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Mujica: A causa da paz está acima de qualquer outra

O ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica afirmou estar convencido de que os EUA podem vir a intervir na Venezuela, se não virem outro remédio, o que torna central o tema de evitar a guerra. Entrevistado pela BBC, Mujica vê no conflito uma disputa geopolítica, porque “o grande império não vai aceitar de braços cruzados que o petróleo venezuelano seja administrado pela China”.
Fotografia de ProtoplasmaKid, wikimedia commons
Fotografia de ProtoplasmaKid, wikimedia commons

O ex-presidente uruguaio começa por apontar as alterações da política norte-americana em relação à Venezuela. “Nos tempos de Obama era apostar que (o governo da Venezuela) se desgastasse sozinho.” A mudança operada pela administração Trump tem a ver com a disputa com Pequim. “Decidiram travar o desenvolvimento da China. E isso tem que ser visto pelo contexto geopolítico. Por isso, foram tomadas essas medidas económicas em relação à China”.

É neste contexto que entra a Venezuela: a possibilidade de guerra surge porque “o grande império não vai aceitar de braços cruzados que o petróleo venezuelano seja administrado pela China”, sublinha.

Para Pepe Mujica, “é preciso pensar numa alternativa capaz de garantir, pelo menos, a paz”. Para isso, seria necessário realizar “eleições com garantias para que subsistam todas as correntes políticas e o diálogo”, afirma. Diante da polarização existente entre Nicolás Maduro e Juan Guaidó, Mujica diz ser impossível fazer eleições sem uma forte intervenção de monitoramento do processo, para garantir que todos pudessem participar. “Todas as correntes políticas. Nisso que se chama de oposição, existem várias vertentes. Inclusive, há um chavismo opositor. Todos têm que se expressar. E terão que ser formadas coligações. Mas é um jogo de democracia mais ou menos liberal que permita fugir ao perigo dos tiros.”

Para Mujica, é possível que dessas eleições surja um governo opositor ao que tem sido a política de Maduro. “Não tenho dúvida disso. Mas é melhor que tenha um respaldo eleitoral e que haja um jogo democrático.”

“Não me lembro de governos que tenham se autoproclamado”

O ex-presidente uruguaio sublinha que nada disso é legítimo do ponto de vista legal, insistindo que a causa do que está a ocorrer é um intervencionismo brutal. E afirma “Não me lembro de governos que tenham se autoproclamado. Estve a pensar... Recordo-me de uma cervejaria em Munique onde alguém disparou um tiro e se autoproclamou”, numa alusão óbvia à fracassada tentativa de golpe de Estado de Hitler em 1923 que ficou conhecida como Putsch da Cervejaria ou Putsch de Munique.1

Diante da objeção apresentada pelo entrevistador que recorda que Maduro até agora rejeitou qualquer possibilidade de eleições gerais, Mujica contrapõe: “Mas, o que estão a oferecer ao regime venezuelano? Renda-se e depois veremos. E ainda há um importante personagem do governo americano dizendo que vão levá-lo (Maduro) para Guantánamo. Então, se você quer evitar uma guerra, tem de criar alternativas. Porque, pelo andar das coisas, estão obrigando a uma guerra. Você pode ir à guerra por convicção ou por não ter mais remédio além disso. Ninguém vai se render para simplesmente ser encarcerado.” E recorda que “nesta área da América, sabe-se quando uma guerra começa, mas não quando termina.”

“Que piada!”

O entrevistador observa que a oposição afirma que faz tempo que há uma guerra no país, com a repressão, os presos políticos, a tortura. Mas para Mujica não é esse o pano de fundo do assunto. “Porque presos políticos, violações de direitos humanos, falta de garantias jurídicas existem em vários países pelo mundo. Os Estados Unidos hoje negoceiam com os talibãs. Temos a Arábia Saudita, etc., etc. Se vamos romper relações a julgar por essas questões, pobre mundo. Temos que romper com meia humanidade. Não é isso o essencial. Que piada!”

Diante da pergunta se considera o regime venezuelano uma ditadura, o ex-presidente evita pronunciar-se: “Não vou entrar nessa questão, porque se quero negociar, não posso insultar. Tenho que reconhecer a realidade. Também não vou insultar o senhor presidente autoproclamado. Para encontrar uma saída, é preciso ter a delicadeza necessária.”

Parcela da esquerda não aprende as lições da história

Mujica reconhece que o que acontece na Venezuela prejudica a esquerda latino-americana. “Sim, claro que sim. Há uma velha confusão entre socializar e estatizar que desemboca na burocracia, uma doença humana que fez até Roma padecer. E existe uma parcela da esquerda latino-americana e mundial que não aprende as lições da história”, afirma. Mas insiste: “Isso não significa que seja preciso abandonar a bandeira da luta pela redução da desigualdade. O crescimento substancial joga a favor da economia transnacional e do mundo financeiro, e as classes médias estão congeladas e em perigo no mundo todo. A luta pela igualdade se justifica mais que nunca. Não pela igualdade absoluta, mas para reduzir os abismos.”

Finalmente, sobre o papel do Uruguai, o ex-presidente destaca: “O Uruguai assumiu uma posição que não é nem de apoio nem de condenação. O Uruguai está assustado com a possibilidade de uma guerra.” E conclui: “O Uruguai é um país insignificante. Tem 3 milhões de habitantes. Mas amanhã vai receber representantes de diversos governos, porque essa preocupação existe. A causa da paz está acima de qualquer outra causa

 

1. O Putsch da Cervejaria ou Putsch de Munique foi uma tentativa falhada de golpe de Estado de Adolf Hitler e do Partido Nazista contra o governo da região alemã da Baviera, ocorrido em 9 de novembro de 1923. O objetivo de Hitler era tomar o poder do governo bávaro. A ação foi controlada pela polícia bávara, sendo que Hitler e vários correligionários – dentre eles Rudolf Hess – foram presos. (Wikipedia) Esta frase de Mujica aparece na edição em espanhol da entrevista, mas não na edição em português.

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