Nuno Júdice (1949-2024): poeta e formador de sensibilidades

18 de março 2024 - 12:50

O poeta Nuno Júdice faleceu este domingo aos 74 anos. Figura inovadora da poesia nacional, marcou também o panorama cultura nacional com os seus ensaios e o seu ensino.

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Nuno Júdice em 2014. Foto de Gustav Svensson/Wikimedia Commons.
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Nuno Júdice faleceu este domingo aos 74 anos. Destacou-se como poeta mas foi igualmente ensaísta, romancista e professor universitário.

Nasceu a 29 de abril de 1949 nas Mexilhoeira Grande, Portimão. Academicamente, fez o seu caminho primeiro na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Filologia Românica, e mais tarde na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde se doutorou em 1989 com a dissertação O espaço do conto no texto medieval. Ali foi professor universitário, ensinando literatura francesa, depois de ter sido professor do ensino secundário durante quatro anos.

Para além disso, foi diretor da revista Tabacaria da Casa Fernando Pessoa, Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal e diretor do Instituto Camões em Paris e também diretor da Revista Colóquio-Letras .

Em 1972, aos 23 anos, estreou-se como poeta com A Noção de Poema. A poesia acompanhou-o toda a sua vida. O seu último livro de poemas, Uma Colheita de Silêncios, foi publicado o ano passado.

Ao todo escreveu 80 livros, contando com obra ficcional, a dramaturgia, o romance e o conto. Noutro registo, foi ainda autor de várias antologias literárias, como Voyage dans un siècle de Littérature Portugaise sobre o século XX português, de trabalhos de crítica literária e estudos de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

Pela sua obra literária foi galardoado com prémios como o Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana, o Prémio Internacional de Poesia Camaiore e o Prémio Rosalía de Castro do Centro PEN Galiza, o Pablo Neruda (por O Mecanismo Romântico da Fragmentação), o Pen Clube (por Lira de Líquen), o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus (por As Regras da Perspetiva) e Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (por Meditação sobre Ruínas), o Review 2000 da Associação Internacional de Críticos Literários (por Rimas e Contas) e o Prémio de Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários.

Uma nova forma de escrever, uma ironia extraordinária e o fascínio de esculpir contradições

Na ocasião da sua morte, várias figuras salientaram a importância e originalmente da sua poesia no panorama português. À Lusa, Pedro Sobral, diretor-geral do grupo Leya, considerou tratar-se de um “dia muito triste para a cultura portuguesa” porque ele “ trouxe uma nova forma de escrever poesia durante todos estes anos” e “além de ser um poeta e ficcionista extraordinário e que marcará a literatura e a cultura portuguesa, era, acima de tudo, um homem extraordinário. Acho que tocou todos os que trabalharam com ele, era um homem muito cordato, gentil, discreto, mas um cavalheiro”. E, com o seu trabalho conseguiu “formar muito a sensibilidade para a leitura da poesia, nomeadamente da poesia em língua portuguesa. Acho que este é o grande legado dele”, afirmou.

Ao Diário de Notícias, o seu amigo e também poeta Luís Filipe Castro Mendes descreveu-o como “um dos poetas mais importantes” da geração que começou a publicar nos anos 1970, sendo a sua obra “muito original, desligada das correntes literárias, muito consistente e coerente”, usando “sempre, sempre, uma ironia extraordinária”, colocando “sempre uma distância irónica face ao que ele próprio escrevia”.

Num texto de balanço sobre os 50 anos da sua poesia, publicado pelo Jornal de Letras em 2022, António Carlos Cortez tinha-lhe gabado o despojamento, a capacidade de atingir o essencial e o seu poder descritivo, notando que “talvez nenhum outro poeta do nosso tempo tenha, como Nuno Júdice, assumido de forma tão radical o fascínio de esculpir, em formas fixas ou livres, os mitos, as paixões e as contradições de uma Europa e de um mundo que, sob as ruínas, o poeta reedifica numa subversão total” e “sobrecarrega, nesse processo de purificação, o texto dum pensamento que, posto na página, ao passar pela superfície do real, o transforma, o embacia para dar a ver a outra realidade que a poesia cria”.

Já António Guerreiro, no Público, chamou-lhe “poeta de um eterno retorno” que fazia da poesia “um teatro de sombras e de máscaras” num “jogo que implicava a sua própria crítica”. Na sua avaliação, a primeira poesia de Júdice “era habitada por uma aura de canto iluminado (…) que procura a essencialidade em qualquer contingência e a eternidade em cada instante” e a mais recente “tornou-se muito permeável a investimentos de outra ordem: subjectivos, ficcionais, longe da impessoalidade que marcou a sua primeira fase, admitindo aliás uma muito maior abertura à circunstância, ao episódio imediato, a uma poesia muito menos marcada pela tensão interna e pela questionação de si mesma.

Passar o pano da metáfora para acrescentar pó

Ao Hoje Macau, em 2021, o próprio considerava que no seu percurso poético tinha “mantido a escrita sobre os mesmos temas”, havendo “um desenvolvimento e uma aproximação dessas realidades que vão amadurecendo com o tempo”, afirmando não rejeitar “nada daquilo que escrevi. É como se fosse um livro que tivesse começado a ser escrito em 1972 e que ainda continua.” Sendo que “um aspeto essencial é que o poema fale com o leitor e que haja um diálogo entre os dois. Isso é o mais difícil.”

E, na forma poética, escreveu sobre a poesia: “Se eu quisesse falar das tarefas da poesia/ talvez começasse por compará-la com o que/ se tem de fazer a uma janela quando os vidros/ estão sujos de de um pó de muitos anos de vento/ e abandono. Então passo o pano da metáfora/ por esse vidro, mas em vez de o limpar ainda/ acrescento ao pó as imagens que vinham agarradas ao pano."

E, em entrevista ao Expresso, em 2011, dizia que “o que está na origem do poema é uma imagem”, sendo a poesia “coisa visual”: “pode ser um quadro, um céu, uma nuvem, um pássaro... Coisas concretas. E dessa imagem nasce o primeiro verso, que me pode levar a situações que nada têm a ver com o ponto de partida”.

No mesmo texto, lamentava que o escritor tivesse deixado “de ter o estatuto público que decorria da necessidade de interrogar” e que a imprensa estivesse ocupada “por um tipo de discurso que é o discurso do poder ou de um contrapoder que aspira a ser poder” e que “tudo o que fica de fora desse espaço e desse discurso com objetivos táticos deixa de ter lugar.

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