A concentração “A nossa autonomia não é debatível”, convocada por dezenas de associações e coletivos, juntou algumas centenas de ativistas em frente ao Parlamento debaixo de chuva. Lá dentro, o PSD, o Chega e o CDS propunham revogar a lei de 2018 e voltar a exigir relatório médico para alteração do nome e género nos documentos, aumentar a idade mínima para alterar documentos (de 16 para 18 anos), eliminar o direito ao nome social, acabar com medidas de proteção de jovens trans nas escolas, proibir intervenções como o uso de bloqueadores hormonais por menores trans e permitir a mutilação genital de crianças intersexo. Em alternativa, o Bloco propôs o reforço da lei em vigor, colmatando as objeções levantadas pelo Tribunal Constitucional a alguns artigos da lei aprovada.
Nos cartazes de quem se manifestava contra o retrocesso na lei portuguesa podiam ler-se frases como “Eu não preciso de um diagnóstico por existir”, “Nem um passo atrás”, “O meu nome não é debate” , “Não somos diagnósticos”, “Não posso adiar quem sou para outro século”.
Em declarações à agência Lusa, Daniela Bento, presidente da ILGA Portugal, destacou que as propostas da direita, a serem aprovadas, irão criar “enormes entraves no dia-a-dia das pessoas e passa a perceção de que nós temos um problema de saúde mental”. Tal como outros dirigentes associativos, foi recebida por deputados do PSD, que lhe terão dito que o retrocesso é necessário para ir ao encontro de um suposto consenso da sociedade em relação à identidade de género. “Ou seja, se a sociedade não compreende, então nós vamos criticar estas pessoas e vamos enclausurar estas pessoas em diagnósticos porque o resto da sociedade não compreende”, resumiu.
Também o presidente da Opus Diversidades, Helder Bertolo, disse à Lusa ter saído da reunião convicto de que os deputados mostraram "não ter grande conhecimento sobre a matéria”. Quanto ao futuro das propostas da direita, acredita que levantam “questões de constitucionalidade que certamente serão levantadas pelo Sr. Presidente da República e a força nas ruas, a força das populações, das famílias, será certamente ouvida”.
“O que nos temos hoje na Assembleia da República são pessoas que estão a julgar as nossas vidas”, afirmou uma das manifestantes à SIC. Após ouvir os debates sobre este assunto, diz ter chegado à conclusão de que os proponentes das propostas do PSD, Chega e CDS “não fazem a mínima ideia do que é uma pessoa trans, provavelmente não conhecem uma única pessoa trans nas suas vidas. Termos pessoas que não fazem a mínima ideia do que nós somos a decidirem sobre as nossas vidas é dramático”, insistiu.
“Se uma pessoa se identifica com determinada identidade, não pode ser forçada a ter outra identidade porque alguém acha que é melhor para ela”, prosseguiu a manifestante, questionando-se “como é que uma pessoa se ia sujeitar a ter pessoas a decidir sobre a sua vida, a ser marginalizado na escola, pela família, etc, se essa não fosse a sua identidade?”.