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O Haiti de escândalo em escândalo

Apresentando-se como impoluto, o presidente Jovanel Moïse diz querer arrancar o estado predatório das mãos dos oligarcas, mas obviamente só ataca os que exigem a sua saída. Por Arthur Mahon.
Tomada de posse do presidente Jovanel Moïse em 2017. Foto Igor Rugwiza/ONU

A 12 de janeiro de 2010, um potente terramoto devastou a área metropolitana de Port-au-Prince, a capital do Haiti. Os edifícios eram maioritariamente mal construídos, com cimento de fraca qualidade. Cerca de 250 mil pessoas morreram (uma em cada dez) e centenas de milhares ficaram feridas ou desapareceram. Desde então, as casas afetadas quase não foram reparadas e as novas casas foram construídas tal como antes do terramoto, sem ter em conta os padrões anti-sísmicos.

Nos últimos dez anos, o Haiti tem vivido ao ritmo dos escândalos. O escândalo da ajuda internacional que, supostamente, era para “reconstruir o Haiti”. No início, chegou a ajudar a salvar algumas vidas e a limitar o desastre. Mas ao colocar o Haiti sob tutela (de facto) em nome da “reconstrução” levou ao fiasco e enfraqueceu o Estado haitiano.

Por exemplo, a reconstrução do principal hospital público, entregue a uma empresa espanhola, está parada há 7 meses. Segundo a embaixada francesa, a maternidade foi “reabilitada” com a ajuda de Paris e Washington, mas os partos muitas vezes são feitos à luz do telemóvel da parteira.

Houve também o escândalo dos capacetes azuis, os pacificadores da ONU que trouxeram a cólera para o Haiti e multiplicaram as violações e ebusos sexuais. E a indignação das potências estrangeiras (incluindo a França) que falsearam as eleições para levar o cantor Michel Martelly, que lhes tinha jurado fidelidade, à chefia do Estado em 2011.

A isto seguiram-se repetidos escândalos durante a presidência Martelly, quando ele e a sua família se envolveram em corrupção, desvio de fundos e tráfico de cocaína. Houve incidentes envolvendo o Fundo Petrocaribe, que era financiado por empréstimos concedidos pela Venezuela em troca de petróleo. Entre os saqueadores deste fundo estava Jovenel Moïse, que depois se tornou Presidente da República (em 2017). Três empresas participaram nesta fraude. Duas delas, com o mesmo número de contribuinte, receberam cada uma centenas de milhares de dólares para fazerem o mesmo trabalho. Enquanto isso, as condições de sobrevivência pioraram para toda a gente, à exceção de uma pequena elite. Mas os escândalos sucessivos trouxeram à luz um sistema que se tornou inaceitável para vastos setores da sociedade.

Só há um capitão no navio

Desde o verão de 2018, os protestos generalizaram-se. Motins, manifestações de massas, bloqueios de estradas e barricadas paralisaram por diversas vezes o país. Nos últimos anos, ativistas e organizações de esquerda tentaram agir em uníssono e conseguiram ter um papel significativo. Contudo, em termos gerais, são os políticos burgueses (incluindo criminosos bem conhecidos) e setores populistas que tem marcado a agenda de protestos. A maior parte deles só quer a saída do Presidente Moïse e não mudanças profundas. A população carente é para eles apenas uma alavanca para a sua influência política.

Jovanel Moïse não foi abandonado pelas potências estrangeiras e conservou o seu lugar. Não tendo já a ajuda dos capacetes azuis (que saíram em 2017), apoia-se nos gangues armados, que protagonizaram diversos massacres. Apresentando-se como impoluto, diz querer arrancar o estado predatório das mãos dos oligarcas, mas obviamente só ataca os que exigem a sua saída.

A 22 de dezembro, anunciou que algumas pessoas “arriscam-se a ser vítimas de acidentes se cruzarem o seu caminho”. O fim do mandato dos deputados e alguns senadores ocorreu a 12 de janeiro. Jovenel Moïse, que nada fez para que as eleições se realizem, publicou um tweet no qual afirmou que “o parlamento expirou”. Longe de o lamentar, disse que era uma “oportunidade histórica”. Isto é mais que preocupante!


Arthur Mahon é membro da equipa editorial da revista “Volcans” e um ativista de longa data na solidariedade com a oposição haitiana. Artigo publicado em International Viewpoint. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net

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