Fernando Alexandre, ministro da Educação do governo de direita, estava em frente a uma plateia de mais de duas dezenas de estudantes da Escola Secundária Dr. Joaquim de Carvalho na Figueira da Foz. Foi aí que decidiu explicar-lhes que “alguém que anda em manifestações perde a aura”.
Dirigia esta sentença aos professores, apesar de, tentando prevenir-se da imagem de estar a atacar a classe docente, acrescentar que estes “foram muito maltratados em Portugal durante demasiado tempo” e que tiveram “razões para isso”. Só que, para ele, “o professor é alguém que é respeitado na sociedade por ser alguém que sabe, que tem autoridade, que é respeitado por gerações e gerações de alunos”. Exercer o seu direito constitucional à expressão seria, de acordo com o governante, perder isto.
Esta condescendência não foi suficiente para escapar às críticas de muitos professores e esta quarta-feira a maior estrutura sindical docente, a Fenprof, dirigiu-lhe uma carta aberta em que o acusa de desvalorizar o direito à manifestação face a jovens “a quem deveria ser transmitido o valor da democracia e dos direitos que a sustentam”.
A federação sindical acrescenta que as lutas dos professores “sempre tiveram como objetivo o progresso: por melhores condições de vida e de trabalho, valorização social e material da profissão, estabilidade, reforço do investimento na Educação e concretização de uma escola pública democrática, de qualidade, inclusiva e para todos”. E que “não obstante isso não ter agradado ao poder, a luta dos professores, incluindo as manifestações que se tornaram direito e expressão da democracia, foi sempre determinante para a conquista de legítimos direitos, a resolução de problemas e a melhoria da condição docente.”
Estas declarações são feitas enquanto o Governo insiste na “prolongada ausência de soluções estruturais”, trava a valorização da profissão e agrava a falta de professores nas escolas.
A missiva lembra que ainda que durante a ditadura salazarista fosse “proibido e até muito perigoso fazê-lo”, houve muitos professores e educadores que continuaram a arriscar manifestar-se e lutar em nome da dignidade da profissão e do ensino. E “nunca perderam a sua «aura» ou diminuíram a sua condição profissional e de cidadania”.
O mesmo documento, enquadra-se, vem de um membro de um governo que “já confirmou a intenção de atacar outros direitos fundamentais” como o exercício do direito à greve.
E termina afirmando que “professores não abdicam da sua dignidade, da sua autoridade, nem do seu direito à luta. E continuarão a educar pelo exemplo, opondo-se a arbitrariedades e injustiças, em defesa da profissão, dos alunos e da Escola Pública democrática que Abril conquistou.”