O primeiro-ministro turco, Tayyip Erdogan, chegou ao Egipto na última segunda-feira, no início de uma visita a três nações, e num momento em que a Turquia endurece a sua postura em relação a Israel e procura tornar-se a potência dominante entre os estados muçulmanos no Médio Oriente e no Norte de África.
Depois do Egipto, Erdogan visita a Tunísia e a Líbia, para mostrar o apoio da Turquia aos dois países após o derrube, pela Primavera árabe, de dois estados policiais de longa data. O regime forte, democrático e moderadamente islâmico da Turquia torna-o um modelo para os novos governos nos três países.
A atitude assertiva e crítica de Erdogan em relação a Israel, que era, até recentemente, um aliado próximo da Turquia, tornou-o atraente para o mundo árabe. No Cairo, o incêndio da embaixada de Israel no passado fim-de-semana foi o último incidente que marcou a hostilidade ao nível da rua entre os egípcios pós-Mubarak e Israel.
Ao mesmo tempo, a percepção entre os Estados árabes de que o presidente Barack Obama não ajudou os palestinianos, como prometera, ao mesmo tempo que dava apoio total a Israel, diminuiu a popularidade e a influência dos EUA na região.
Erdogan disse, numa entrevista antes de partir para o Cairo, que tinha visto “motivos para a guerra” contra Israel no ano passado, depois da morte de nove turcos por comandos israelitas no navio turco Mavi Marmara com destino a Gaza, mas que decidira “agir com paciência”. Deu a entender que, no futuro, a marinha do seu país iria proteger qualquer flotilha turca que se dirigisse a Gaza.
“A Turquia vai conseguir a maioria dos seus objectivos se não exagerar a mão”, disse um comentador. A Turquia já impôs sanções a Israel, em retaliação ao ataque ao navio de ajuda mas, de acordo com os seus assessores, Erdogan parece ter abandonado, no momento, a sua declarada intenção de visitar Gaza a longo prazo.
A Turquia tem-se beneficiado da Primavera árabe, por estar em provável sintonia com os novos governos democráticos, mesmo quando tinha boas relações com os seus antecessores.
Ankara também pode procurar preencher um vácuo, já que a maioria dos estados árabes mais poderosos, como Egipto e Iraque, estão mais fracos que antes de os seus governos terem sido derrubados. O Iraque nunca se recuperou do governo de Saddam Hussein e da violência que se seguiu.
Em nítido contraste com o Irão, a Turquia tem poucos inimigos sérios. Tem procurado mediar a questão do programa nuclear iraniano entre Teerão, que encara com suspeição, e os EUA e os europeus. Os dois países também têm um inimigo comum, na forma das exasperantes insurreições curdas, que desferem persistentes ataques guerrilheiros. Um ataque nocturno da guerrilha do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) na província de Hakkani, no leste da Turquia, matou cinco pessoas, incluindo dois membros da segurança.
O PKK matou cerca de 50 agentes de segurança da Turquia nas últimas semanas, desde que pôs fim ao cessar-fogo no início do ano. Embora Erdogan tenha posto o exército turco sob controlo civil, o seu governo não quer parecer fraco em qualquer confronto com o PKK.
Ankara está a pressionar o presidente do Curdistão iraquiano, Massoud Barzani, para isolar o PKK dos seus redutos na montanha no interior do Iraque. Barzani, que gostaria que a Turquia fosse um contrapeso a Bagdade, pediu nos últimos dias ao PKK e ao movimento de guerrilha curda no Irão que desistam da resistência armada.
A Turquia tem vindo a desempenhar um papel cada vez mais influente na política do Iraque, devido à sua capacidade de mediar entre diferentes partidos, seitas e grupos étnicos. Também tem desempenhado um crescente papel comercial: empresas turcas conquistaram até contratos para fazer a recolha do lixo em Bagdade e em Basra.
Na Síria, Erdogan criticou a repressão do presidente Bashar Al-Assad aos protestos, provavelmente calculando que o seu regime não vai sobreviver, pelo menos na sua forma actual. Do mesmo modo, na Líbia, a Turquia demorou, no início, a romper com o coronel Muammar Khadafi, mas quando o fez, adiantou 300 milhões de dólares aos rebeldes, num momento em que o dinheiro lhes fazia muita falta. A Turquia estava fortemente envolvida na área de construção na Líbia.
No geral, o isolamento de Israel, os levantamentos democráticos no mundo árabe, a fraqueza dos Estados árabes e a redução do poderio dos EUA na região têm trabalhado para o benefício da Turquia.
A sua influência está a crescer em toda a região, mas ainda há um longo caminho a percorrer para assumir o controlo dos acontecimentos.
Patrick Cockburn é jornalista e autor de “The ocupation: War, resistance and daily life in Iraq” (Ocupação: Guerra, resistência e vida quotidiana no Iraque) e de “Muqtada! Muqtada al-Sadr, the Shia revival and the struggle for Iraq” (Muqtada! Muqtada al-Sadr, o renascimento xiita e a luta pelo Iraque).