Questionado sobre o que tem a dizer àqueles que chamam a esta geração de malempregados a “geração parva”, José Soeiro respondeu desde logo que a primeira coisa a dizer é que “não estamos condenados à precariedade”, ela resulta das escolhas económicas que têm sido feitas. O deputado reconheceu que a criatividade e a vontade de trabalhar desta geração estão “mal empregues”, são pouco reconhecidas nos empregos com remunerações baixas, sem vínculo laboral, sem protecção social, com recibos verdes, em estágios não ou mal remunerados, nas Empresas de Trabalho Temporário.
Contudo, o mais jovem deputado do Bloco José Soeiro sublinha que “nós não estamos condenados a ser essa geração sem direitos, porque segundo nos ensina a história, o futuro não tem de ser necessariamente uma repetição monótona do presente, nós podemos inventá-lo, pela nossa acção”. Estes movimentos que já existem, estas manifestações, são exemplo disso, diz Soeiro, reforçando que são um sinal de que é possível fazer outras escolhas, afirmar alternativas “a partir do interesse da maioria das pessoas que é ter um trabalho decente, um emprego com direitos”.
Respondendo a outras questões José Soeiro afirmou-se contra a ideia de que mais vale a precariedade do que o desemprego, apontando o facto da crescente precarização das relação laborais em Portugal não ter gerado mais emprego, logo, “é mentira que ao acabarmos com os direitos laborais se gera mais emprego, os contratos precários não geram novos postos de trabalho (…) muito pelo contrário, a precariedade gera mais desemprego”, enfatizou. O deputado defende que a precariedade é apresentada com um mal menor graças à chantagem do desemprego a que os trabalhadores precários estão votados.
“Será o protesto de dia 12 uma semente da revolta dos desemprecários?” perguntou uma das leitoras do Esquerda.net ao deputado do Bloco. Este lembrou que as revoltas do mundo árabe, por exemplo, são um sinal de que o protesto persistente das pessoas, nas ruas, consegue tornar possível o derrubar das “ditaturas mais cruéis”. Já em Portugal, vivemos sobre a ditatura dos mercados que impõem a sua regra contra os direitos das pessoas, afirmou Soeiro, invocando a imagem dos milhares de egípcios na rua gritando “Não, não seremos mais escravos”, ou seja, rejeitando a condição de escravatura, seja a política ou laboral. “Foi uma imagem inspiradora para todos aqueles que em Portugal estão fartos de ser escravos por via da precariedade”, disse.
Se pensarmos, por exemplo, em professores das AEC's [Actividades de Enriquecimento Curricular], que ganham 6 euros à hora, têm de pagar o seu próprio transporte, trabalham a recibo verde, têm despesas quase equivalentes ao valor do salário, mas que se vão aguentando porque precisam apesar de tudo de acumular alguns anos de serviço, estamos a falar de escravatura”, afirmou Soeiro. Dando outros exemplos de “escravatura laboral”, o deputado lembrou também os trabalhadores dos callcenters, contratados por Empresas de Trabalho Temporário, que ganham 2,80 euros à hora, sabendo que a empresa que o aluga àquela onde trabalha lhe fica com uma parte do seu salário.
“Este fenómeno de uma geração de desemprecários que se revoltou na Tunísia e no Egipto tem de facto algo de comum com esta geração de desemprecários que temos aqui em Portugal, que também sente que precisa de ter voz e precisa de falar”, disse ainda José Soeiro.