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Morreu Gal Costa

A estrela da música popular brasileira deixou um legado rico de canções. Recordamos aqui também outra faceta: a sua dimensão política, como desafiou a ditadura militar e como fez o “L” de Lula também em nome da liberdade.

Figura central da música popular brasileira, Gal Costa morreu na manhã desta quarta-feira aos 77 anos. Tinha suspendido até ao final deste mês a turné “As várias pontas de uma estrela” na sequência de uma cirurgia realizada em setembro para retirar um nódulo na fossa nasal direita. Mas as causas da morte são, até ao momento, desconhecidas.

A cantora, chamada Maria da Graça Costa Penna Burgos, nasceu em Salvador da Bahia em 1945. Trabalhou como empregada de balcão numa loja de discos e depois começou uma carreira no início dos anos 1960. Ainda adolescente, participou no grupo Doces Bárbaros junto com Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gilberto Gil. O seu primeiro disco a solo, que tinha o seu nome artístico, foi lançado em 1969. Foi uma das embaixadoras do movimento artístico tropicalista, tendo participado no álbum icónico “Tropicália ou Panis et Circensis”.

A sua voz é também conhecida pela participação nas bandas sonoras de várias telenovelas. E muitas das suas músicas foram sucesso no Brasil e em Portugal.

Gal e a política

Tales Faria, colunista do UOL, invoca a participação política da cantora, afirmando que o seu falecimento “tem um significado político forte porque foi uma cantora que participou dos movimentos contra a ditadura militar, cantou junto com os Novos Baianos contra a ditadura, e participava em festivais fora do país, especialmente na América Latina, sempre contra a ditadura militar”.

Para além disso, elogia o facto de sempre ter lutado ao lado de populações marginalizadas, considerando-a igualmente “uma expressão de modernidade” que “trouxe um ar de modernidade e expressão comportamental de protesto contra o atraso. A Gal teve momentos de defesa dos direitos LGBT, da liberação das drogas e [participou de] uma série de movimentos que ela entrou e eram de contestação contra a caretice em geral”.

Num sentido semelhante, o Folha de São Paulo recorda como a cantora enfrentou a censura da ditadura militar, destacando o espetáculo “Gal a Todo Vapor” de 12 de outubro de 1971 em Copacabana como um desafio à ditadura que a tornou “uma espécie de musa do desbunde e vertente solar da contracultura brasileira”.

Apesar de não ter uma presença política tão vincada como algumas outras personagens da MPB, Gal Costa manifestou publicamente as suas tomadas de posição. Em 2019, quando Lula foi libertado fez questão de fazer o sinal “L” de Lula com a mão num espetáculo na Mostra Sesc de Cultura dizendo ser “dia feliz para todos” e que “a gente com a liberdade do Lula, vai fortalecer a oposição”.

Repetiu as tomadas de posição pró-Lula e anti-Bolsonaro depois disso em várias ocasiões. Em fevereiro, numa entrevista no programa da Globo “Conversa com Bial”, recordou o sofrimento do tempo da ditadura e insurgiu-se “e tem gente querendo voltar a esse tempo, não pode”. Acrescentou que “tem momento em que o artista tem de se posicionar” e deixou claro o seu ponto de vista: “fora Bolsonaro”.

Na mesma conversa revelou a sua ligação ao canbomblé e da sua relação com a morte: “Eu sei que eu estou com 75 anos, e todo o mundo tem medo da morte, mas eu quero fazer coisas ainda. [...] Acho difícil envelhecer, mas, ao mesmo tempo, é bom. Quanto mais você fica velho, mais você vive. E a vida é tão linda, com todos os seus mistérios, dificuldades, sofrimentos e alegrias. Viver é igual alegria e sofrimento, mas eu adoro a vida”.

Noutra intervenção mais tarde declarou não ser “uma pessoa que entende muito de política, mas acho que o regime democrático é o melhor para se conviver com as diferenças”, que “o governo tem a obrigação de cuidar das pessoas” e “acabar com a desigualdade social. Na pandemia, ficou evidente a miséria e a pobreza. Todo governo tem obrigação de cuidar dos mais pobres, do bem-estar e da saúde do povo.”

Em setembro, no festival Coala em São Paulo, voltou o sinal do L de Lula com a mão e disse “vamos votar direitinho, vamos votar com sabedoria e com inteligência. Vamos votar sem ódio e vamos votar com amor. Vamos lá!”

E em novembro, em entrevista à Folha de São Paulo, lamentava o regresso de um espírito censório ao seu país: “é uma coisa muito perigosa. A censura não é boa, e o mais incrível é que hoje ela venha das pessoas, não de cima. Há uma raiva e uma intolerância no mundo e na gente comum”. Face a isto, considerava, o artista tinha de tomar partido e congratulava-se: “tem bastante gente fazendo isso, trabalhando e falando”.

Algumas das últimas publicações reforçam tudo isto.  Na última “história” do seu perfil do Instagram, a sua equipa publica várias fotos da artista, algumas das quais a fazer o “L”, uma delas a sua última selfie, e também se mostra a ilustração de Luiz Jasmin que deveria ser capa do seu primeiro disco mas que foi censurada.

Para além da censura da capa deste disco, a cantora voltaria a ser alvo da censura de uma outra em 1973 no álbum "Índia".

Sobre a censura desta tinha comparado em entrevista ao Estado de São Paulo em 2019 o sucedido com o que então se passava com a censura na Bienal do Livro do Rio de Janeiro de uma banda desenhada em que dois homens se beijavam: “Quando eu assisti pela televisão que o (presidente da Câmara Marcelo) Crivella tinha censurado o beijo de dois homens (no livro) na Bienal do Rio, que eu vi as pessoas falando que ele tinha permitido vender os livros num invólucro preto, me lembrei do (disco) Índia, porque com o 'Índia', que saiu nos anos 1970, foi assim. Meu disco tinha de ser vendido num invólucro preto, não tinha nada de mais”.

E acrescentou”: “Tomei um susto, porque me veio essa lembrança, e aí achei uma coisa horrorosa, porque, com o governo federal que a gente tem hoje, a gente fica assustada com as declarações, com a maneira como as coisas são tratadas. A gente que viveu na época da ditadura tem medo que isso volte, está aí na atmosfera. Mas o povo brasileiro hoje está mais atento, tem mídias digitais, a gente sabe tudo o que está acontecendo na hora, e portanto a gente sabe que as pessoas se mobilizam em outros Estados. As instituições democráticas são mais consolidadas, fortes, a ditadura não vai se implantar”. Mas para isso, repetiu, “o papel dos artistas neste momento é fundamental. O Brasil, a duras custas, conseguiu implantar uma democracia, que é a maneira mais correta de se viver, é onde há o respeito pelo outro, o respeito às diferenças. Você tem que respeitar o outro do jeito que ele é, então o mundo tem que ser assim, a vida tem que ser assim. Você não tem que ser igual ao outro, o outro não é igual a você. Você tem que saber conviver com isso. Se você não se identifica, é uma coisa, mas respeitar é outra. Defendo os direitos humanos, acho que o governo tem que cuidar das pessoas pobres, tanta gente miserável neste país. Acho que é complicado o Brasil, mas a gente vai chegar lá um dia.”

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