Mulheres e esquerda em minoria no comentário político nas televisões, conclui estudo

07 de março 2024 - 18:11

Estudo do MediaLab registou aumento do número de comentadores políticos nos canais de televisão. Três quartos dos comentadores são homens e apenas um terço se identifica com a esquerda.

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Paulo Portas e Marques Mendes
Paulo Portas e Marques Mendes, ex-líderes do CDS e PSD, concentram o comentário político nos canais em sinal aberto no horário nobre.

Esta quinta-feira será publicado um estudo do MediaLab do ISCTE sobre a evolução do comentário político televisivo em Portugal. A agência Lusa avança com algumas das conclusões deste estudo. A primeira é que o comentário político ganhou espaço na programação televisiva nos últimos oito anos, com o número de comentadores a passar de 53 em 2016 para 78 em 2023, um aumento de 47%.

Mas ao contrário do que o número sugere, este aumento do número de comentadores significou um afunilamento ideológico do comentário político televisivo em Portugal, com “um maior predomínio de número de comentadores com posicionamento político à direita”: em 2016 eram 22 e em 2023 já eram 37, regista o MediaLab.

Ana Drago
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Se em 2016 o panorama do comentário político nos canais de televisão era marcado pelo equilíbrio, com 23 comentadores identificados à esquerda e 22 à direita, no ano passado já eram 37 comentadores de direita e apenas 25 de esquerda. Além destes, o número de comentadores com orientação política não identificável duplicou em oito anos, passando de oito para 16.

Os canais analisados para este trabalho foram a RTP1, RTP2, SIC, TVI, RTP3, SIC Notícias, CNN Portugal e CMTV. Se tivermos em conta apenas os canais em sinal aberto e com mais audiências, como a SIC e a TVI, o desequilíbrio entre esquerda e direita é ainda maior, pois os maiores espaços fixos de comentário político pertencem a dois antigos líderes de partidos de direita, Marques Mendes e Paulo Portas, que não o interromperam durante a campanha eleitoral, em cujas ações participaram a favor da AD.

Nos canais por cabo, o estudo aponta a SIC Notícias como o mais equilibrado quanto ao número de comentadores de esquerda e de direita no ano passado.

O estudo “Comentário Político nos Media 2023” aponta ainda um “desequilíbrio abissal” em termos de género, pois três quartos dos comentadores são homens e “as mulheres comentadoras são muito menos conotadas politicamente do que os homens”. A percentagem de mulheres a comentar política na TV diminuiu de 28% para 24% entre 2022 e 2023, embora tenha crescido face a 2016, quando eram apenas 17% do total.

Os autores apontam ainda a “elevada média de idades, acima dos 50 anos” dos comentadores televisivos, considerando que acabam por promover “visões políticas que se afastam de facto das preocupações e linguagem de outras faixas etárias da população e potenciam um fosso geracional”, conduzindo a um “afastamento dos mais novos da política”.

Por outro lado, a tendência para associar jornalistas e comentadores  “contribui para a confusão sobre o que é jornalismo factual e o que é comentário junto das audiências”, alertam os autores, apontando que  “o aumento exponencial dos comentadores e dos espaços de comentário nos últimos anos em televisão” teve como consequência a “diminuição do espaço de informação factual no que toca, nomeadamente, aos canais noticiosos”.