Esta é a segunda parte do artigo. Ler primeira parte aqui
“Onde há poder, há resistência”. A resistência “nunca está em posição de exterioridade em relação ao poder”. As resistências têm de ser consideradas no plural: essas são “possíveis, necessárias, improváveis, espontâneas, selvagens, solitárias, concertadas, rasteiras, violentas, irreconciliáveis, prontas ao compromisso, interessadas ou fadadas ao sacrifício”.
Assumamos que o cenário das relações de poder em que estamos envolvidos consta dos pontos que temos apresentado até agora. Cada um de nós poderia fazer um rol – uns mais longo, outros mais curto - de situações que apresentem uma ou mais das características de resistência descritas por Foucault em “A Vontade de saber”.
Inteligência Artificial
O capitalismo algorítmico: a guerra, o caos e nós (I)
Stefano Rota e Rodrigo Magalhães
A questão maior continua a ser a mesma que atravessa os debates à esquerda há décadas: o quão elevado é o impacto de cada uma das resistências elencadas, não apenas no que respeita ao específico âmbito de sua referência, mas sim na construção e representação simbólica de outros possíveis.
Em cada ato de resistência há um processo de subjetivação, com características que mudam duma resistência para outra, e em escalas diferentes. Quais articulações ou ressonâncias se podem captar, favorecer e desenvolver entre subjetividades diferentes é uma questão tratada por variadas abordagens. Alimenta uma discussão que existe desde que se tornou claro que não há mais um sujeito único, à volta do qual construir o processo que nos levará a um futuro resplandecente.
Resistências e conflitos atravessam as sociedades sem terem um rumo único. Tomam, antes, formas, tempos e direções variáveis, a condizer com as emergências que surgem nos demais âmbitos onde aparece uma ameaça, uma injustiça, um valor a defender, ou a conquistar.
Tendo em conta a fragmentação à escala global dos processos de valorização do capital, a primeira coisa que nos parece evidente é que o encadeamento das resistências – levadas a cabo por sujeitos diferentes - produz efeitos maiores na medida em que se articula naquela escala.
Isto conduz-nos a assuntos importantes.
Em primeiro lugar, a visibilidade das ações e a capacidade de intervir nos pontos sensíveis da organização do sistema que chamamos capitalismo algorítmico. Os estivadores do porto de Génova e os povos indígenas da Amazónia agem com meios, modalidades e objetivos diferentes, diferentes também em relação àqueles utilizados por um hacker que trabalha numa plataforma qualquer, ou pelos armazenistas da Amazon.
Estes quatro exemplos de sujeito produzem atos de resistência, cuja visibilidade e relevância estratégica são ditadas por múltiplos factores. A sua colocação ao longo de cadeias de produção de valor torna as resistências e os conflitos emergências de elementos de ruptura política. Aqueles atos problematizam por dentro a ordem global que os inclui, a partir das suas fissuras e contradições.
As condições para transformar o poder expresso pela polifonia de vozes e ações resistentes em potência subversiva alicerçam-se em questões essenciais e complexas. Duas, em particular, são brevemente argumentadas nesta parte final do texto.
A primeira tem a ver com uma definição das ações em si, que nos ajude a abarcar a multiplicidade de que somos – direta ou indiretamente - testemunhas.
Retomemos os quatro exemplos anteriores, aos quais poderíamos acrescentar outros que estão quotidianamente diante dos nossos olhos, como os comités de cidadãos contra o despejo de inquilinos, ou para defender espaços sociais comuns.
Se encararmos aquelas lutas como pontos – implícita ou explicitamente – interligados, não será suficiente defini-las como espontâneas, coletivas, auto-organizadas. Como sugere Rodrigo Nunes em Nem horizontal nem vertical (2023), o termo melhor para descrevê-las é o de ações distribuídas, pois há algo que, de qualquer maneira, as une. Distribuída não é sinónimo de solta.
Um conceito simples de estatística ajuda-nos a representar a distribuição das ações. As ações distribuem-se em função de uma linha, em relação à qual os pontos (as ações) resultam dispersos, com maior ou menor distância. A sua representação gráfica é um diagrama de dispersão, com os “pontos de resistência” a distribuírem-se em redor duma linha, que, neste caso, poderíamos definir como a tendência - num momento e num espaço específico - das ações contra o biopoder do capitalismo algorítmico.
Os pontos variam, tanto na posição no diagrama, como em número. Em consequência disso, muda a inclinação da linha, define-se um devir que não é constante e previsível – ao contrário do que acreditam ainda hoje os seguidores de uma ortodoxia marxista sobre o único sujeito revolucionário.
Querendo utilizar a terminologia de Laclau, poderíamos chamar a esta linha “significante vazio”: não pertence diretamente e exclusivamente a nenhum dos pontos, mas cada um mantém uma relação, mais ou menos estreita, com ela. Maior o número de pontos de resistência e a sua proximidade com a linha, maior a intensidade e a potência em si da própria linha.
O segundo elemento – relacionado com o primeiro - tem a ver com a questão da organização. Os pontos daquela dispersão podem produzir efeitos locais, circunscritos, valiosos e bem relacionados com outros. O problema, de longa data, é como desencadear processos de consolidação e multiplicação que tornem aqueles efeitos um ponto de guinada, de não retorno. As experiências na maioria dos países do mundo mostram como aquela perspectiva está longe de ser facilmente alcançável.
Sendo a escala global a única de que hoje faz sentido falar, o padrão organizacional também tem de condizer com aquela escala. Isto significa que não existe o modelo ideal, que pode ser exportado ou importado, como acontecia há décadas com a forma-partido. Cada ação localmente contextualizada tem de encontrar o seu posicionamento numa “rede de trabalhos” (worknet), mais do que num trabalho de rede (network), segundo a feliz distinção dada por Bruno Latour. O que é central não é a estrutura da rede em si, mas, sim, a capacidade dos trabalhos de produzir conexões de rede, que vão além da imediata identificação do que é contíguo.
A este respeito, a sugestão de Nunes no ensaio acima referido é bastante clara. Não faz sentido pensar em termos de organizações individuais, mas antes conceber a organização “como uma ecologia distribuída de relações que atravessam e reúnem diferentes formas de ação”. Ou, em termos ainda mais claros, “uma rede não totalizável, composta de inúmeras redes, uma ecologia de rede em constante evolução” (205).
Ações distribuídas e ecologia da organização produzem uma tensão produtiva, baseada na valorização de especificidades e diversidades, no seio de uma lógica de funcionamento rizomática. Uma tensão que amplia o número de nós, subindo e descendo ao longo das cadeias de abastecimento. Uma tensão, enfim, que define novos objetivos, sempre que se dão as condições, redesenhando e favorecendo as conexões entre novos e velhos sujeitos resistentes.
A experiência da luta dos estivadores contra a guerra e o manuseamento de qualquer tipo de mercadoria com ela relacionada ensina-nos muito.
Travada pelos estivadores de Génova em 2019, chegou, em 2026, a assumir uma dimensão internacional, e internacionalista. Ao longo desses sete anos, a “linha” - como foi definida acima - ganhou um rumo bastante claro e favoreceu o alastramento das iniciativas para todo o tecido social da cidade.
Em 2025 essas mobilizações chegaram, com a solidariedade à Palestina, a ter uma dimensão inusitada. Houve muitas ocupações de escolas e da universidade, os centros sociais organizaram debates sobre o significado do “regime de guerra”, alguns partidos políticos menores da esquerda e o sindicato de base USB ampliaram ainda mais a leitura da fase atual, envolvendo outros sujeitos, principalmente na logística. Até o conselho municipal da cidade de Génova tomou uma posição clara contra o tráfego de armas no porto. Muitos artistas ofereceram-se para apoiar a luta com as suas obras. Uma organização de voluntariado recolheu cerca de 400 toneladas de produtos a enviar para a Palestina, em concomitância com a missão da “Global Sumud Flotilla”.
O eco internacional foi enorme: na greve geral proclamada pelos estivadores em novembro de 2025, estiveram em Génova Greta Thunberg, Yanis Varoufakis, Chris Hedges e os rabinos nova-iorquinos opositores à ocupação da Palestina.
O passo seguinte foi em fevereiro de 2026, com a proclamação de uma greve internacional. Aderiram os trabalhadores de mais de vinte cidades europeias e mediterrânicas. A manifestação em Génova teve a participação de - e foi parcialmente liderada por - Chris Smalls, o trabalhador da Amazon de Staten Island que organizou o primeiro sindicato dentro de uma das unidades estado-unidenses daquela empresa.
Cada escola, universidade, centro social, até chegar às organizações de trabalhadores de outras cidades, escolheu autonomamente a forma de se juntar àquela luta, ou, para melhor dizer, de fazer daquela luta a própria luta. Houve discussões coletivas - em salas repletas de gente - onde cada representante dum dos “pontos” explicava a maneira de levar a cabo a própria resistência.
Em suma, ações distribuídas que mostram uma atitude a contar com lideranças igualmente distribuídas. Como sedimentar, ampliar e fortalecer esses worknet de experiências de luta é uma questão longe de ser suficientemente analisada. Não obstante isso, parece-nos que aquela lógica de ação e organizacional representa hoje o único rumo viável.
Isto faz-nos voltar, de forma interlocutória, ao assunto com que começou este texto.
Se aceitarmos que o nosso presente está marcado pela emergência de uma nova ordem mundial à qual chamamos capitalismo algorítmico - com a produção de guerra e caos e baseado na lógica do conectivismo entre homem e máquina - quais desafios temos à nossa frente, em termos de ações e da sua organização?
Ou, dito de outras formas, como construir as conexões com aqueles segmentos da cadeia indispensáveis para que o conflito seja levado lá, onde o capital ganha maior força, isto é, onde produz informação abstrata, por meio da apropriação da cooperação social em escala global?
Essas questões, que não passam de dúvidas, sobre as quais o debate está, felizmente, vivo e aberto, foram já apresentadas num outro artigo. Aí, foram também discutidas as possibilidades de promover o uso e a função de internet em chave democrática, assim como as descrevem muitos estudiosos.
Isso nada subtrai à urgência de produzirmos nós as conexões de que precisamos, entre lutas fisicamente visíveis e lutas digitalmente vivíveis. Sem essas conexões, os nossos atos de pirataria não nos levarão ao tesouro mais importante, aquele para o qual ainda vale a pena viver.
Stefano Rota é investigador independente. Administra o blog “Transglobal”. As suas mais recentes publicações coletivas são La fabbrica del soggetto. Ilva 1958-Amazon 2021 (Sensibili alle foglie, 2023), e em G. Ferraro (edição), Altraparola. La figura di sé (Efesto Edizioni, 2024). Colabora pontualmente com revistas online italianas e lusófonas. Rodrigo Magalhães é livreiro em Lisboa. Publicou Cinerama Peruana (2013, Quetzal) e Os Corpos (2017, Quetzal). Colabora pontualmente com revistas online portuguesas e italianas.