Lisboa

Moedas afasta direções do Teatro do Bairro Alto e Museu do Aljube

13 de março 2026 - 11:50

O diretor artístico do Festival de Avignon, Tiago Rodrigues, fala em “purga dos equipamentos culturais do município”. Vereadora Carolina Serrão exige esclarecimentos do autarca sobre o afastamento de Francisco Frazão e Rita Rato. Bloco apresenta no Parlamento um voto de saudação aos responsáveis agora afastados.

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Carlos Moedas
Carlos Moedas

Numa semana, o executivo de Carlos Moedas fez saber que não irá reconduzir a direção do Teatro do Bairro Alto, dirigida por Francisco Frazão, nem a do Museu do Aljube, dirigida por Rita Rato. Ambas as decisões surgem sem que se conheçam as razões para a não recondução ou qualquer estratégia do município para aqueles equipamentos culturais.

No caso do Teatro do Bairro Alto, que tem por missão desenvolver uma programação dedicada à criação contemporânea e experimentação artística, acolhendo criadores emergentes e projetos inovadores, a sua atividade foi alvo de críticas públicas por parte do Chega, com uma deputada municipal a apelar ao executivo que “deixe de continuar a financiar esta cultura” e em alternativa apoie a programação cultural de direita, sem que ninguém da maioria do executivo de Carlos Moedas defendesse o trabalho ali executado desde há oito anos.

Já o Museu do Aljube, localizado na antiga prisão e que preserva a memória da resistência contra o fascismo, acolheu durante o mandato de Rita Rato, iniciado em 2020, 21 exposições temporárias, tendo editado oito livros e recolhido 45 testemunhos de resistentes antifascistas, além de muitas outras iniciativas. A criação de um arquivo digital permitiu ainda a disponibilização de 14 mil documentos e o trabalho junto do público escolar envolveu 45 mil estudantes e 940 escolas. Graças às exposições itinerantes, a missão do museu alargou-se a outros 170 espaços culturais dentro e fora de Portugal.

Para o encenador Tiago Rodrigues, ex-diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II e atual diretor do Festival d’Avignon, a falta de respostas da Câmara “abre a porta a uma interpretação gravíssima deste afastamento de Francisco Frazão: a de um saneamento político do director e de todo o projecto por pressão interna da extrema-direita no município”. Tiago Rodrigues considera que a falta de explicações para o afastamento da direção e o futuro do Teatro do Bairro Alto “é politicamente inaceitável” e a notícia do afastamento de Rita Rato do Museu do Aljube  “permite mesmo pensar que o que a Câmara de Lisboa está a levar a cabo é uma purga dos equipamentos culturais do município”.

Além do pedido de explicações ao Presidente da Câmara, a vereadora bloquista Carolina Serrão requereu uma reunião urgente com a administração da EGEAC para apresentação detalhada dos planos para o Teatro do Bairro Alto e para o Museu do Aljube.

O Bloco de Esquerda irá levar o tema ao Parlamento com um voto de saudação pelo trabalho desenvolvido por Francisco Frazão e Rita Rato, onde se reconhece  o seu “contributo para a cultura, para a preservação da memória histórica e para a liberdade artística em Portugal” e se defende que “a liberdade de programação e a transparência na gestão de equipamentos públicos são fundamentais para o desenvolvimento democrático do país”.

Pureza condena “saneamento político” no Museu do Aljube e Teatro do Bairro Alto

José Manuel Pureza comentou o afastamento dos dois responsáveis esta sexta-feira durante uma visita à Futurália, sublinhando que isso “ocorre num contexto em que existe na Câmara Municipal de Lisboa um acordo cada vez mais intenso entre Carlos Moedas e o Chega”.

“As duas pessoas são afastadas,formalmente porque cessou o seu mandato, mas na verdade é um saneamento político”, considera o coordenador do Bloco de Esquerda. “Ambos fizeram um excelente trabalho, conheço melhor o de Rita Rato na direção do Museu do Aljube: é um trabalho extraordinário na transformação de uma casa que tinha dificuldade em ter ligação à sociedade numa casa com uma penetração enorme no tecido escolar, de difusão e disputa da memória do que foi a ditadura”.

“Estes cargos devem ter critérios absolutamente claros no que diz respeito à sua escolha e à renovação ou não renovação de mandatos. Como os critérios não são claros, isso permite a leitura de que estamos perante um ato de natureza estritamente política e ideológica”, concluiu.


Notícia atualizada às 13h30 com declarações de José Manuel Pureza em visita à Futurália.