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Mike Davis (1946–2022)

Falecido esta terça-feira, Mike Davis foi um repórter radical brilhante com o olhar de um romancista e a memória de um historiador. Por Jon Wiener.
Mike Davis. Pormenor de uma foto de Adam Perez/Los Angeles Times. Reproduzida pelo blogue da Boitempo.
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Mike Davis, autor e ativista, herói radical e homem de família, morreu a 25 de Outubro depois de uma longa luta contra o cancro do esófago; tinha 76 anos. É mais conhecido pelo seu livro de 1990 sobre Los Angeles, Cidade de Quartzo: Escavando o Futuro em Los Angeles. Marshall Berman, numa recensão para The Nation, disse que combinava "o cidadão radical que quer deitar mão à totalidade da vida da sua cidade, e a guerrilha urbana impaciente para ver toda esta coisa maldita explodir".

E esta coisa explodiu, dois anos depois de o livro ter sido publicado. Quando os motins de Rodney King eclodiram em LA em 1992, os brancos assustados correram para casa, trancaram as portas, e ligaram o noticiário televisivo. Mike, contudo, estava a conduzir na direção oposta, com o seu velho amigo Ron Schneck ao seu lado. Estacionaram, saíram, e começaram a falar com as pessoas nas ruas sobre o que se estava a passar. Depois ele foi para casa e escreveu sobre o assunto.

Mike era uma pessoa dos anos 1960, mas não vinha de um passado liberal ou de esquerda. O seu pai era um cortador de carne e um conservador, e como jovem patriota Mike juntou-se por pouco tempo aos Devil Pups - a versão do Corpo de Fuzileiros Navais dos Escuteiros. A sua vida foi transformada pelo movimento dos direitos civis. Em 1962, quando era júnior no liceu, uma ativista negra casada com o seu primo levou Mike a um protesto organizado pelo Congresso para a Igualdade Racial (CORE), fazendo um piquete numa sucursal totalmente branca do Bank of America em San Diego. Em breve tornou-se voluntário no gabinete do CORE de San Diego. Começou a faculdade em Reed, mas saiu para ir trabalhar para a SDS [Students for a Democratic Society].

Como organizador da SDS no final dos anos 1960, Mike fez parte da maior detenção em massa na história da década de 1960 - no "Valley State", atual Universidade do Estado da Califórnia - Northridge, em 1969, quando 286 foram presos após uma reunião pacífica de 3.000 estudantes que protestavam contra a decisão da administração escolar de proibir todas as manifestações, comícios e reuniões. "O que mais me lembro vivamente das detenções", disse ele 45 anos mais tarde, "foi a viagem para a prisão num autocarro da polícia". As raparigas começaram a cantar, 'Hey Jude, don't be afraid'. Apaixonei-me por todas elas".

A Cidade de Quartzo foi a sua obra-prima. Publicada em 1990, abre com uma descrição de uma visita às ruínas da cidade socialista de Llano del Rio, fundada em 1914 no deserto ao norte de Los Angeles. Ali, no Primeiro de Maio de 1990, encontra dois trabalhadores de vinte e poucos anos de El Salvador acampados, na esperança de trabalhar nas proximidades de Palmdale. "Quando lhes disse que estavam instalados nas ruínas de uma ciudad socialista, um deles perguntou se 'os ricos tinham vindo com aviões e bombardearam-os'". Perguntaram o que estava ele a fazer ali, e o que pensava de Los Angeles. "Tentei explicar que tinha acabado de escrever um livro..." E depois vira a página, para o capítulo um, o inesquecível "Sunshine and Noir".

Depois de Cidade de Quartzo, toda a gente queria o Mike. Adam Shatz escreveu em 1997 sobre como

telefonar ao Mike Davis é uma boa maneira de conhecer o seu atendedor de chamadas.... Sentado no seu alpendre, numa noite quente, compreendi porquê: O telefone tocou incessantemente, e Davis nunca se levantou da sua cadeira. As chamadas duram desde a manhã até à meia-noite. Pode ser o fotógrafo Richard Avedon ou o arquitecto I.M. Pei com um pedido para uma das visitas guiadas lendárias de Davis a L.A.... Pode também ser um curador dinamarquês a montar uma exposição na cidade pós-moderna, um organizador do sindicato dos trabalhadores da hotelaria, um estudante no Centro Cesar Chavez da UCLA, ou (muito provavelmente) um argumentista de Hollywood.

Ele recusava a maioria dos convites para falar. Lembro-me da sua filha Roisin dizer-lhe em 2014: "Pai, devias mesmo responder a esse convite da presidente da Argentina", e Mike dizer: "Se não estou a responder ao papa, não lhe vou responder a ela". (Ele tinha sido convidado para ir ao Vaticano após a publicação do Planeta Favela).

Mas ele aceitou alguns. Na UC Irvine, onde fomos colegas no departamento de História durante a maior parte de uma década, dei uma palestra no seu curso ("Introdução à História dos EUA no Século XX") para o substituir no dia em que ele falava numa convenção anarquista em Palermo.

Mike detestava ser chamado "um profeta da desgraça". Sim, Los Angeles explodiu dois anos depois da Cidade de Quartzo; os incêndios e inundações tornaram-se mais intensos depois da Ecologia do Medo, e claro que uma pandemia global se seguiu a O Monstro Bate à Nossa Porta. Mas quando escreveu sobre as alterações climáticas ou pandemias virais, não estava a dar uma "profecia"; estava a relatar as últimas investigações. Depois de aparecer o covid, fizemos vários episódios do podcast da Nation sobre isso; e a certa altura ele disse-me: "tenho ficado acordado até tarde a ler livros de virologia".

Ele disse que escreveu sobre as coisas que mais o assustavam. Ecologia do Medo (1998) tratava de terramotos, incêndios florestais, inundações e secas que duraram séculos. Um capítulo, "Por que se Deve Deixar Malibu Arder", tornou-se um clássico, argumentando que os orçamentos para incêndios seriam mais bem gastos na proteção de bairros com muita gente no interior da cidade do que em mega-mansões construídas em áreas remotas de colinas em risco de incêndio. Isso provocou a sua própria tempestade de fogo. Os seus críticos, liderados por um corretor de imóveis de Malibu, não conseguiram refutar o seu argumento, por isso foram atrás das suas notas de rodapé - e tanto o Los Angeles Times como o The New York Times publicaram histórias sobre a "controvérsia". Mas a controvérsia desvaneceu-se e a argumentação tornou-se mais forte. "Durante a época dos incêndios", escreveu o colunista do LA Times Gustavo Arellano em 2018, quando os incêndios circundaram Los Angeles e o céu esteve cheio de fumo durante semanas, "Penso sempre em...'Por que se Deve Deixar Malibu Arder'".

Ao contrário do resto da Nova Esquerda, Mike não rejeitou a velha esquerda - a sua mentora nos anos 1960 e nos anos 1970 foi a renegada líder do PC no Sul da Califórnia, Dorothy Healey. Mike adorava discutir com ela. Quando Dorothy morreu em 2006, Mike escreveu em The Nation que representava "a 'maior geração' da esquerda - aquelas crianças duras como aço da Ellis Island que construíram a CIO [Congresso de Organizações Industriais], combateram Jim Crow em Manhattan e Alabama, e enterraram os seus amigos na terra espanhola". As suas mortes, disse ele, foram "uma perda inestimável e dolorosa". Agora sentimos o mesmo em relação à sua.


Jon Wiener é um editor de The Nation e co-autor (com Mike Davis) de Set the Night on Fire: L.A. in the Sixties. Artigo publicado em The Nation. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net,

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