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Nicarágua: Morreu o "Comandante Cero"

Edén Pastora faleceu aos 83 anos. Até ao fim da sua vida, foi um seguidor fiel de Ortega. Quando, em abril de 2018, havia grandes protestos civis contra o governo, Pastora ajudou a formar os grupos paramilitares responsáveis pela sangrenta repressão. Artigo de Matthias Schindler.
Em abril de 2018, perante grandes protestos civis contra o governo, Pastora ofereceu-se ao serviço de Daniel Ortega. Na foto, Daniel Ortega e Edén Pastora
Em abril de 2018, perante grandes protestos civis contra o governo, Pastora ofereceu-se ao serviço de Daniel Ortega. Na foto, Daniel Ortega e Edén Pastora

No dia 16 de junho, Edén Pastora Gómez faleceu aos 83 anos de idade. Uma vez alcançou fama mundial como Comandante Cero, quando invadiu o Palácio Nacional da Nicarágua em 1978, à frente de um comando da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Ao tomar mais de mil deputados e outros funcionários do Estado como reféns, o comando conseguiu libertar 59 presos políticos, distribuir uma declaração política através da imprensa e da televisão e deixar o país em segurança. Antes de entrar no avião, Pastora arrancou a máscara do seu rosto – ao contrário das orientações da FSLN – e pôde assim ser identificado diante das câmaras do mundo. Isto fez dele um herói nacional da Nicarágua.

Na fase final da luta de libertação, foi o chefe da Frente Sul, que conseguiu enfraquecer consideravelmente a Guarda Nacional numa dura guerra de trincheiras, o que contribuiu significativamente para o derrube do ditador Somoza em 1979. Por isso foi como pessoa – além de Tomás Borge – uma das poucas figuras sandinistas conhecidas do povo da Nicarágua. Todas as suas ações políticas estiveram sempre ligadas a uma encenação pública da sua pessoa.

Devido à sua popularidade, esperava desempenhar um papel importante na Nicarágua revolucionária. Mas a mais alta liderança da FSLN, os nove Comandantes da Revolução de orientação marxista, tinha apenas uma confiança limitada nele, porque era considerado um social-democrata e, portanto, politicamente demasiado moderado. Por conseguinte, só lhe foram atribuídas posições de importância secundária e decorativa. Assim, foi-lhe atribuído – juntamente com 36 outros combatentes – o título honorário de Comandante Guerrillero, a chefia das milícias populares e, mais tarde, a posição de vice-ministro dos assuntos internos.

Em 1981, deixou a Nicarágua e publicou uma carta criticando o rumo político dos sandinistas no poder. Em 1982, em conjunto com outros dissidentes, fundou a Aliança Democrática Revolucionária (ARDE) para combater militarmente contra o governo da FSLN. Por um lado, recusou-se a unir forças com os Contra das Forças Democráticas da Nicarágua (FDN), apoiados pelos EUA, e, por outro, as ações armadas da ARDE nunca tiveram grande êxito. Mas como Pastora sempre esteve disponível para sessões fotográficas com a imprensa internacional, muitas pessoas passaram a chamá-lo de Comandante Kodak. Em 1984, escapou por pouco a uma tentativa de assassinato da FSLN, que tinha tentado matá-lo através de uma bomba numa conferência de imprensa na quinta La Penca. No entanto, vários jornalistas foram mortos durante esta ação.

Em 1986, Pastora terminou a luta armada e reintegrou-se lentamente na vida civil da Nicarágua. Em 1990 apoiou, nas eleições, o Partido Social-Cristão, que fazia parte da aliança da oposição UNO. Em 1996, a sua candidatura fracassou porque o conselho superior eleitoral não o permitiu. Em 2006, concorreu à presidência na lista “Alternativa à Mudança” e obteve 0,27% dos votos.

Depois de Daniel Ortega ter retomado a presidência em 2007, entregou a Pastora a responsabilidade por um grande projeto de construção de dragagem do rio San Juan.

Quando, em abril de 2018, havia grandes protestos civis contra o governo Ortega e foram erguidos bloqueios de estradas por todo o país, Pastora ofereceu-se ao serviço de Ortega. Segundo as suas próprias declarações, visitou 14 cidades para convencer os antigos combatentes da FSLN a participar nas operações de limpeza violentas e armadas contra estas barricadas. Os grupos paramilitares formados como resultado destes encontros preparatórios levaram a cabo – em cooperação declarada com a polícia – uma onda de repressão, que resultou em mais de 300 mortos, de 600 presos políticos, mais de 2.000 feridos e várias dezenas de milhares de pessoas que tiveram de emigrar para outros países em busca de uma vida digna e segura.

Até ao fim da sua vida, Pastora foi um seguidor fiel – para não dizer cego – de Ortega, cuja passividade catastrófica face à pandemia de Covid-19 se tornou responsável, pelo menos parcialmente, pela sua morte.

Artigo de Matthias Schindler

Sobre o/a autor(a)

Técnico de construção de máquinas reformado. Politógo.
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