O metaverso vai secar o Tejo? Ecologistas contestam megacentro de dados

11 de maio 2023 - 11:10

O projeto de Mark Zuckerberg para Talavera de la Reina vai consumir mais de 665 milhões de litros de água por ano numa região em perigo de seca.

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Imagem com a maquete do centro de dados da Meta previsto para Talavera de la Reina.
Imagem com a maquete do centro de dados da Meta previsto para Talavera de la Reina.

O governo de Castilla-La Mancha prepara-se para dar luz verde à construção do quarto centro de dados da Meta na Europa. Segundo o El Pais, o projeto para esta infraestrutura em Talavera de la Reina ocupará 180 hectares e contará com uma potência elétrica instalada de 248MW, prevendo consumir 200 milhões de litros de água potável anuais. Um volume que mais do que triplica tendo em consideração as instalações associadas ao centro de dados, para os 665 milhões de litros de água limpa.

Entre os objetivos anunciados do megacentro de dados está o de dar apoio ao metaverso, o projeto de realidade virtual da empresa que detém o Facebook, Instagram e WhatsApp. Na última apresentação de contas, e face aos milhares de milhões de dólares de prejuízo deste ramo da empresa, Mark Zuckerberg anunciou que a prioridade da Meta deixaria de ser a construção do metaverso, passando a apostar no desenvolvimento da Inteligência Artificial. Isso levou mesmo alguns analistas a decretarem o óbito do metaverso.

O facto de este tipo de instalações consumidoras intensivas de recursos estar a ser contestado em vários países, nomeadamente no norte da Europa, por razões ambientais, junta-se ao panorama da região onde este projeto está inserido: a bacia do Tejo em situação de stress hídrico.

Há poucas semanas, o Governo deu 50 milhões aos agricultores afetados pela seca

"O rio Alberche, que abastece a zona, faz parte de um sistema deficitário de água que já está muito stressado. A incorporação de novos consumos levanta dúvidas sobre a sua capacidade real para os sustentar", afirmam os ambientalistas da Ecologistas en Acción. O próprio governo de Castilla-La Mancha aprovou em abril ajudas no valor de 50 milhões de euros para os agricultores afetados pela seca, com o responsável pela pasta da agricultura a não afastar o cenário de virem a ser necessários cortes no consumo de água.

O projeto Meta Data Center Campus foi acolhido de braços abertos pelas autoridades da região, com o presidente do governo regional, Emiliano Garcia-Page a afirmar na apresentação que "hoje é um dia D para Talavera", prometendo a injeção de mil milhões de euros na economia local e a contratação de 250 trabalhadores altamente qualificados, além de centenas de postos de trabalho indiretos. O projeto foi classificado como de singular interesse (PSI), encurtando os prazos de autorização e na prática significando que os pareceres ambientais não serão obstáculo.

"Que ninguém tenha alguma dúvida de que os relatórios serão favoráveis. Os PSI servem para acelerar projetos que já contam com uma decisão política favorável", diz um responsável da Ecologistas en Acción ao El Pais. Para que o projeto fosse autossustentável, e tendo em conta a previsão de consumo energético de 248MW anuais, seriam necessários 400 hectares de painéis solares, calculam os ecologistas, ou seja, mais do dobro da área prevista para acolher as instalações do megacentro de dados.

Governo e autarcas prometem que não vai faltar água à Meta

Em defesa do projeto surge a autarca de Talavera de La Reina. Para Tita Garcia, o consumo de água não é um problema, porque a zona onde o projeto se irá instalar já previa um consumo superior ao que agora está em causa, pelo que considera que o megacentro de dados da Meta "poupa água em relação ao que estava planeado para essa zona industrial".

Também o líder da junta regional reagiu à notícia do El Pais. "Não vou permitir nunca, não podemos permitir, que uma única empresa deixe de se estabelecer nesta terra porque lhe falte água. Era o que faltava", afirmou Garcia-Page esta terça-feira, à margem da inauguração da Feira Nacional do Vinho em Ciudad Real. E deixou o aviso que de o seu executivo nunca questionou o transvase de águas do Tejo para a região do Levante, em nome do desenvolvimento e emprego dessa região.

Ativistas denunciam opacidade do consumo dos megacentros de dados

Mas há muitas interrogações no que respeita às estimativas do consumo. Uma professora do Oxford Internet Institute lembrou ao El Pais que há dois nos Países Baixos "armou-se um escândalo nacional por causa de um complexo da Microsoft que declarou consumir 20 milhões de litros de água anuais e descobriu-se que na verdade consumia 80 milhões", com o país em estado de seca, dando origem a uma moratória de nove meses para a construção destes centros de dados, o que também aconteceu em países como a Irlanda ou Singapura. Para Ana Valdivia, o megacentro da Meta consumirá também muito mais do que anuncia, pois um dos problemas destas infraestruturas está na opacidade acerca do seu consumo de recursos.

Também a psicóloga e ativista dos direitos digitais Aurora Gómez chama a atenção para o impacto ambiental e social destes megacentros, através do site "A tua nuvem seca o meu rio". A escolha do local para este centro da Meta não a surpreendeu: "Fora à procura de uma zona despovoada e com alta taxa de desemprego", pois as promessas de emprego e investimento nestas regiões reduzem a resistência aos projetos com forte impacto ambiental, mesmo que quem acabe por ocupar os prometidos empregos altamente qualificados sejam pessoas de fora da região e mesmo do país.

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