Adolfo Gilly, um dos grandes intelectuais da esquerda latino-americana do seu tempo, morreu no dia 4 de julho aos 94 anos. Viveu a sua vida à esquerda, como ativista e analista, dando a sua interpretação dos acontecimentos mais importantes da América Latina e especialmente do México. Como escreve Tony Wood na recém publicada antologia Adolfo Gilly, Paths of Revolution: Selected Essays, um livro que oferece uma excelente panorâmica da sua carreira, "Adolfo Gilly viveu muitas vidas: militante de esquerda, jornalista, preso político, intelectual público, historiador". E, podemos acrescentar, viveu-as bem. Embora tenha começado como um revolucionário trotskista, Gilly tornou-se mais tarde um apoiante e defensor de movimentos de massas, políticos e sociais, a partir das bases, mas durante toda a sua vida manteve os seus ideais humanistas, democráticos e radicais.
Nascido na Argentina em 1928, Gilly ajudou a criar o Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MOR), mas no final da década de 1940 aproximou-se da Quarta Internacional (QI) trotskista. Na América Latina, a QI era dominada pela figura tenaz, ousada e, mais tarde, um tanto bizarra de Juan Posadas. A QI enviou Gilly para a Bolívia em 1956, pouco depois da Revolução Boliviana de 1952, na qual os trotskistas do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (POR) tinham desempenhado um papel central, ainda que, no final, dececionante. De 1960 a 1962, trabalhou para a QI na Europa, sobretudo em Itália. Depois, em 1962, na sequência da Revolução de 1959, foi enviado para Cuba, mas tornou-se persona non grata devido aos seus artigos críticos. De 1964 a 1966, fez parte do Movimento Revolucionário 13 de novembro (MR-13) da Guatemala, mas a forte repressão do governo obrigou-o a fugir para o México para salvar a vida, mas pouco depois da sua chegada foi detido, julgado e preso pelo governo mexicano. De 1966 a 1972 esteve detido na prisão de Lecumberri, onde escreveu a sua história marxista da Revolução Mexicana, La revolución interrumpida [The Mexican Revolution na edição inglesa], o livro que lhe valeu a reputação de historiador marxista do México e de intelectual de primeira linha.
Quando saiu da prisão, Gilly foi para a Europa e trabalhou para a QI, mas, como escreve num ensaio autobiográfico, achou o trabalho alienante. Desiludido com Posadas, regressou ao México e juntou-se ao Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT), um partido de esquerda bastante empolgante, pequeno mas em crescimento no final da década de 1970 e na década de 1980. Mas quando Cuauhtémoc Cárdenas, filho do lendário presidente Lázaro Cárdenas, rompeu com o Partido Revolucionário Institucional (PRI) no poder, Gilly apoiou a sua campanha presidencial e, depois, com a fundação do Partido da Revolução Democrática, tornou-se conselheiro de Cárdenas. Quando o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) liderou a Rebelião de Chiapas em 1994, Gilly tornou-se apoiante do movimento e intérprete dos acontecimentos. Académico no México, a carreira profissional de Gilly foi tão itinerante e extraordinária como a sua experiência revolucionária, tendo lecionado na Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM) e nas Universidades de Chicago, Columbia, NYU, Stanford, Yale e no National Humanities Center.
Lembro-me de quando, em junho de 1971, comprei La Revolución interrumpida de Gilly na livraria El Sótano, na Alameda Central, na Cidade do México, e o li no autocarro de regresso a San Diego, na Califórnia, onde vivia. Achei a análise da revolução feita pelo livro, com referências a Karl Marx e a outros socialistas, uma revelação. Não fui o único. Octavia Paz, a grande poetisa mexicana de esquerda, partilhava a mesma opinião, de que Gilly tinha dado um contributo importante. Só mais tarde vim a saber que Gilly tinha escrito La Revolución interrumpida enquanto estava na prisão. Cinquenta anos depois, continua a ser para mim - na estante com uma dúzia de outras excelentes histórias - o livro mais importante sobre o assunto. Ele tornou-me um leitor e admirador de Gilly para toda a vida, mesmo quando por vezes discordava dele.
Gilly escreveu outros dois livros importantes sobre a Revolução Mexicana e sua história. Para Gilly, a presidência de Lázaro Cárdenas (1934-1940) representou o fim da revolução. O seu livro El cardenismo, una utopía mexicana explica e analisa a tentativa de Cárdenas de criar uma espécie de socialismo camponês apoiado pelo Estado no México. Embora não tenha o carácter magistral de La Revolución interrumpida, El Cardenismo está repleto de episódios interessantes e levanta questões importantes. Por fim, nesta trindade dos seus grandes livros, o monumental Felipe Ángeles, el estratega, uma biografia do general mexicano que fez a revolução. Gilly ficou fascinado com este hombre congruente, ou seja, este homem íntegro que, embora não sendo revolucionário, se colocou ao serviço da revolução. Para além destas três grandes histórias da Revolução Mexicana, Gilly escrevia constantemente, fossem ensaios sobre o movimento revolucionário na América Central nos anos 1980, sobre a política mexicana e, mais tarde, sobre os zapatistas nos anos 1990 e seguintes.
Através destes escritos, em Paths of Revolution é possível ver a sua evolução de revolucionário trotskista a entusiasta do populismo nacionalista de esquerda de Lázaro e Cuauhtémoc, a paladino e defensor da rebelião indígena zapatista. A sua evolução política, penso eu, pode ser explicada pelo facto de, nos primeiros cinquenta anos da sua vida política - de 1928 a 1979 -, a revolução ter parecido estar na ordem do dia ou, pelo menos, ser uma possibilidade, ao passo que, desde a década de 1980 até hoje, embora tenha havido muitas convulsões sociais importantes, predominaram os regimes neoliberais, conservadores, reacionários ou autoritários. Então, parece que Gilly tomou a decisão de apoiar movimentos, partidos e líderes que pudessem fazer avançar os movimentos sociais e políticos radicais enquanto não se apresentasse uma nova oportunidade revolucionária, ou até que ela se apresentasse.
Há muito mais a dizer sobre Gilly e sua obra, centenas de artigos e vários outros livros, mas por enquanto dizemos: Adolfo, obrigado, prestamos homenagem e sentiremos a sua falta.
Dan La Botz é um professor, escritor e ativista que vive em Brooklyn. É co-editor de New Politics. Artigo publicado em New Politics. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.
Fontes:
Adolfo Gilly, Paths of Revolution: Selected Essays. Edited with an Introduction by Tony Wood Translated by Lorna Scott Fox (New York: Verso, 2022).
Francis Mulhern, Lives on the Left: A Group Portrait (New York: Verso, 2011). Adolfo Gilly, “What Exists Cannot Be True,” pp. 167-184.