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Moria: a vida de 13 mil refugiados piorou "quando era difícil imaginar sequer que tal fosse possível"

Um mês após o incêndio que destruiu o campo de refugiados de Moria, Marisa Matias denuncia uma situação de falta de medicamentos e comida e insuficiência de instalações sanitárias. A situação piorou agora com a chegada da chuva.
Marisa Matias de visita ao local do antigo campo de refugiados de Moria, na ilha de Lesbos, Grécia, que fora até então o maior da União Europeia.
Marisa Matias de visita ao local do antigo campo de refugiados de Moria, na ilha de Lesbos, Grécia, que fora até então o maior da União Europeia.

Em declarações ao Diário de Notícias, Marisa Matias lamenta que os refugiados desalojados na sequência do incêndio de setembro no campo de Moria, na ilha grega de Lesbos, continuem em "situações desumanas e de desespero”. E se as condições já eram muito más, conseguiram piorar nos últimos dias com a chegada na chuva. 

"Estamos a falar de pessoas que não têm acesso a coisas tão básicas como sanitários, água ou comida, ou medicamentos", explicou a eurodeputada pelo Bloco de Esquerda e candidata à presidência da República. Marisa visitou o local há duas semanas e testemunhou "as condições de vida indignas” daqueles que ali se encontram. 

Entre os refugiados, 40% são crianças e entre eslas há cerca de 400 menores não acompanhados. 

Após o incêndio e a evacuação do local, intensificaram-se as "ameaças permanentes das milícias de extrema direita", relata a eurodeputada do Bloco.

De acordo com as declarações de Balazs Ujvari, porta voz da Comissão Europeia para a resposta de emergência, também citada pelo Diário de Notícias, nos dias que se seguiram ao incêndio, Bruxelas mobilizou "120 mil artigos de ajuda de emergência provenientes de 14 países europeus”. 

Entre os artigos constavam “materiais de abrigo, incluindo tendas, cobertores e sacos-cama, mas também casas de banho móveis e químicas, produtos de lavagem ou painéis solares, apenas para dar alguns exemplos”, explicou Ujvari. 

Porém, a eurodeputada bloquista denuncia que no local falta praticamente tudo, embora reconheça a “boa-vontade" de todos os que trabalharam em tempo recorde, sobretudo as “ONG que estão no terreno”. 

"Não se pode pôr crianças durante 12 horas debaixo de um calor intenso do sol, sem água, sem casa de banho sem comida, para poderem ter o registo para entrar num sítio, onde não vão ter comida, não vão ter medicamentos, não vão ter a casa de banho, ou têm muito poucas", relata Marisa ao DN, sublinhando que "havia uma casa de banho para cada 500 pessoas”.

E embora a ajuda que esteja a chegar seja importante, trata-se de “uma ajuda falsa”, pois "onde se podia ajudar, verdadeiramente, seria na mudança da política de asilo que temos na União Europeia”.

Para a candidata à presidência, é importante "pôr fim a acordos - como o acordo com a Turquia -, que está a deixar tanta gente refém", em particular "porque os refugiados sírios que estão em Lesbos não podem sequer iniciar um processo de pedido de asilo". Isto acontece porque a base jurídica existente é a do acordo da União Europeia com a Turquia. Assim, para iniciar o pedido de asilo os refugiados "terão que estar na Turquia e não no território europeu, como é o caso de Lesbos”.

A Comissão Europeia está agora a preparar um conjunto de propostas que visam criar um sistema mais previsível e fiável de gestão das migrações na Europa. Mas este projeto não está isento de críticas.

No debate parlamentar em que a Comissão apresentou a proposta, vários eurodeputados admitiram que a iniciativa representa "um passo positivo". Outros consideram até que é "o único caminho a seguir para sair da situação atual", refere uma nota do Parlamento Europeu.

Porém, a dúvida sobre se "o desastre humanitário, como o recente incêndio no campo de refugiados de Moria", pode repetir-se, ficou por esclarecer. Houve também quem questionasse se os novos procedimentos de rastreio e controlo nas fronteiras "vão respeitar os direitos fundamentais”.

Marisa Matias considera que a proposta da Comissão não é mais que "uma continuidade daquilo que temos". Será até "muito pior em outras dimensões, como é o caso de deixar de haver uma obrigatoriedade dos Estados-Membros para receber refugiados e passar a ser por via de uma troca monetária de 10 mil euros por cada refugiado, que recebam. Ou seja, os direitos humanos e o direito internacional, tudo à venda".

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