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Novas acusações a Assange representam “escalada de ataques ao jornalismo” nos EUA

Um tribunal federal norte-americano decidiu juntar mais 18 acusações, incluindo espionagem, ao fundador do Wikileaks, que arrisca uma pena de 175 anos de prisão. Defensores dos direitos civis falam de ataque sem precedentes ao jornalismo.
Cartaz "Free Assange"
Foto Antonio Marín Segovia/Flickr

No pedido inicial de extradição de Julian Assange para os Estados Unidos, apenas constavam uma série de crimes informáticos. Agora, um tribunal federal decidiu avançar com novas acusações, que incluem crimes ao abrigo da Lei de Espionagem, por ter tido acesso e divulgado documentos classificados dos EUA.

Esta acusação está a levantar receios entre muitos jornalistas que investigam temas sensíveis e diretamente ligados à segurança do Estado, que temem poder ser as próximas vítimas de perseguição judicial por fazerem o seu trabalho. “As acusações assentam totalmente no comportamento que os jornalistas de investigação assumem todos os dias”, afirmou ao New York Times um responsável do Knight First Amendment Institute at Columbia University. Para Jameel Jaffer, esta acusação “deve ser entendida como um ataque frontal à liberdade de imprensa”. O próprio New York Times teve acesso aos mesmos documentos expostos pelo Wikileaks sem autorização do governo.

A divulgação dos documentos obtidos pelo Wikileaks com a ajuda de Chelsea Manning, que incluiu os telegramas das embaixadas norte-americanas em muitos países,  permitiu descortinar não apenas crimes de guerra, mas também casos de corrupção da elite política de vários Estados.  

Para a associação de direitos civis ACLU, as novas acusações “representam uma escalada extraordinária dos ataques ao jornalismo por parte da administração Trump, criando um precedente perigoso que pode ser usado para visar órgãos noticiosos que pedem responsabilidades aos governos ao revelar os seus segredos”. Por outro lado, acrescenta a ACLU, a decisão do tribunal acrescenta novos perigos ao trabalho dos jornalistas norte-americanos que fazem trabalho de investigação noutros países: “Se os EUA podem acusar um editor estrangeiro de violar as nossas leis de sigilo, nada impede a China ou a Rússia de fazerem o mesmo”.

O veterano Jornalista e repórter de guerra John Pilger vai mais longe e diz que é “o fascismo moderno” que surge nesta decisão que é uma mensagem a cada jornalista. “O alvo hoje é Assange. Amanhã serão vocês no New York Times, vocês na BBC”, avisa.

Advogado de Assange diz que crime informático foi apenas “cortina de fumo” para esta acusação

A editora-chefe da Wikileaks, Kristinn Hrafnsson, afirma que a acusação contraria a Primeira Emenda constitucional dos EUA e lança “um ataque aos princípios básicos da democracia na Europa e no resto do mundo”.

“Este é o ataque mais grave à liberdade de imprensa neste século”, afirmou o advogado de Assange. Barry J. Pollack sublinhou que esta nova acusação veio afastar “a cortina de fumo de que este caso era meramente sobre crimes informáticos” e lamentou que o governo tenha acusado Assange ao abrigo da Lei de Espionagem por “encorajar as fontes a fornecer-lhe informação verdadeira e publicar essa informação”, reafirmando a ameaça que esta acusação representa para “todos os jornalistas na sua missão de informar o público sobre ações levadas a cabo pelo governo dos Estados Unidos”.

A decisão final sobre a extradição de Assange do Reino Unido para os EUA cabe ao governo britânico, “que fica agora sob enorme pressão para proteger os direitos da imprensa livre no Reino Unido e no resto do mundo”, concluiu o causídico.

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