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Nicarágua: Canal de TV 100% Noticias foi encerrado

A 22 de dezembro, foi publicado o relatório do GIEI, grupo criado por acordo entre o Governo da Nicarágua e a OEA, sobre a violência. Documento analisa a evolução dos acontecimentos de abril de 2018. Por Matthias Schindler
Concentração na entrada do Canal de TV 100% Noticias, que foi encerrado pela polícia do governo de Daniel Ortega
Concentração na entrada do Canal de TV 100% Noticias, que foi encerrado pela polícia do governo de Daniel Ortega

Na noite de 21 de dezembro unidades policiais "anti-motim" penetraram violentamente nas instalações da redação do canal de TV 100% Noticias, prenderam o diretor Miguel Mora, a chefe de informação Lucía Pineda Ubau e o motorista Joseph Hernández e fecharam a emissora. A agência estatal de telecomunicações Telcor retirou a licença deste canal por ordem de Ortega, sem apresentar qualquer justificação.

Há apenas uma semana, as unidades policiais já haviam ocupado, devastado e fechado os escritórios das revistas eletrónicas independentes Confidencial e Niú, e dos programas de televisão Esta Noche e Esta Semana. No entanto, uma nova edição especial da Confidencial já foi publicada na Internet em 23 de dezembro.

100% Noticias não se destacou nos últimos anos por um relatório particularmente crítico do governo. Mas, quando o governo Ortega-Murillo em 18 de abril deste ano começou a reprimir os protestos civis e pacíficos com extrema violência, este canal rejeitou claramente a repressão e relatou desde então de forma crítica e pluralista sobre o desenvolvimento político da Nicarágua. Era atualmente um dos meios de informação independentes mais importantes e amplamente seguidos no país.

Em 22 de dezembro, o GIEI (Grupo Interdisciplinario de Expertos Independientes) publicou o seu relatório sobre o desenvolvimento dos eventos que levaram à explosão de violência em abril. Este organismo foi criado com o acordo entre o Governo da Nicarágua e a OEA (Organização dos Estados Americanos) para investigar os factos ocorridos entre 18 de abril e 30 de maio.

Em resumo, o GIEI afirma:

  • Durante muitos anos era normal que o governo respondesse às manifestações independentes ou críticas contra o governo com "contra-manifestações", nas quais partidários do governo Ortega-Murillo atuavam com socos, paus e pedras contra a manifestação original, enquanto a polícia ali presente assistia passivamente.
  • Ao contrário de antes, no entanto, desta vez a reação dos manifestantes foi não recuar, mas tomar as ruas com uma mobilização muito maior em vários lugares e cidades ao mesmo tempo.
  • Enquanto a 18 de abril o protesto se dirigiu somente contra uma reforma do sistema de segurança social, a partir de 19 de abril os manifestantes já se expressaram em defesa do direito à reunião pública e à manifestação livre.
  • Esta perda de controlo aparentemente levou o governo a ordenar o uso de armas de fogo contra manifestações que se tinham produzido em massa em poucos dias.
  • Além das forças normais de polícia e unidades de antimotim, bem como a chamada Juventude Sandinista, participaram outras pessoas civis mascaradas, as quais atuaram em colaboração aberta com a polícia contra os manifestantes.
  • As forças estatais usaram, entre outras, as seguintes armas militares contra os manifestantes: AK47, AK74, M16, espingarda automática para franco-atiradores Dragunov, metralhadora PKM.
  • Houve 109 mortes durante o período de observação, das quais 95 foram devidas a armas de fogo.
  • Inicialmente, o movimento de protesto estabeleceu mais de cem bloqueios de estradas ("tranques") como uma mera medida de autodefesa contra as forças repressivas do estado.
  • Atos de violência por parte do movimento de protesto limitam-se em grande parte a atirar pedras e o uso de morteiros artesanais ("morteros"), que são usados principalmente em carnavais e que essencialmente causam ruído.
  • Ocasionalmente, os manifestantes atiraram cocktails Molotov e usavam, no máximo em dez ocasiões, armas fabricadas industrialmente.
  • A organização da repressão feita pelo estado a nível nacional, de forma igual e simultânea sugere que estas medidas foram ordenadas pelo governo e não são casos espontâneos ou coincidências nos diferentes lugares.
  • A organização central do Estado da Nicarágua e várias declarações pelas mais altas autoridades do país, provam que a violência estatal e paramilitar contra as manifestações de protesto foi organizada direta e pessoalmente pelo casal presidencial Ortega e Murillo.

Até ao momento, o número de mortos aumentou para mais de 300, há vários milhares de feridos, mais de 500 presos políticos e mais de 40.000 refugiados que buscam proteção da repressão principalmente no país vizinho de Costa Rica.

Por Matthias Schindler

 

Sobre o/a autor(a)

Técnico de construção de máquinas reformado. Politógo.
Termos relacionados Crise na Nicarágua, Internacional
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