fuga" (como o próprio Negri recorda na sua autobiografia). E trabalhando arduamente para a defesa de Enzo Tortora [condenado injustamente pela justiça italiana por tráfico de droga e associação à Camorra], chegando ao ponto de declarar, em 1984, o seu voto para o antigo apresentador de televisão candidato nas listas radicais europeias desse ano.

É impossível reconstituir a quantidade de intervenções e tomadas de posição. Tudo o que resta é a memória de um pedaço do século XX que nos deixa depois de ter vivido uma escolha de campo exclusiva e decisiva. "Uma escolha de razão. Pode ser que ter sofrido na minha própria infância ser arrancada dos meus pais pelo terramoto de 1929 tenha determinado uma intolerância a levar uma vida dirigida por outros, que nunca abandonei. Não é uma teoria, é uma parte de mim. Como suportar que a maioria daqueles que nascem não tenham sequer a oportunidade de pensar em quem são, que farão de si próprios, a aventura humana queimada à partida”.

Sentiremos muito a sua falta.


*Salvatore Cannavò, vice-director do jornal Il Fatto quotidiano e diretor editorial da Edizioni Alegre, é autor, entre outras coisas, de Mutualismo, ritorno al futuro per la sinistra (Alegre) e Da Rousseau alla piattaforma Rousseau (PaperFirst). Artigo publicado em Jacobin Italia e republicado em Viento Sur. Tradução de Luís Branco para o esquerda.net.

 

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