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O humor como forma violenta de fazer política

De Trump a Bolsonaro, passando pelo fascismo europeu, o meme e burlesco tornaram-se armas de desumanização. A sua engrenagem: desinibir preconceitos e propagar violências, justificando-os através de piadas e chistes. Por Gabriel Bayarri.
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Nos anos prévios ao auge do trumpismo, “Pepe, o Sapo”, um popular meme da Internet, tornou-se viral entre o populismo global de direita. Tratava-se de um sapo antropomórfico verde com corpo humanoide que dizia sempre a mesma frase “feels good, man”. Inesperadamente, Pepe tornou-se um meme representativo da Internet quando a sua popularidade disparou no Myspace, Gaia Online e 4chan em 2008. A partir de então, o seu uso por parte de partidários de Trump, especialmente grupos alt-right e supremacistas brancos, foi tão forte que ele é considerado por muitos estudiosos como um dos elementos indispensáveis na comunicação digital que impulsionou o trumpismo para a presidência dos EUA.

Pepe, o Sapo não tardou em chegar à Europa, onde foi adotado por vários grupos populistas de direita, como a Frente Nacional (hoje conhecida como a União Nacional), ligando Pepe a Marine Le Pen. O meme continuou a viajar rapidamente e a representar diferentes formas de ironia e humor na América Latina, África e Hong Kong. A sua força fez com que fosse adicionado à base de dados de símbolos de ódio da Liga Antidifamação junto com a suástica e a cruz na gota de sangue do Ku Klux Klan. O enorme poder deste meme fez com que alguns estudiosos começassem a pensar na importância do humor e das imagens dos meme nos processos de globalização e radicalização política.

Em 2021, Fielitz e Ahmed, da Radicalisation Awareness Network (RAN), publicaram um relatório para a Comissão Europeia intitulado “Já não tem graça: o uso do humor por extremistas de direita”. Os autores defendiam a importância de estudar estas formas de comunicação violenta e a aprendizagem necessária que poderia ser promovida a partir do estudo de diferentes regiões do mundo, como os países latino-americanos. Assim, durante a recente campanha eleitoral brasileira, pude continuar a estudar o comportamento político dos eleitores do presidente Bolsonaro. No meu projeto atual, estudo como esta forma específica de comunicação memética contribui para entender a normalização da violência na extrema-direita latino-americana.

Milhares de imagens e vídeos curtos de TikTok inundaram as redes sociais no Brasil nesses meses. Os memes incitavam a um prazer desconhecido que não era fácil de decifrar. Na campanha eleitoral, o humor exercia uma violação da dignidade dos coletivos LGTBIQ+, racializados ou de esquerda, mas esta violência era apresentada através de um código que fazia parecer que se tratava de uma ação benigna. A maioria dos simpatizantes bolsonaristas achava engraçadas as piadas sobre estes grupos, pois de alguma forma estavam a atacar uma norma social e moral, o que chamavam de “politicamente correto”. Atacar estes coletivos fazia-os rir, pois o ataque a esta norma social e moral era simultaneamente combinado com um código particular que dava um caráter benigno à violação desta norma.

Assim, os meus informadores riam ao observar imagens caricaturadas do futuro presidente Lula a ser torturado, transformado num animal ou difamado: “é engraçado, estão a rir-se de um ladrão”. Da mesma forma, os entrevistados riam de imagens que mostravam cães apoiando o Bolsonaro, pois estes seriam devorados por hordas de petistas famintos; também gozavam com os pelos nos corpos de mulheres feministas, ou com a numerosa reprodução de coletivos afro-brasileiros que queriam receber ajuda social, que milhares de memes representavam em diversas formas.

O humor funciona na extrema-direita como uma forma prazenteira de desinibição de preconceitos. O processo de radicalização política pressupõe que exista um deslocamento cada vez maior da noção de violência maligna, ou seja, aquilo com que não se pode gozar, para uma violência benigna, que poderia ser objeto de humor.

À medida que o racismo, o machismo e outras formas de violência se foram normalizando na retórica bolsonarista, o ataque a estes grupos pôde ser explicitado com mais naturalidade. Os adversários políticos eram representados de formas cada vez mais explicitamente violentas na campanha eleitoral, troçando-se com a sua morte, castração, amputação, humilhação através de montagens pornográficas ou desumanizantes.

Numa época marcada pela desinformação online e pelo aumento dos níveis de polarização social, há um interesse crescente no debate público sobre o papel adequado que a comunicação memética deve desempenhar na abordagem de atividades nocivas. O papel do humor nos processos de polarização e radicalização política ainda não foi suficientemente estudado, embora investigações recentes mostrem semelhanças com os fascismos históricos: a construção de antagonistas através de imagens burlescas, especificamente do povo judeu, ciganos e da comunidade LGTBIQ+.

Há uma linha ténue entre riso e humilhação, comédia e tragédia, e humor e ferir. O humor torna-se um código fundamental para entender a dissonância cognitiva das extremas-direitas, para as quais funciona como uma forma de violência velada. Na América Latina, a condição pós-colonial implica que elementos do populismo de direita, como o autoritarismo, o militarismo e o racismo, estejam codificados através de formas comunicativas particulares.

A comunicação memética move-se nos códigos de humor e ironia, onde as regulações e normas internacionais são ambíguas. A internacionalização da cultura humorística está em curso na extrema-direita latino-americana pelo que é urgente estudar formas de regulação e educação sobre o uso desses códigos “soft” que desempenham um papel central nos processos de radicalização política.


Gabriel Bayarri é doutorando em antropologia na Universidade Complutense de Madrid e na Universidade Macquarie de Sydney. É escritor. Durante o período 2015-2018 foi conselheiro eleito pelo Si Se Puede!, integrante do Podemos em Espanha.

Publicado originalmente no Latinoamerica21, republicado no Outras Palavras. Editado pelo Esquerda.net para português de Portugal.

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