O capitalismo está a fazer-te sentir solitário

07 de janeiro 2024 - 12:45

Anos de estudos mostraram o crescimento de uma crise de solidão na sociedade, muito antes da Covid-19. O problema não é a rede social, a cultura popular ou a vida na cidade – é o capitalismo. Por Colette Shade.

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Foto de Alex Ivashenko / Unsplash.
Foto de Alex Ivashenko / Unsplash.

A solidão é uma crise global. De acordo com a Britain’s Campaign to End Loneliness [Campanha Britânica Pelo Fim da Solidão], 45% dos adultos sentem-se “ocasionalmente, às vezes ou com frequência sozinhos na Inglaterra”. Numa investigação de 2019, 22% dos millennials reportaram que “não têm amigos”. A Organização Mundial da Saúde (OMS) observou que a solidão afeta de 20% a 34% das pessoas idosas em lugares diversos como a Europa, Índia e América Latina. Vivek Murthy, ex-responsável pelo Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, já chamou tal problema de “epidemia” em 2017, mesmo antes da pandemia de Covid-19, que tornaram esta situação toda muito pior.

A solidão não é apenas um problema emocional. Um estudo longitudinal de quase oitenta anos, da Universidade de Harvard, mostrou que família, amizades e comunidade são os fatores mais decisivos quando falamos de saúde e felicidade.

“Cuidar do seu corpo é importante, mas cuidar de seus relacionamentos é também uma forma de auto-cuidado”, diz o Dr. Robert Waldinger, diretor do estudo e professor de psiquiatria na Harvard Medical School.

Num estudo de 2015, a psicóloga Juliana Holt-Lunstad descobriu que a solidão é um fator de risco para alta pressão sanguínea, doença coronária, derrame e depressão. Um facto frequentemente repetido no estudo sugere que a solidão é tão má quanto fumar 15 cigarros por dia.

Face a esta a informação, a crise de solidão mostra-se particularmente alarmante.

Algumas pessoas culpam as redes sociais. No começo dos anos 2010, comecei a notar que circulavam artigos que se perguntavam se passar tempo no Facebook, no YouTube e em outros sites fazia com que as pessoas parassem de cultivar as suas amizades da vida real. Ainda que o uso excessivo de redes sociais possa ser danoso, usos moderados podem ajudar as pessoas a manter-se conectadas – especialmente face a circunstâncias únicas como os confinamentos na pandemia. E, de uma forma ou de outra, há um impedimento maior à privacidade: o capitalismo.

Num sistema capitalista, muitas pessoas não têm tempo para ver as suas famílias e manter as amizades existentes – quanto mais criar e cultivar novas relações. É difícil arranjar tempo para ver as pessoas quando, por exemplo, se tem múltiplos empregos (frequentemente com turnos irregulares), se anda entre locais distantes, se cuida de crianças e membros da família e se dá conta de tarefas básicas como cozinhar, ir ao mercado e lavar roupas, por vezes tudo isto junto e misturado. Com frequência o tempo para socializar acaba empurrado para o final da lista de afazeres. Espaços públicos nos quais interagir socialmente de forma gratuita ou barata também estão a ficar muito raros e, quando o dinheiro é curto, as necessidades tornam-se prioridade. Tudo isto significa que vidas sociais atribuladas estão cada vez mais reservadas àqueles que conseguem custeá-las.

Claro, há muitas maneiras interessantes de aumentar a quantidade de tempo que se passa a socializar. Podes melhorar as tuas capacidades de gerir o tempo, estabeleceres datas concretas para ver as pessoas e esforçares-te por sempre reagendar quando algum plano não dá certo. Podes conhecer novas pessoas envolvendo-te num desporto, com um grupo religioso ou com uma organização política. Qualquer lista de como se sentir menos solitário possui alguma variação de sugestões do tipo “junte-se a um clube”.

Mas essas são soluções individualizadas para o que é, frequentemente, um problema coletivo. A realidade é que um dia tem um número finito de horas e, para a maior parte das pessoas, grande parte destas horas é tomada por alguma forma de trabalho, deixando pouco tempo – e ainda menos energia – para amizades. Anos de austeridade e cortes orçamentários têm vindo a fazer com que centros de convívio da juventude fechem a um ritmo alarmante, diminuindo cada vez o espaço para “clubes”.

Outro problema relaciona-se com os modos pelos quais a flutuação de capitais tem perturbado laços comunitários de longa data. Em cidades rurais e em cidades pós-industriais, o capital fugiu. Jovens destes lugares veem-se impelidos para o centro de capitais como Londres e Nova Iorque para encontrar bons trabalhos.

Mudanças para a cidade grande não significam, necessariamente, alienação. Na verdade, para muitas pessoas das comunidades LGBTQ, grandes centros urbanos continuam a ser locais nos quais podem buscar comunidades verdadeiras pela primeira vez nas suas vidas. Mas fluxos populacionais massivos tendem a ser alienantes, tanto para as pessoas que vão embora quanto para as que ficam.

Noutros casos, a desintegração da comunidade ocorre de forma reversa. Pessoas que cresceram nas zonas centrais de cidades são empurradas para fora por causa dos arrendamentos que só crescem, dispersando-se por locais mais baratos. Podem encontrar novas pessoas nas suas novas comunidades, mas laços construídos ao longo de anos, décadas e gerações jamais podem ser substituídos.

Para além de problemas como tempo e espaço, a desigualdade extrema torna mais difícil manter relacionamentos genuínos. Em The Inner Level, Kate Pickett e Richard Wilkinson, epidemiologistas, escrevem que os humanos reagem fortemente à “ameaça de avaliação social”, também conhecida como o medo do que as outras pessoas pensam. Quanto maior o nível de desigualdade económica, mais buscamos estatuto social e nos preocupamos com a nossa posição na hierarquia das relações. Mas relacionamentos saudáveis requerem vulnerabilidade mútua e confiança: o exato oposto da configuração atual.

Se queremos uma sociedade menos solitária, precisamos tornar as necessidades humanas – e os relacionamentos humanos – as nossas prioridades. Sob o sistema atual, isso não vai acontecer.


Colette Shade é uma escritora com foco em saúde mental, cultura e política.

Texto publicado originalmente na Jacobin.

Tradução de Diego Fernandes. Editado para português de Portugal.