Jogos Olímpicos de Paris

Movimentos sociais dão nome e voz a quem perde com estas olimpíadas

24 de julho 2024 - 22:04

Pessoas em situação de sem abrigo expulsas, trabalhadores sem documentos explorados, aumento de preços das habitações, destruição de locais significativos do ponto de vista ambiental e aumento dos dispositivos de controlo social. Os Jogos de Paris arrancam já com uma lista grande de “perdedores”.

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Macron visita instalações olímpicas.
Macron visita instalações olímpicas. Foto de Christophe Petit Tesson/EPA/Lusa.

Numa tribuna publicada esta quarta-feira no Libération, dezenas de movimentos sociais e organizações não governamentais francesas denunciam que não se cumpriu a promessa de uns “jogos inclusivos e populares, neutros em carbono, portadores de benefícios inéditos e de heranças positivas”.

As organizações, entre as quais os Médicos do Mundo, a Attac, o Extinction Rebellion, o Solidaires, a Résistance à l’agression publicitaire, o Youth for Climate, entre muitas outras, convocam um “ajuntamento festivo e realmente inclusivo” na Praça da República, em Paris, para a próxima quinta-feira e questionam quem vai lucrar com os Jogos Olímpicos de Paris que agora começam.

No seu manifesto, passam em revista quem não ganhou com o evento, começando com “as pessoas mais excluídas”. Ao longo de um ano, mais de 12.500 pessoas foram expulsas dos “lugares de vida informais” onde estavam e muitas das pessoas “em situação de grande exclusão foram dispersas e afastadas da capital por vastas operações de limpeza social”. Trata-se, consideram, de uma “invisibilização forçada” que reforça a situação já precária em que vivem, “isolando-os e cortando-os de dispositivos sociais sem nenhum solução alternativa”.

Também os trabalhadores sem papéis não saem vencedores. Bastou uma inspeção de trabalho aos estaleiros da aldeia olímpica, em 25 de março de 2022, para detetar que um em cada seis dos trabalhadores estavam em situação irregular. Houve greves, recursos administrativos e várias iniciativas mas ainda assim “a maior parte não conseguiu título de residência para regularizar a sua situação”.

Os habitantes mais pobres de Seine-Saint-Denis também não podem constar na lista de vencedores, dizem, com os preços das casas a terem aumentado 25,5% em cinco anos e com a falta de alojamento a custos controlados.

Indicam-se ainda prejuízos ambientais como zonas danificadas para a realização dos JO. Entre elas conta-se o recife de coral Teahupoo, os jardins operários de Aubervilliers e parte do parque Georges-Valbon em Seine-Saint-Denis.

Afirma-se ainda que a proclamada neutralidade carbónica não teve em conta as viagens aéreas e que anúncios como as salas sem ar condicionado serão contornados com a distribuição de 2.500 aparelhos de ar condicionado móveis. O mesmo tipo de contradição é assinalado quando se equipa a aldeia olímpica de árvores artificiais para filtrar o ar, enquanto ali ao lado a remodelação de um nó de autoestrada transtorna a vida dos residentes.

Critica-se ainda o papel desempenhado pela patrocinadora Coca-Cola “líder mundial em resíduos plásticos” que “gera uma distribuição colossal de garrafas de plástico”. Conclusão: “o legado de sobriedade e ecologia transformou-se num legado de artificialização e poluição”.

Outro domínio preocupa estas organizações, as liberdades públicas. Neste caso, o discurso anti-terrorismo, vincam, “permitiu justificar avanços securitários preocupantes” com a multiplicação da câmaras de videovigilância, a tentativa de legitimação da videovigilância algorítmica, o rastreio da população com obrigatoriedade de apresentação de códigos QR únicos. Trata-se de uma “perenização destas tecnologias de controlo” que preocupa os defensores das liberdades públicas.

Olhando para o futuro, apelam a que o mesmo não se repita e que hajam “consultas populares diretas” como nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2030 que vão ocorrer em Auvergne-Rhône-Alpes e Provence-Alpes-Côte-d’Azur.