Cinema

Mr. Nobody Contra Putin: a resistência do homem da câmara de filmar

06 de março 2026 - 15:35

Estreia esta semana o documentário vencedor de prémios em múltiplos festivais, além do prémio BAFTA, para o Melhor Documentário e a respetiva nomeação para o Óscar na mesma categoria.

porPaulo Portugal

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cartaz do filme
cartaz do filme

Descobri o filme de Pavel Talankin, subitamente, o verão passado, integrando a secção competitiva do festival MDOC. Entretanto, tive ocasião de o integrar em diferentes ocasiões na programação da Mostra que Somos Humanos. Talvez porque, e essa é a pequena questão que torna este Mr. Nobody Contra Putin, distribuído em Portugal pela Risi Film, pequeno em grande: ou seja, aquilo que podes fazer para te opores ao manifestamente injusto ou até obsceno. Não faltarão oportunidades para pequenos 'nobodys' fazerem algo contra as abundantes peças do inacreditável xadrez político em que vivemos. Putin será um deles, mas há vários candidatos. E é nesse contexto que o filme se insere.

Temos então, Pavel Talankin, mais conhecido como Pasha. Professor videógrafo na escola secundária de uma pequena cidade russa - bem-vindos a Karabash, a localidade que se tornou famosa pelas emissões preocupantes de lixo tóxico. Ainda assim, Pasha gosta da sua cidade e dos seus alunos. E demonstra-o neste documentário, altamente confessional, a relevar logo de início o propósito de partilhar com o 'outro mundo' a realidade imposta no seu país após a 'operação especial' na Ucrânia.

Porém, o nosso Pasha tem uma fraqueza - pensa pela sua cabeça, de acordo com os seus valores. E não hesita em exibir a bandeira da democracia russa (retirando o vermelho sangue), como a sugerir um espaço seguro para a liberdade de expressão. O problema é quando as políticas patrióticas de educação nacionalista chegam às escolas, o que significa treinos militares e doutrinação das mentes jovens. É aqui que este homem da câmara de filmar decide documentar essas mudanças numa espécie de vida dupla.

Ora, é precisamente neste dado que o filme co-realizado entre Talankin e David Borenstein nos transmite uma visão isenta sobre da realidade diante a influência de Putin. Sobretudo quando passa a editar as imagens oficiais, em que percebemos como se organizam os interesses de certos docentes, com um tom mais pessoal, temperado até por um certo sentido de humor. Isto depois de decidir trocar o seu país por um lugar seguro onde poderá divulgar o material captado. É assim que Talankin revela como o rolo compressor da propaganda de estado semeia o medo e transforma a mentalidade da comunidade, retirando muitos alunos para a recruta e a frente de combate.

Em todo o caso, talvez o aspeto mais relevante deste Mr. Nobody Contra Putin seja mesmo a intimidade com Talankin, capaz de nos distanciar desse mundo complexo e manipulado. Fica então essa dimensão pessoal - vinda de um 'nobody' - que funciona como poderoso ato de resistência contra o regime autocrático. Ora aqui está um exemplo que merece ser seguido.

 

Paulo Portugal
Sobre o/a autor(a)

Paulo Portugal

Jornalista de cultura e cinema, autor do site insider.pt