Gustavo Gutiérrez Merino tinha 96 anos. Nascera em Lima, Peru, a 8 de junho de 1928. Durante a sua adolescência sofreu de osteomielite e, dos 12 aos 18 anos, teve de utilizar uma cadeira de rodas. Depois, estudou Medicina e Literatura na Universidade Nacional Maior de São Marcos, tendo nessa altura militado na Ação Católica. Mais tarde, estudou Teologia na Universidade de Louvain e no Instituto Católico de Lyon. Acabou por se doutorar nesta área pela Universidade Católica de Lyon e ensinou-a em universidades como a de Notre Dame, a Pontificial do Peru, tendo sido ainda professor visitante em várias outras desde o Brasil ao Japão, passando pela Europa e pela América do Norte.
Mas é conhecido quer pelo seu trabalho de base, tendo sido ordenado padre em 1959 e prestando serviço numa paróquia de Lima durante mais de duas décadas, quer sobretudo por ser o fundador da Teologia da Libertação no início dos anos 1970. Os seus livros em defesa desta corrente foram traduzidos um pouco por todo o mundo, mas foram sobretudo influentes na América Latina, onde o movimento da Teologia da Libertação ganhou fôlego e se tornou uma força social importante.
Por exemplo, em “Teologia da Libertação. Perspetivas”, estuda a perceção bíblica da pobreza, que considera um “estado escandaloso que atenta contra a dignidade humana”, considera que esta “não é uma fatalidade” mas uma “injustiça” que é “resultado de estruturas sociais e categorias mentais e culturais” e insta a Igreja a uma opção preferencial pelos mais pobres.
E esta não se deveria ficar pelos escritos religiosos. A Teologia da Libertação ganhou raízes a partir do seu apelo a uma “praxis libertadora”, definida como o “processo de libertação económica, espiritual e intelectual dos povos socialmente oprimidos” já que a construção de um presente mais justo para todos orientaria o ser humano para “o reino de Deus”. Em muitas partes, comunidades eclesiásticas de base reivindicando esta perspetiva multiplicaram-se.
Os setores mais conservadores da Igreja Católica não lhe perdoaram e o movimento foi sendo perseguido ao longo dos anos 1980. Joseph Ratzinger, que mais tarde foi Papa tendo adotado o nome Bento XVI, combateu a sua perspetiva enquanto líder da Congregação para a Doutrina da Fé, publicando duas “instruções” sobre a Teologia da Libertação. Em 1983 escreveu aos bispos peruanos para que estes investigassem Gutiérrez, acusando de marxismo. Apesar de divididos sobre o assunto, estes acabaram por concluir que a obra do padre era conforme à teologia cristã, tendo sido chamados ao Vaticano por causa disso.
Com o Papa Francisco, a atitude foi diferente. Por exemplo, foi recebido calorosamente em 2014 no Vaticano durante a apresentação de um livro de Gerhard Müller, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé da altura, intitulado “Pobres para os Pobres. A Missão da Igreja”, e que continha capítulos escritos por Gutiérrez e um prólogo do Papa. Três anos depois, numa entrevista ao El País, a mais alta figura da Igreja Católica considerou a Teologia da Libertação como uma “coisa positiva na América Latina”. E no ano seguinte, por ocasião do seu 90º aniversário, Francisco escreve-lhe uma carta pública de agradecimento, louvando o seu “serviço teológico” e “amor preferencial pelos pobres e descartados pela sociedade”.
Pertencia aos dominicanos desde 2001 e foi esta ordem que informou do seu falecimento através da sua conta no Facebook. O Instituto Bartolomeu de las Casas, por ele fundado em 1974, confirmou pouco depois o óbito, escrevendo que a “sua obra e trabalho em favor dos pobres e dos mais necessitados da sociedade continuarão a iluminar o caminho da Igreja por um mundo mais justo e fraterno”.