Desigualdade

Multimilionários têm mais do triplo da riqueza que metade da humanidade junta

10 de dezembro 2025 - 15:13

Os 0,001% mais ricos têm visto a sua fatia da riqueza global aumentar nas últimas décadas, alerta o Relatório da Desigualdade Mundial para 2026.

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capa do reatório

Foi lançado esta quarta-feira a edição de 2026 do Relatório da Desigualdade Mundial, um trabalho que reúne contributos de 200 investigadores de todo o mundo associados ao Laboratório da Desigualdade Mundial e que é publicado desde 2018 a cada quatro anos.

A edição deste ano “explora novas dimensões da desigualdade que definem o século XXI: clima e riqueza, disparidades de género, acesso desigual ao capital humano, as assimetrias do sistema financeiro global e as divisões territoriais que estão a redefinir a política democrática. Em conjunto, estes temas revelam que a desigualdade hoje não se limita ao rendimento ou à riqueza; ela afeta todos os domínios da vida económica e social”, diz a apresentação do relatório.

O facto mais evidente é que a desigualdade se mantém em níveis muito elevados, com os 10% da população mundial mais ricos a deterem mais rendimento e riqueza que o conjunto dos restantes 90%. Dividindo a população ao meio em termos de rendimento e riqueza em 2025, a metade mais pobre detém apenas 8% do rendimento global e 2% da riqueza, enquanto os 10% mais ricos concentram 53% do rendimento e 75% da riqueza global.

O retrato da desigualdade extrema fica mais completo tendo em conta apenas os 0,001% mais ricos, cerca de 56 mil bilionários e multimilionários, que detêm agora mais de 6% da riqueza mundial, ou seja, mais do triplo do que a metade da população mais pobre. Uma concentração que se tem vindo a acelerar nas últimas décadas. “O resultado é um mundo em que uma pequena minoria detém um poder financeiro sem precedentes, enquanto milhares de milhões continuam excluídos até mesmo da estabilidade económica básica”, aponta o relatório.

Alterações climáticas e desigualdade de género

No que diz respeito à relação entre desigualdade e alterações climáticas, o relatório aponta que as emissões de carbono associadas à propriedade de capital privado da metade mais pobre da população é de apenas 3% do total, enquanto as dos 1% mais ricos correspondem a 41% do total de emissões poluentes, quase o dobro das emissões associadas a 90% da população com menos rendimentos.

“Aqueles que menos emitem, principalmente populações em países de baixo rendimento, são também os mais expostos aos choques climáticos. Entretanto, aqueles que mais emitem estão mais protegidos, com recursos para se adaptar ou evitar as consequências das alterações climáticas. Esta responsabilidade desigual é, portanto, também uma distribuição desigual do risco. A desigualdade climática é tanto uma crise ambiental como social”, concluem os investigadores.

A desigualdade de género é uma realidade que sofreu poucas alterações desde os anos 1990 no que toca ao rendimento do trabalho, com as mulheres a receberem apenas um quarto do total desse rendimento. Se na América Latina, Rússia e Ásia Central, Europa, América do Norte e Oceania essa fatia se encontra entre os 36% e os 40%, a situação é mais grave em regiões como o Médio Oriente e Norte de África (16%), Sul e Sudeste Asiático (20%), África Subsahariana (28%) e Leste Asiático (34%).

Tendo em conta também o trabalho doméstico, as mulheres trabalham em média 53 horas por semana, face às 43 horas dos homens. Mas o rendimento, excluindo o trabalho não pago, é de apenas 61% do dos homens, percentagem que cai para 32% quando se inclui o trabalho não pago. “Essas responsabilidades desproporcionais restringem as oportunidades de carreira das mulheres, limitam a participação política e retardam a acumulação de riqueza. A desigualdade de género não é, portanto, apenas uma questão de justiça, mas também uma ineficiência estrutural: as economias que subvalorizam a mão de obra de metade da sua população prejudicam a sua própria capacidade de crescimento e resiliência”, alerta o relatório.

Impostos progressivos e redistribuição têm permitido reduzir fosso de rendimentos

Para reduzir as desigualdades, a política fiscal é a forma mais eficaz, através da taxação progressiva e das transferências redistributivas que em regiões como a Europa, América do Norte e Oceania permitem reduzir em mais de 30% o fosso de rendimentos. Mas mesmo onde estes sistemas estão implementados, estão a falhar onde são mais necessários, no cimo do topo dos rendimentos: os chamados ultrarricos que acabam por pagar proporcionalmente menos impostos do que uma família trabalhadora graças a esquemas de planeamento fiscal.e outras formas de fugir aos impostos.

Por outro lado, o sistema financeiro global está desenhado para perpetuar as desigualdades, com os países ricos a conseguirem crédito a taxas muito inferiores e a investirem com alto rendimento nos restantes, “posicionando-se como rentistas financeiros às custas dos países mais pobres”. Ou seja, “enquanto as potências coloniais outrora extraíam recursos para transformar déficits em excedentes, as economias avançadas de hoje alcançam resultados semelhantes através do sistema financeiro. Os países em desenvolvimento são levados a transferir recursos para o exterior, limitando a sua capacidade de investir em educação, saúde e infraestruturas”.

Esta desigualdade tem impacto no acesso ao capital humano, com a despesa em educação por aluno na África subsahariana a rondar os 200 euros em paridade de poder de compra, o que compara com os 7.400 euros na Europa e os 9.000 euros na América do Norte e Oceania. A diferença é de 1 para 40, o triplo da diferença entre os PIB das regiões.

Investir em Educação e Saúde é a prioridade para reduzir desigualdades

Para os autores do relatório, o investimento em Educação e Saúde continua a ser a melhor ferramenta equalitária, além de reduzir as disparidades de oportunidades no início da vida. Os programas redistributivos como os apoios sociais direcionados, pensões ou subsídios de desemprego têm permitido reduzir o fosso de rendimentos e e fortalecer a coesão social e absorver choques das crises económicas, em especial nos países com um estado social mais débil. A promoção da igualdade de género com igualdade salarial e reconhecimento do trabalho não pago, além de políticas antidiscriminatórias são outras recomendações do relatório.

E no plano fiscal, a par de sistemas progressivos, insistem na proposta de uma taxa mínima sobre a riqueza dos bilionários e multimilionários. Nas projeções de taxas de 2%, 3% e 5% aplicadas à riqueza líquida acima de 100 milhões de dólares, o que incidiria sobre pouco mais de 92 mil pessoas no planeta, a receita obtida seria respetivamente de 503, 754 e 1.256 mil milhões de dólares.

“A desigualdade é uma escolha política. É o resultado das nossas políticas, instituições e estruturas de governação. Os custos da crescente desigualdade são claros: divisões cada vez maiores, democracias frágeis e uma crise climática que recai mais fortemente sobre aqueles que menos são responsáveis por ela. Mas as possibilidades de reforma são igualmente claras. Onde a redistribuição é forte, a tributação é justa e o investimento social é priorizado, a desigualdade diminui”, conclui o relatório, acrescentando que as ferramentas existem e o que falta é vontade política dos governantes.