Moderadores de conteúdo da Meta metem empresa em tribunal

20 de outubro 2023 - 11:56

Mais de 20% dos trabalhadores contratados para moderar conteúdos violentos no Facebook e Instagram numa empresa de Barcelona estão de baixa. Descrevem problemas persistentes de saúde mental devido às condições que lhes foram impostas.

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Facebook. Foto de Bhupinder Nayyar/Flickr.
Facebook. Foto de Bhupinder Nayyar/Flickr.

A CCC Barcelona Digital Services faz parte da Telsus, a empresa contratada pela Meta, dona do Facebook e do Instagram, para moderar o conteúdo nas suas plataformas. Segundo Francesc Feliu, advogado de um grupo de trabalhadores, 20% do pessoal está de baixa por causa dos traumas psicológicos sofridos ao exercer esta atividade.

A notícia foi avançada esta quinta-feira pela EuroNews, que conta como um trabalho à partida minimamente atrativo - ver 300 a 500 vídeos por dia e ganhar um salário que no máximo podia chegar aos 2.400 euros por mês - se transformou num pesadelo com consequências graves na saúde mental de trabalhadores até aí saudáveis e que depois têm sido diagnosticados com problemas como stress pós-traumático, depressão e perturbação obsessivo-compulsiva.

A política da Meta implica que os trabalhadores são obrigados a ver os vídeos até ao fim, mesmo que tenham já nos seus primeiros momentos sido confrontados com motivos para não os publicar, o que, queixam-se, aumenta os motivos de trauma. O mesmo alegam no que diz respeito a ver o mesmo vídeo várias vezes quando ele é denunciado por mais do que um utilizador.

Por tudo isto, cerca de uma dezena de trabalhadores avançaram para tribunal devido às condições de trabalho que lhe foram impostas, contando terem sido levados a visualizar vídeos de assassinatos, desmembramentos, violações e suicídios em direto. “Conteúdo absolutamente desumano” em que “há muito barulho, gritos e sangue” diz o advogado que considera o que se passa como “extremamente grave”.

Feliu acrescenta que houve tentativas de suicídio por parte de trabalhadores e que muitos continuam a receber tratamento psicológico anos depois porque “este tipo de conteúdo marca-nos para toda a vida. Não somos máquinas ou computadores sem sentimentos”.

A empresa é também acusada de ter deixado os trabalhadores sem apoio psicológico ou do psicólogo da empresa os pressionar: “quando viam um vídeo, muitas destas pessoas desmaiavam, não conseguiam continuar. O psicólogo ouvia-os e depois dizia-lhes que o que estavam a fazer era extremamente importante para a sociedade, que tinham de imaginar que o que estavam a ver não era real, mas sim um filme, e que deviam voltar ao trabalho” descreve o causídico catalão.

Este não é o primeiro processo do género. O mesmo órgão de comunicação social conta que há 36 trabalhadores que já apresentaram queixa contra o Facebook ao Supremo Tribunal da Irlanda, país onde a Meta tem a sua sede na Europa. São de países diferentes, Irlanda, Polónia, Alemanha e Espanha, mas têm em comum as sequelas deste trabalho.

Diane Treanor, uma das advogadas que os representa, diz que “alguns deles aperceberam-se de que o trabalho os estava a prejudicar após algumas semanas, outros afirmam que só se aperceberam do impacto quando a família e os amigos lhes disseram que a sua personalidade tinha mudado”.

No caso do seu cliente Chris Gray, o primeiro a queixar-se a esta instância judicial, começou a trabalhar para a CPL, contratada pelo Facebook na Irlanda, e a experiência de trabalho durou perto de um ano. Ao princípio, diz à EuroNews, “não me apercebi do quanto isso me afetou. Só mais tarde é que me apercebi que estava uma desgraça, que estava muito stressado. Não conseguia dormir e tornei-me muito agressivo. Se alguém falasse do meu trabalho, eu chorava”.