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O diálogo entre cristãos e marxistas no nosso tempo

Sob o pontificado de Francisco, a possibilidade de diálogo entre a esquerda socialista e o cristianismo parece ter ganho um estatuto de alguma “naturalidade”. O que já foi um campo interdito por anátemas mútuos parece ter passado a ser uma possibilidade sem estranheza demasiada. Artigo de José Manuel Pureza publicado na revista Esquerda.

Os anátemas do centro e as convergências da periferia

A história do relacionamento entre as igrejas cristãs e a esquerda socialista é uma história feita de desencontros prolongados e profundos entre um ofensivismo desrespeitador do lugar irrecusável que o sentido da transcendência tem na existência humana e um defensismo da instituição eclesial e dos seus poderes ancestrais em perda. O ateísmo militante ancorado num positivismo incapaz de acolher a pluridimensionalidade do conhecimento e da experiência humana arvorou-se em construtor de um homem novo de tal forma liberto das alienações que o deixou entregue à mais completa solidão existencial e à racionalidade mais fria. Do outro lado, um cristianismo que se autorrepresentou como bloco ideológico diferenciado recusou pontes desafiadoras e fechou-se na conservação da ordem antiga. Esta é a história longa dos anátemas recíprocos, das incompatibilidades de princípio que se consumaram em condenações tão desapiedadas como falhas de inteligência e de sentimento.

E, no entanto, lá onde a realidade da pobreza e da exploração foi mais crua os cristãos sentiram necessidade de ir mais fundo na identificação dos mecanismos geradores dessa ofensa à dignidade das pessoas. Foi aí, onde a luta pela dignidade ganhou contornos mais difíceis que os anátemas entre a esquerda socialista e o cristianismo perderam sentido. A experiência das comunidades eclesiais de base e o recurso a quadros marxistas de leitura da realidade por teólogos da periferia resgataram a força de pontes antigas, que deram ênfase à prática conjunta e não à clarificação doutrinária. Depois disso, o diálogo entre o cristianismo e a esquerda socialista só pode estar centrado na busca comum de respostas mais completas para a realidade da opressão e da pobreza. Um cristianismo centrado sobre os pobres como sujeito preferencial do amor fraterno e uma esquerda socialista centrada sobre uma emancipação social feita de acrescentos concretos de justiça e de autonomia nas vidas das pessoas têm forçosamente de encontrar-se. Não para se amalgamarem indiferenciadamente, mas para dialogarem e experimentarem o tanto que há de idêntico entre as suas missões de libertação.

Esse diálogo entre marxistas e cristãos, que percorreu vários caminhos no passado, assume hoje uma importância acrescida, face à intensidade com que a desumanidade se afirma. Desde logo, nas várias expressões de desumanidade no presente para com os pobres, os precários, os refugiados e emigrantes ou as vítimas de abusos de toda a ordem (das crianças às mulheres, dos povos indígenas aos favelados ou às vítimas de violência racial, de género ou religiosa). Mas também nas expressões de desumanidade projetada num futuro cada vez mais próximo como sucede com a injustiça ambiental – ou seja, a desigual distribuição social, ou sociogeográfica, de efeitos ambientalmente nefastos – potenciada pelas alterações climáticas. Nestes contextos, torna-se cada vez mais imperativo ter presente a realidade dos pobres, dos de baixo, na compreensão do mundo e dos dispositivos que o (des)ordenam e dar densidade a uma ética de cuidado para com a criação. A busca de respostas para estas várias camadas de desumanidade constitui um desafio irrecusável à aproximação entre cristãos e a esquerda socialista.

A doutrina social da igreja como crítica do capitalismo
 

O diálogo entre cristãos e marxistas está longe de ser uma novidade do nosso tempo. Com a intensidade que atingiu na América Latina ou com outras focagens, ele foi-se desenvolvendo nesses espaços de encontro entre a denúncia cristã da geração de pobres pelo capitalismo e pelo seu modo de funcionamento inerentemente subalternizador do humano e as lutas da esquerda socialista pela transformação social e económica.

Vários textos papais que constituem referência para a chamada Doutrina Social da Igreja foram constituindo também desafios de reflexão para a esquerda socialista. Não porque abdicassem de uma crítica filosófica e prática do marxismo, mas porque afirmaram como princípios axiais do ensino social da Igreja a dignidade humana e o primado dos direitos humanos, a opção pelos pobres, a dignidade do trabalho e a superioridade do trabalho sobre o capital, o destino universal dos bens, o bem comum, a solidariedade, a luta pela justiça e a construção de uma paz positiva. Encíclicas como a Pacem in Terris (João XXIII), a Populorum Progressio (Paulo VI), a Sollicitudo Rei Socialis ou a Laborem Exercens (João Paulo II) ou a Laudato Si (Francisco) contêm diagnósticos abrangentes dos mecanismos geradores de desumanidade e de crise sistémica e convergindo, nesse propósito, com a agenda de preocupações prioritárias da esquerda socialista, são também referências de reflexão para todo o pensamento transformador e avesso ao sectarismo doutrinário e organizativo.

 

As contradições da Europa e a responsabilidade comum de cristão e de marxistas

Não é indiferente que a Europa como bem comum e como projeto comum esteja no centro Não é indiferente que a Europa como bem comum e como projeto comum esteja no centro desta fase do diálogo protagonizado pela DIALOP. Isso decorre da marca profunda deixada por contradições sociais, culturais e económicas na realidade europeia que desafiam a um tempo a reflexão e a ação de cristãos e de marxistas. Talvez se possam arrumar essas contradições em torno de quatro eixos principais. O primeiro é o que contrapõe o património de civilização ao legado de incivilidade da Europa. A Europa do cristianismo, das luzes, dos direitos, do Estado Providência cresceu colonizando, escravizando, espoliando, racializando. A tensão entre as duas realidades marca profundamente a realidade atual da Europa e não são sérias as leituras que absolutizam apenas um dos lados desta tensão, porque eles são isso mesmo: dois lados de uma mesma realidade. Diante do desafio prático que é este legado contraditório, cristãos e esquerdas marxistas estão convocados a pensar a ação coletiva que os seus credos impulsionam, conjugando o primado dos direitos e da dignidade com o resgate da memória da opressão.

O segundo eixo de tensão é o que põe frente a frente a riqueza da diversidade e as pulsões uniformizadoras. A diversidade política, cultural, religiosa, étnica, de modos de produção, foi sempre a grande riqueza da Europa. Hoje essa diversidade tende crescentemente a ser assumida como um fator de entropia e a ser combatida culturalmente pela xenofobia, a ser combatida economicamente pela afirmação de uma estandardização de modelos que tem na ortodoxia austeritária a sua iluminação, e a ser politicamente atacada pela fetichização do ‘único’ pelo discurso do europeísmo convicto: ‘mercado único’, ‘moeda única’ são ícones dessa religião da unicidade. A valorização do plural e a resistência ao unicitário conviveram, nas tradições cristãs e marxistas, com as pulsões redutoras da diversidade – e esse legado cultural e histórico apetrecha as duas culturas com instrumentos e com memórias para a estima alargada pelo diverso, pelo diferente, pelo outro.

O terceiro eixo de tensão é entre liberdade de movimento e enclausuramento: o melhor humanismo da Europa do presente – a segurança social – e o seu tesouro político – a democracia - atrairão aqueles tantos que, lá onde vivem, não contam com mais do que a providência da rede familiar mais ou menos alargada e com tecituras políticas autoritárias; o fechamento das fronteiras, com ou sem muros, e a hostilização dos imigrantes, não só no discurso político, mas nas práticas sociais mais disseminadas, fecham a Europa ao exterior e, quanto maior é esse fechamento, maior é a securitização dos movimentos cá dentro. Cristãos e esquerdas marxistas têm a responsabilidade de, neste quadro, concretizar uma articulação virtuosa entre o princípio cristão do destino universal dos bens e o postulado marxista da solidariedade internacionalista.

Finalmente, a quarta contradição é entre o que a Europa é e o modo como ela é representada pelos europeus. A Europa não é o centro do mundo. Há muito que o não é quer em geração e controlo de riqueza quer em geração e difusão de ideias novas. E, no entanto, essa realidade contrasta com a persistência da colonialidade do discurso e do pensamento dominantes na Europa. Os europeus insistem em falar da Europa e do mundo como se fossem centro e matriz e isso mostra como persiste uma inegável nostalgia – ou será uma ânsia? – do eurocentrismo como visão do mundo e da política para ele. A essa visão nostálgica e colonial contrapõem os cristãos o repúdio da supremacia de qualquer povo eleito e a esquerda socialista o repúdio da colonialidade como relação de poder.

Num tempo, como é o nosso, de acentuado desgaste, ideologicamente alimentado, da ideia de comunidade e da sua substituição pela sacralização da competição e da privatização, o cuidado do bem comum último que é o planeta em que vivemos é um imperativo não só de sobrevivência mas de alteração de políticas e de visões das coisas. É esse cuidado do planeta e da vida digna para todos que torna necessário o diálogo entre cristãos e a esquerda socialista. Ele é necessário para alimentar a resistência à lógica da competição e da privatização e para lhe contrapor o primado dos direitos de todos, o primado da conservação do planeta como casa comum partilhada justamente por todos, o primado da responsabilidade de todos por todos, o primado da pluralidade e do acolhimento do outro e, acima de tudo, o primado da transformação social em favor dos pobres e excluídos.

Artigo publicado em fevereiro de 2019 na revista Esquerda.

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