Está aqui

Nélida Piñon (1937-2022)

Morreu este sábado em Lisboa a escritora brasileira Nélida Piñon. Foi a primeira mulher no mundo a presidir a uma Academia de Letras e recebeu inúmeros prémios e distinções no mundo literário e académico.
Nélida Piñon. Foto de Casa de America/Flickr

"É uma perda para a literatura brasileira. Era, provavelmente, a maior escritora viva. É uma perda para o país, em si, a cultura do país", afirmou o atual presidente da Academia Brasileira de Letras, Merval Pereira, reagindo à notícia do falecimento em Lisboa da escritora aos 85 anos.

Nélida Piñon nasceu no Rio de Janeiro em 1937, onde se formou em Jornalismo. Com mais de 20 livros publicados de romances, contos, crónicas, ensaios e memórias, viu a sua obra traduzida em mais de 30 países e premiada em várias ocasiões, incluindo o prémio Príncipe das Astúrias de Letras em 2005.

Neta de emigrantes da Galiza, que considerava a sua "terra prometida", a escritora manteve sempre uma ligação próxima com Espanha, tendo doado a sua biblioteca ao Instituto Cervantes do Rio de Janeiro. "A linha do horizonte que marca o limite do meu olhar permitiu-me fundir essas duas terras, Brasil e Espanha, como se fossem uma única família", referiu na altura, agora citada pelo El País.

Em 1961 publicou o seu primeiro romance, "Guia-mapa de Gabriel Arcanjo", onde abordava os temas do pecado, o perdão e a relação dos mortais com Deus. Onze anos depois lança "A Casa da Paixão", um dos seus livros mais conhecidos dentro e fora de fronteiras, que recebeu o Prémio Mário de Andrade. Em 1984 publica outro romance premiado, "A República dos Sonhos", em torno de uma família de imigrantes galegos no Brasil.

Em 1970, inaugura a primeira cadeira de Criação Literária da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lecionou na Universidade de Miami entre 1990 e 2003, enquanto titular da Cátedra Henry King Stanford em Humanidades e foi escritora convidada em várias universidades nos EUA e México.

Eleita em 1989 para a 30ª cadeira da Academia Brasileira de Letras, tornou-se a primeira mulher a assumir a presidência da instituição em 1996, e a primeira mulher a presidir a uma Academia de Letras em todo o mundo. Tinha ganho um ano antes o Prémio Internacional Juan Rulfo de Literatura Latino-Americana e do Caribe, entregue pela primeira vez a uma mulher e para alguém de língua portuguesa. Em 1998 foi a primeira mulher a receber o doutoramento Honoris Causa da Universidade de Santiago de Compostela.

Nélida Piñon viveu em Lisboa mais de um ano a partir de 2018, onde escreveu com grande esforço físico o seu último livro, "Um Dia Chegarei a Sagres", publicado em 2020. Segundo o Publico.es, Nélida assumia-se como uma "feminista histórica", usando as redes sociais para divulgar campanhas pelos direitos humanos e contra a censura de que foi vítima por parte da ditadura brasileira.

Veja aqui a entrevista dada pela escritora ao programa "Roda Viva" em novembro de 2020:

Roda Viva | Nélida Piñon | 02/11/2020

Termos relacionados Cultura
(...)