Uma investigação da Judiciária às redes de tráfico e exploração de imigrantes em situação irregular teve esta terça-feira o seu desfecho na “Operação Safra Justa”, com a execução de 17 mandados de detenção que incluíram dez militares da GNR de Beja e um agente da PSP - também de Beja e que estava há mais de um ano em situação de baixa - suspeitos de facilitarem a ação do grupo criminoso.
Sul de Espanha
Exploração de imigrantes e condições "desumanas" nas estufas enriquecem donos do agronegócio
A organização deste “grupo violento, de estilo mafioso”, nas palavras da PJ, controlava centenas de trabalhadores. “Através de empresas de trabalho temporário, criadas para o efeito, aproveitava-se da vulnerabilidade dos mesmos, explorando-os, cobrando alojamentos e alimentação e mantendo-os sob coação através de ameaças, havendo mesmo vários episódios de ofensas à integridade física”. Segundo o Ministério Público, intervenção dos agentes da autoridade ao serviço dos empresários exploradores era de controlo e vigilância dos trabalhadores estrangeiros. “Estes suspeitos ameaçavam ainda aqueles cidadãos, dando-lhes a entender que a queixa às autoridades não seria uma alternativa viável para reagir aos abusos de que foram e/ou estão a ser alvo”, diz o comunicado do DCIAP.
Entre os crimes em investigação estão o tráfico de pessoas, auxílio à imigração ilegal, falsificação, fraude fiscal, branqueamento de capitais, corrupção ativa e passiva e abuso de poder. Além de Beja, foram realizadas buscas no Porto, Figueira da Foz e Portalegre.
Os imigrantes eram obrigados a trabalhar em herdades agrícolas de sol a sol e em condições desumanas, sendo ameaçados de deportação. Estavam alojados em quartos sobrelotados na aldeia de Cabeça Gorda e o dinheiro que recebiam em troca do trabalho, já de si abaixo do valor praticado para a função, era ainda subtraído a título de despesas de alojamento, transporte, eletricidade, água, alimentação e documentação cobrados pela rede criminosa.
Nas redes sociais, Timóteo Macedo, da Solidariedade Imigrante, diz que este é mais uma das “consequências das políticas públicas da imigração que alimentam mais a escravatura, a clandestinidade e a desumanidade”, pelo que “o Governo e os seus aliados devem tirar daqui as suas consequências e responsabilidades”.
Por seu lado, a diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações considera que a presença de militares da GNR, agentes da PSP e funcionários públicos em redes que exploram imigrantes em situação ilegal anula a confiança no Estado português. Em declarações à agência Lusa, Eugénia Quaresma diz que estas “redes criminosas aproveitam-se da fragilidade das pessoas e da sua vulnerabilidade”, enquanto “o discurso de alguns políticos é de diabolização dos imigrantes e não sobre a fragilidade do sistema” de regulação.