Milhares de alemães nas ruas contra o plano de deportação de migrantes da extrema-direita

17 de janeiro 2024 - 19:39

Em cinco dias consecutivos, as ruas de várias cidades alemãs têm-se enchido de vozes antifascistas em reação a notícia de que se estaria a preparar um plano de deportação em massa caso a AfD vencesse as próximas eleições.

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Manifestação contra a extrema-direita em Berlim. Foto de CLEMENS BILAN/EPA/Lusa.
Manifestação contra a extrema-direita em Berlim. Foto de CLEMENS BILAN/EPA/Lusa.

Há cinco dias consecutivos que centenas de milhares de pessoas saem às ruas da Alemanha contra a extrema-direita depois de ter sido revelado que quadros importantes do principal partido desta área política, a AfD, Alternativa para a Alemanha, tinham participado numa reunião com elementos de grupos neonazis onde foi discutido um plano para a deportação massiva da cidadãos estrangeiros “não assimilados” em caso de vitória eleitoral do partido de extrema-direita alemão.

A plataforma de jornalismo de investigação Correctiv foi quem desvendou o plano discutido nos arredores de Postdam em novembro passado. A indignação imediata foi transversal nas declarações oficiais de partidos da esquerda à direita e saltou depois para as ruas com manifestações onde, apesar das temperaturas negativas que se fazem sentir, têm estado presentes dezenas de milhares de pessoas em várias cidades do país como em Leipzig, Rostock, Essen e Berlim. Nos próximos dias vai voltar a haver concentrações pelos menos em Berlim e em Hamburgo.

O próprio chefe do governo alemão, o chanceler Olaf Scholz, junto com vários outros governantes, esteve presente nos protestos e na rede social X afirmou-se “grato” pelas manifestações “contra o racismo, o discurso de ódio e a favor da nossa democracia liberal”.

Já a extrema-direita tenta minimizar os possíveis estragos feitos pela notícia numa altura em que as sondagens davam a AfD em crescimento como o segundo partido com mais intenções de voto a nível nacional, chegando a ser primeiro em alguns estados de leste que vão a votos em setembro.

A co-presidente do partido, Alice Weidel, distanciou-se do seu conselheiro, o ex-deputado e ex-gestor da Bayer Roland Hartwig, que esteve presente na reunião, negando qualquer conhecimento ou envolvimento da estrutura nos planos de deportação. Ainda assim, reiterou o discurso de culpabilização de migrantes, reafirmando que pretende restringir mecanismos de legalização porque “a cidadania alemã não pode ser vendida barata e distribuída com um regador” e deportar “suspeitos de terrorismo”.

Por outro lado, vários militantes do partido não esconderam o agrado com a apresentação do plano. O deputado federal René Springer foi um deles, escrevendo no X: “vamos mandar os estrangeiros de volta para os seus países. Milhões deles. Não é um plano secreto. É uma promessa”. O Guardian avança ainda que membros do partido afirmam que Hartwig continuará a desempenhar um papel importante no partido mas longe dos holofotes mediáticos.

Por isso não é de estranhar que sejam muitos os que nas ruas desconfiam deste distanciamento. Há faixas e palavras de ordem a exigir que o partido criado há onze anos seja banido por infringir a constituição. Nos principais partidos do sistema político alemão, a perspetiva sobre avançar para o Tribunal Constitucional parece fora de questão. Até porque os requisitos que poderiam ilegalizar o partido são difíceis de provar e há quem calcule que uma decisão em sentido contrário legitimaria a extrema-direita.