O Árctico preso num círculo vicioso

22 de setembro 2010 - 0:34

As emissões de dióxido de carbono derivadas da queima de combustíveis fósseis derretem os gelos do Mar Árctico, alterando perigosamente o equilíbrio energético de todo o planeta, acrescentam.

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Árctico - Foto de Vinay Deep/flickr

Uxbridge, Canadá, 21/9/2010 – “O gelo do Árctico alcançou o seu quarto nível estival mais baixo nos últimos quatro anos”, disse Mark Serreze, director do Centro Nacional de Dados sobre Gelo e Neve em Boulder, no Estado norte-americano do Colorado. O volume de gelo que resta no Árctico provavelmente terá alcançado este mês o menor registo da história, afirmou Mark à IPS. “Reitero as minhas declarações anteriores de que a cobertura gelada do Mar Árctico no verão experimenta uma espiral de morte. E não se recuperará”, acrescentou.

Não pode haver recuperação porque a cada verão somam-se à região enormes quantidades de calor extra, enquanto mais de 2,5 milhões de quilómetros quadrados do Oceano Árctico ficam expostos ao calor do Sol de verão durante 24 horas. E um Oceano Árctico mais quente não só demora mais para congelar como também emite enormes volumes de calor adicional na atmosfera, alterando os padrões meteorológicos do hemisfério Norte, confirmaram os cientistas.

“O inverno excepcionalmente frio e nevado de 2009-2010 na Europa, Ásia oriental e no leste da América do Norte está vinculado com os processos físicos únicos que se produzem no Árctico”, disse à IPS James Overland, do Laboratório Marinho Ambiental do Pacífico da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, em entrevista exclusiva concedida em Junho em Oslo.

Paradoxalmente, um Árctico mais quente significa que “futuros invernos frios e nevados serão a regra e não a excepção” nestas regiões, acrescentou. Cada vez há mais evidências dos impactos generalizados de um Árctico mais quente, concorda Mark. “Capturar todo esse calor adicional tem que ter impactos, que aumentarão no futuro”, disse.

Um efeito local que já se faz sentir é o rápido aquecimento das regiões costeiras do Árctico, onde as temperaturas médias agora estão entre três e cinco graus mais elevadas do que há 30 anos. Se a temperatura média mundial aumentar do actual registo de 0,8 grau para dois graus, como parece provável, toda a região do Árctico se aquecerá pelo menos entre quatro e seis graus, e possivelmente oito, devido a uma série de processos conhecidos como “amplificação” da área.

Se o Árctico ficar seis graus mais quente, então metade do permafrost (gelo permanente) do mundo provavelmente derreterá vários metros, libertando a maior parte do carbono e metano ali acumulados durante milhares de anos, disse Vladimir Romanovsky, da Universidade do Alasca em Fairbanks e especialista mundial em permafrost. O metano é um gás de efeito estufa aproximadamente 25 vezes mais potente do que o dióxido de carbono. Isso seria catastrófico para a civilização humana, afirmam os especialistas.

A região do permafrost ocupa 13 milhões de quilómetros quadrados de Alasca, Canadá, Sibéria e partes da Europa, e contém pelo menos o dobro do carbono agora presente na atmosfera: 1.672 gigatoneladas, segundo um estudo publicado em 2009 na revista Nature. É três vezes mais carbono do que o contido em todas as florestas do mundo. “O derretimento do permafrost é observado consistentemente em toda a região desde a década de 1980”, disse Vladimir numa entrevista.

Um estudo de 2009, realizado no Canadá, documentou que nos últimos 50 anos o limite mais meridional do permafrost diminuiu 130 quilómetros na região da baía de James, na província do Quebec. No seu limite norte, pela primeira vez numa década, o calor do Oceano Árctico se estendeu para além da área continental neste verão, acrescentou Vladimir.

Não há estimativas certas sobre quanto dióxido de carbono e metano emite o permafrost ao derreter ou o permafrost submarino, que actua como cobertura sobre quantidades desconhecidas de hidratos de metano (um tipo de metano congelado) ao longo da plataforma do Árctico, afirmou este especialista. “O metano está sempre em qualquer parte onde se perfure o permafrost”, destacou.

Na primavera passada, no hemisfério Norte, os colegas de Vladimir informaram que anualmente cerca de oito milhões de toneladas de metano saem à superfície na forma de bolhas, das planícies árcticas do leste da Sibéria, segundo as primeiras medições feitas ali. Se apenas 1% do metano submarino do Árctico chegar à atmosfera, poderá quadruplicar a quantidade de metano que actualmente existe nela.

O actual derretimento do permafrost, relativamente lento, pode acelerar em poucas décadas, libertando enormes quantidades de gases de efeito de estufa, disse Vladimir. Tanto ele como outro especialista em permafrost, Ted Schuur, da Universidade da Flórida, concluíram que “em questão de décadas poderemos perder boa parte do permafrost”.

Nem as emissões de dióxido de carbono nem as de metano derivadas do derretimento do permafrost são consideradas nos modelos do clima mundial, e passarão vários anos antes que isso possa ser razoavelmente bem aceito, disse Ted à IPS.

Envolverde/IPS