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Mujica: soam os tambores de guerra na Venezuela

Pepe Mujica mostrou-se pessimista com a situação na Venezuela, onde vê um regresso ao pior passado de intervencionismo norte-americano. Mas também criticou o governo venezuelano. Para o ex-presidente uruguaio, o mais importante, e difícil, é evitar a guerra.
Jose Mujica numa reunião na Organização dos Estados Americanos em 2014. Foto OEA/Flickr
Jose Mujica numa reunião na Organização dos Estados Americanos em 2014. Foto OEA/Flickr

Pepe Mujica mostra-se pessimista com a situação política na Venezuela. Num espaço de comentário semanal na rádio M24, Mujica proclamou que "hoje soam fortes tambores de guerra com a situação venezuelana ... e nas guerras morrem os que não tem responsabilidade". Criticou também as sanções económicas contra o país, com as quais "se castiga os povos e se fanatiza os governos".

Para o ex-presidente do Uruguai, o conflito geopolítico em torno do petróleo é o factor fundamental por trás dos acontecimentos: "por trás da guerra movem-se sempre interesses. A verdade nua e crua é que os EUA não podem aceitar que a China acabe a controlar o destino do petróleo venezuelano. Esta é a causa profunda da impaciência que atacou os EUA". Por essa razão, "discutir a legitimidade de um governo ou de outro na Venezuela no fundo é infantil ... O que é penosamente grave é a iminência da guerra aberta".

Com esse pano de fundo, "querem convencer-nos que a ilegitimidade eventual de uns se substitui com a ilegitimidade de outros. E tudo isto com um tambor em fundo pela suposta causa sacrossanta da democracia, como sempre se fez nas vésperas de qualquer invasão. Antes levantava-se a bandeira do cristianismo". Surge então, "o grito desesperado pela democracia, que funciona como um palco emotivo, nestes tempos globalizados em que o capitalismo financeiro, com algoritmos e sem emoções, indica e decide como e quando se investe".

Mujica critica também Juan Gaidó, o autoproclamado presidente interino: "ou é muito jovem ou tem por trás a segurança que dá sem embaixadores o exército dos EUA. Está fresca na memória a afirmação do senhor Trump de que todas as opções estão em cima da mesa".

Mas o governo venezuelano tão pouco escapa à crítica: "houve uma notória confusão do desejo com a realidade possível (...) não é possível substituir capitalismo por burocracia (...) Era mais fácil, mais rápido e de melhor qualidade viver a importar tudo porque se podia, por causa da riqueza petrolífera. E isso devastou a cultura criativa do trabalho". No seu entendimento, foi um erro "não medir a enorme paciência e tempo que exige uma mudança cultural, isso não se pode substituir por voluntarismos, pois não é possível repartir a longo prazo o que não se está a criar a curto prazo".

Perante este cenário, em que "ao regime venezuelano não se deixa outra via que não seja morrer lutando", Mujica considera o diálogo a única saída possível, mas improvável. Um processo eleitoral livre só será possível através de "uma espécie de junta executiva onde estivessem representadas todas as tendências, mas fortemente monitorizada pelas Nações Unidas. Não vejo outro caminho que dê garantias, a ONU através do conselho de segurança, comprometido e firme". Mas isso dificilmente acontecerá, pois a Europa está a lavar as mãos do assunto e a ceder o terreno às forças apostadas no confronto, apesar do apelo da UE para eleições ser acertado.

E conclui: "o mais importante é evitar a guerra, o que de momento parece muito difícil, e transformar o confronto em oposição, em luta republicana".

Ouça os comentários de Pepe Mujica na rádio M24.

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