Lisboa

Moedas trouxe “aumento exponencial” de violações à campanha, PJ desmente-o

08 de outubro 2025 - 15:06

O presidente da autarquia lisboeta quis associar este crime ao Martim Moniz mas os números oficiais não comprovam tal relação. Polícia Judiciária nega que haja qualquer relação entre violações e zonas em que moram mais imigrantes.

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Carlos Moedas em campanha eleitoral.
Carlos Moedas em campanha eleitoral. Foto de Manuel de Almeida/Lusa.

No programa As Tardes da Júlia, na SIC, esta segunda-feira, o atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa decidiu fazer do medo campanha, puxando pelo perigo que correriam as mulheres no Martim Moniz e indicando um aumento “exponencial” de violações.

Na altura, Carlos Moedas disse: “por exemplo hoje, para uma jovem mulher, ir ao Martim Moniz… Os números de violações aumentaram! Mas aumentaram exponencialmente, 60%! As violações na cidade aumentaram! Eu não quero que as minhas filhas… Não quero que elas sintam isso!” Questionado então pela apresentadora Júlia Pinheiro sobre o número deste aumento, acabou por retocar a mensagem: “na 1ª Divisão, ou seja ali na zona de Martim Moniz, Arroios, etc.”

O Diário de Notícias tratou de questionar o gabinete do autarca, que remeteu para a página das Estatísticas da Justiça, indicando uma subida entre 2023 para 2024 na 1ª Divisão Policial, do número de denúncias daquele crime, de 9 para 15, ou seja mais seis, o que resulta num aumento percentual de 66,6%. Olhando mais para trás, em 2022 havia mais queixas de violação nessa zona, 19, o que poderia fazer apresentar o problema de maneira diferente: de 2022 para 2024, as denúncias de violação desceram 5%. Também no geral da cidade, os crimes de violação aumentaram 12%, de 49 para 55 participações, de 2023 para 2024. E entre 2022 e 2023 tinham descido 18,36%, de 58 para 49 participações.

Conclui-se na peça jornalista que não há uma “subida exponencial” e que “não se pode, de variações de um ano para o outro, retirar conclusões sobre tendências”, acrescentando-se que a zona da 1ª Divisão inclui toda a zona central da cidade e não apenas o Martim Moniz. Isto é as zonas do Rato, Avenida da Liberdade, Bairro Alto, Boavista (Cais de Sodré, etc.), Baixa/Chiado, Rossio, Praça da Alegria, Mouraria/Castelo, Arroios e Alfama.

O gabinete de Moedas não respondeu sobre o uso da palavra “exponencial”, potencial causador de “alarme social”, adianta o mesmo artigo, e, questionado sobre a referência ao Martim Moniz como local perigoso respondeu que “foi a título de exemplo. Faz parte da primeira divisão, certo?”

As estatísticas oficiais mostram ainda que os números de violações na capital seguem a tendência do país na qual os números mais elevados remontam aos anos 1990 e que há vários distritos com aumentos percentuais superiores a Lisboa. Em 2024, tinham mais inquéritos sobre violações no Porto, com 62 inquéritos, Braga, com 39, Coimbra, com 32, e Faro, com 31.

As questões sobre que medidas no programa eleitoral de Moedas existiam sobre este tema também esbarraram com o silêncio.

Polícia Judiciária confirma que não há relação com imigração

Noutro trabalho jornalístico, o Diário de Notícias analisa com João Oliveira, diretor da Diretoria de Lisboa e Vale do Tejo da Polícia Judiciária, as denúncias de violação deste concelho. Este salienta que a maior parte dos casos acontecem na vida noturna da cidade: “continuamos a verificar casos, em bares ou discotecas, de utilização de químicos nas bebidas das mulheres que as deixam prostradas e indefesas à violação”, declarou. Talvez por isso, haja “uma parte significativa de casos cujos suspeitos são estrangeiros, sendo as suas vítimas também estrangeiras”.

Mas o responsável policial nega a relação entre o aumento deste crime e o Martim Moniz, invocada por Moedas. Tal como não há relação entre este crime e as zonas da cidade com mais mais imigrantes residentes: “Não é padrão, não é uma tendência”, vinca o responsável da PJ.