Em entrevista ao Esquerda.net, o cabeça-de-lista pelo distrito do Bloco de Esquerda às eleições de 18 de maio fala sobre o peso da crise da habitação para quem trabalha e estuda em Coimbra, e lembra as lutas ambientais que as populações locais já travaram.
Como é que a crise de habitação afeta as populações de Coimbra e como é que se combate esse efeito?
Nós temos o aumento dos preços das casas em Coimbra acima dos dois dígitos. Em muitas zonas do distrito é muito difícil encontrar casa, não é só em Coimbra ou na Figueira. Mesmo em Condeixa, na Lousã, em Poiares, em Cantanhede. Claro que isso tem uma tradução também específica aqui em Coimbra, sendo uma cidade universitária, onde os custos da habitação cada vez pesam mais na carteira dos estudantes. A Associação Académica de Coimbra fez um estudo o ano passado, que partilhou connosco, onde mostrava que estudar custava cerca de 600 euros por mês a cada estudante. Isto fora as propinas. Estou certo que este número já subiu e boa parte deste valor tem a ver com a habitação. Claro que depois isso se cruza com questões de gentrificação e de abandono do centro histórico de Coimbra, por exemplo.
Há também problemas na saúde que é preciso resolver...
Temos uma fusão hospitalar que foi feita e que foi mal conduzida. Importa, de alguma forma, olhar de novo para isso e ver de que modo é que se articula essa solução. Nomeadamente no esvaziamento do Hospital dos Covões e como é que ele pode ser contornado. E falamos também da construção de uma nova maternidade, que é uma urgência tendo em conta que as duas maternidades que atualmente existem em Coimbra estão com problemas desde logo de equipamento.
Que outras prioridades tem o Bloco no distrito de Coimbra?
O domínio da justiça é importante. Há décadas que Coimbra espera um novo Palácio da Justiça. Nós temos reivindicado isso e houve alguns passos recentes para que esse projeto eventualmente avance. Mas para nós o que importa é que esse sinal, que foi dado pela Câmara Municipal e pelo Governo, significa que a partir de agora já não há álibis nenhuns para que o novo Palácio da Justiça não avance. Alguns dos espaços associados ao Parque Judiciário estão em condições absolutamente deploráveis. As pessoas que ali trabalham fazem-no em condições também completamente desadequadas. Depois temos duas áreas que são importantes para nós. Uma é a questão da mobilidade, porque nós temos uma parte do distrito que é atravessado pela IP3, que é um cancro. Defendemos a IP3 tenha um perfil de autoestrada sem portagens e defendemos também que a aposta na ferrovia se traduza, quer na ligação dos vários distritos pela ferrovia, quer depois na passagem da alta velocidade aqui pela cidade de Coimbra com uma lógica de intermodalidade. A segunda área é a questão do ambiente. Há outras áreas do país que têm estado a ser alvo de políticas extrativistas muito agressivas. Em Leiria, existem várias propostas de mineração de caulinos e nós aqui também tivemos tentativas de prospeção.
Em que ponto estão essas tentativas?
A extração foi combatida pelas populações e houve uma vitória. Em Vila Verde houve outro caso e a empresa também recuou, aliás, a Mariana Mortágua esteve aqui connosco na aldeia do Meco e foi extremamente bem recebida. Por enquanto foi uma vitória e estas lutas têm muito a ensinar-nos. São lutas pela saúde das pessoas da região, pelos recursos hídricos pelo ecossistema, pelo direito ao lugar, pelo direito ao espaço, pelo direito a que aquelas terras não sejam completamente destruídas e dizimadas, que é aquilo que se preparavam para fazer na aldeia do Meco. E até ver, a mobilização das populações conseguiu conter isso. É uma das lutas que nós queremos também nesta campanha amplificar, porque uma campanha também serve para isso, para dar voz às lutas justas.
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Ainda em relação à mobilidade, a greve da CP tem sido tema de conversa. Como é que esse desinvestimento na ferrovia se sente em Coimbra?
O problema aqui é um problema que acontece também noutros lugares. É um problema de um desinvestimento longo na história das últimas décadas no país. Coimbra tem uma história, porque tinha uma ligação ferroviária à Lousã que foi cortada para se construir o Metrobus, que são autocarros elétricos. E essa ligação ainda não está a funcionar. Do nosso ponto de vista, a aposta na ferrovia é muito importante. Acontece que em alguns casos ela foi tornada, pelo menos em tempos próximos, uma impossibilidade.
Coimbra tem uma economia diversificada, desde a mais-valia económica da academia às indústrias extrativas de que falavas ainda agora. Como é que se valoriza essa economia e para onde é que se deve dirigir?
O distrito tem realidades muito diferentes. É um distrito que tem uma ligação ao mar, tem uma componente marítima com tudo que está associado de indústria ligada ao mar. Tem uma parte agrícola muito importante ligada à bacia do Baixo Mondego que tem a ver com o arroz e com outras realidades agrícolas. E tem uma parte industrial que sofreu um processo de desindustrialização, de abandono daqueles espaços e de recomposição da classe trabalhadora. Precisamos de uma industrialização adequada aos tempos modernos, que é verde. É preciso resolver um problema de trabalho, que depois também tem outra componente, que é as pessoas que vêm para cá estudar e não conseguem emprego em Coimbra, porque é uma cidade sobretudo de serviços. Para além da questão da existência de emprego, temos também que pensar a qualidade do emprego e a relação disso com a qualidade de vida
Que balanço fazes da campanha no distrito até agora?
Tem corrido bem, temos tido alguns momentos particularmente importantes. Há pouco mencionava a luta das populações da aldeia do Meco, que confiaram no Bloco. Chamaram-nos para estar presentes ali e, portanto, é também o reconhecimento que o Bloco tem sempre estado nestas lutas. Temos reunido com várias associações, vários sindicatos, que nos têm alertado para questões desde logo relativas ao trabalho e ao tempo de trabalho e das remunerações. Temos tido uma recepção às nossas propostas positivas, ainda ontem estivemos aqui numa grande feira que há aqui em Coimbra e fomos bem recebidos pela generalidade da população.