O encontro com André Breton em Paris revoluciona a vida de Mário Cesariny, que encontra no surrealismo o seu espaço de liberdade criativa e subversão. Poeta e artista multifacetado, Cesariny é considerado um dos maiores representantes do surrealismo português.
Recusando-se a obedecer às convenções sociais e estéticas que lhe eram impostas, Cesariny foi intenso na vida e na obra. A identidade e prática queer, que nunca escondeu, e que está patente na sua obra, valeu-lhe o confronto direto com a polícia política e o moralismo bafiento do regime salazarista. Mário Cesariny foi, inclusive, muitas vezes detido pela polícia de costumes por “vagabundagem”.
“Eu acho que se se é surrealista, não é porque se pinta uma ave, ou um porco de pernas para o ar. É-se surrealista porque se é surrealista!” Mário Cesariny em Verso de Autografia (2004)
No centenário do seu nascimento, são várias as homenagens que lhe são prestadas.
Entre 9 e 13 de agosto, o Público e o realizador Miguel Gonçalves Mendes disponibilizam o documentário Autografia, vencedor do Prémio de Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004. A obra é “um retrato, um mergulho na vida, no percurso e na obra do poeta e pintor Mário Cesariny”.
Esta quarta-feira são inauguradas em Lisboa duas exposições sobre a vida e legado de Cesariny: “Primeira Pessoa”, na Casa da Liberdade; e “… e os seus contemporâneos”, na Perve Galeria, em Alfama. Ambas têm curadoria de Carlos Cabral Nunes e estarão patentes até 26 de novembro, data em que se assinalam 17 anos volvidos sobre a morte de Mário Cesariny.
Também esta quarta-feira, e antecipando o lançamento, sexta-feira, do disco Os Poetas – O Homem em Eclipse, que, de acordo com o Público, conta com gravações de poemas de Cesariny na sua própria voz ou ditos pelo actor Miguel Borges, e acompanhamento musical dos sintetizadores de Rodrigo Leão e do acordeão de Gabriel Gomes (acordeão), os responsáveis do projeto apresentam pelas 18h um espetáculo na Cinemateca de Lisboa.
A Fundação Cupertino de Miranda (FCM), em Vila Nova de Famalicão, distrito de Braga, inaugurou no sábado a exposição “Mário Cesariny: Em todas as ruas te encontro”, que vai estar patente até 8 de setembro de 2024. Neste período de um ano, a FCM promove várias outras iniciativas no âmbito do centenário de Cesariny.
Entre 3 de outubro de 2023 e 18 de fevereiro de 2024, o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa, recebe a exposição “O castelo Surrealista”.
No Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante, distrito do Porto, estará patente, de março a junho de 2024, uma exposição do artista. Entre junho e setembro do próximo ano, o Centro de Arte Contemporânea de Coimbra também abrirá a porta às obras de Cesariny.
As celebrações do centenário do seu nascimento atravessam fronteiras. Em novembro, será apresentada, no Théâtre de La Ville de Paris, a antologia de poesia traduzida para francês, bilingue, com tradução de Bernardo Haumonte e prefácio de Emília de Almeida.
Por ocasião do centenário de Mário Cesariny, o Esquerda.net reproduz o seu poema "Pastelaria”, assim como disponibiliza um vídeo, de 2011, no qual o músico Sir Scratch recita este mesmo poema.
“Pastelaria
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita genteque come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.”