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Nicarágua: 40° aniversario do triunfo da revolução sandinista

No dia 19 de julho de 2019 comemorou-se o quadragésimo aniversário do triunfo da revolução sandinista. A celebração do Presidente Daniel Ortega e do seu partido FSLN (Frente Sandinista de Liberación Nacional) lançou luz sobre o estado atual da sociedade nicaraguense. Por Matthias Schindler
Jovens contentes por receberem 200 Córdobas do estado, pela sua participação na manifestação
Jovens contentes por receberem 200 Córdobas do estado, pela sua participação na manifestação

Durante a comemoração do aniversário, que demorou cinco horas, foram tocadas músicas principalmente animadas, cúmbia, merengue, canções históricas revolucionárias (contrariando a vontade expressa do seu compositor Carlos Mejía Godoy) e canções das campanhas eleitorais da FSLN. Muitas dessas músicas constantemente repetidas ("Daniel, Daniel, el pueblo está con él ... con Daniel, con Daniel, con Daniel ... adelante comandante ... el gallo ennavajado ...") elogiaram Daniel Ortega como o grande líder do povo.

A parte política do evento foi aberta pela vice-presidente Rosario Murillo com a palavra de ordem repetida muitas vezes: No pudieron, ni podrán! e No podrán jamás! (“Não conseguiram, nem vão conseguir!” e “Eles nunca vão conseguir!”). Este foi um desafio claro para o movimento democrático de oposição, ameaçando que nunca conseguirá tirar Ortega e a FSLN do poder.

Depois de algumas saudações de representantes de estados amigos (Ossétia do Sul, Venezuela, Cuba), interrompidos por muita música, e depois de vários pastores protestantes e um sacerdote católico, o presidente Ortega fez a sua intervenção de somente 33 minutos, um discurso extraordinariamente curto para ele.

Embora se tenha dirigido a todos os e todas as nicaraguenses numa frase inicial e se tenha pronunciado a favor de uma coexistência pacífica de todos, não prometeu restaurar as liberdades democráticas fundamentais, nem libertar os prisioneiros políticos, nem dissolver as forças paramilitares ilegais, que lhe são completamente fiéis, e muito menos investigar quem são os responsáveis pelos mais de 300 mortos do ano passado.

Mais uma vez, alegou que a revolta pacífica de abril de 2018 foi uma tentativa de golpe de estado, desenhada e organizada pelos EUA. Reclamou das sanções internacionais e denunciou os oposicionistas que exigem sanções como traidores. Na realidade, eles só pedem isso porque, apesar de centenas de mortos, milhares de feridos e dezenas de milhares de refugiados, como vítimas da repressão do Estado, apegam-se a formas civis e pacíficas de resistência pelas quais pedem apoio internacional igualmente civil e pacífico.

Todo o evento foi marcado por uma propaganda emocional que deveria enfatizar a equação o povo = FSLN = governo = Ortega = poder sobre todas as instituições do estado. O que não é parte de eles é vende patria, traidor, inimigo, conspirador, golpista, terrorista.

Por isso estavam presentes na tribuna vários combatentes históricos da FSLN, comandantes guerrilheiros, os comandantes da revolução Bayardo Arce e Victor Tirado, um número de pastores protestantes e padres católicos, o comando supremo do exército, a liderança da polícia, representantes do supremo tribunal, do supremo conselho eleitoral, da procuradoria geral, ministros e ex-comandantes dos Contra. A mensagem foi clara: Quando Ortega chama, eles disponibilizam-se para ele.

Até mesmo o ultrarreacionário pregador e republicano Ralph Drollinger, que dirige círculos de estudos bíblicos nos Estados Unidos, mesmo no Congresso e até mesmo na Casa Branca, foi autorizado a entregar uma mensagem de saudação. Aparentemente, Ortega está a tentar manter um canal de comunicação com o governo dos EUA através do trilho “cristão”.

Mas uma coisa ficou clara: os empreendedores não haviam enviado um representante, e a conferência episcopal da Nicarágua também brilhou através da sua ausência. As suas participações públicas provavelmente tê-los-iam desacreditado demais aos olhos de grande parte da população.

A Plaza de Fe Juan Pablo II estava cheia de pessoas que agitavam principalmente bandeiras da FSLN vermelhas e pretas. Milhares ainda ficaram na Avenida Bolívar. Funcionários de ministérios e outras empresas públicas tiveram que comparecer à manifestação se não quisessem perder o seu emprego. E também havia a mesada obrigatória de 200 Córdobas como incentivo adicional para participar. Mesmo quando muitos foram forçados a comparecer a esta atividade, dezenas de milhares vieram voluntariamente para celebrar o seu comandante.

Enquanto o orteguismo demonstrou a sua força de mobilização e a sua capacidade de organizar grandes encenações emocionantes, a vida normal continuou sob a ditadura. Foi até a 17 de julho que Bryan Yeraldín Murillo López, de 22 anos, foi morto pela polícia em León quando esta entrou na sua casa à noite sem um mandato, atirando contra ele, usando armas de guerra e ferindo gravemente mais dois outros membros da sua família. O pano de fundo deste crime é, obviamente, a sua participação nos protestos do ano passado. Também de outras partes do país são relatados diariamente novos ataques da polícia, às vezes mortais, a cidadãos desarmados, acusados de participar em manifestações ou até mesmo em atos criminosos.

Artigo de Matthias Schindler para esquerda.net

Daniel Ortega - El Gallo Ennavajado

Sobre o/a autor(a)

Técnico de construção de máquinas reformado. Politógo.
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