A direita espanhola ganhou as eleições com maioria absoluta, mas não convenceu os mercados, os atuais juízes absolutos dos comportamentos políticos. Estes responderam aos resultados transformando a dívida soberana de Espanha na de pior comportamento entre as que revelam maiores riscos logo na manhã seguinte à consulta eleitoral. Os socialistas afundaram-se, como se esperava, perdendo 59 deputados. A Esquerda Unida registou um grande resultado, subindo de dois para 11 deputados e a Esquerda Abertzale, através da coligação de nacionalistas e independentes Amaiur, tornou-se a maior força política basca com representação no Parlamento de Madrid.
Dentro do sistema governante espanhol não se registaram surpresas nas eleições. O Partido Popular de Mariano Rajoy conseguiu a maioria absoluta, conquistou mais 32 deputados do que na legislatura anterior e chegou aos 44,6 por cento, que correspondem a quase quatro milhões de votos de vantagem sobre os socialistas.
O PSOE de Perez Rubalcaba, que sucede ao demissionário presidente do Governo José Luiz Zapatero, perdeu 59 deputados, obteve 28,73 por cento e promete “reflectir” agora sobre o seu futuro para enfrentar a “travessia do deserto”. Com a dívida soberana espanhola à beira do resgate, austeridade em crescendo, economia quase estagnada, mais de 22 por cento de desemprego – que entre os jovens chega quase aos 45 por cento – o PSOE deixou na sociedade espanhola as suas marcas decorrentes da gestão económica neoliberal.
A Esquerda Unida, que integra o Partido Comunista de Espanha, subiu dois para 11 deputados, praticamente triplicou os seus votos e ficou à beira dos sete por cento. O seu eleitorado foi reforçado nestas eleições com muitos cidadãos espanhóis de esquerda cansados da política dos socialistas.
No plano nacional, surgiu uma nova realidade partidária, porém muito longe de alcançar o pretendido objetivo de quebrar o bipartidarismo do PP e PSOE. A União para o Progresso e a Democracia, que se apresenta como social democrata e pretende maior reforço do Estado central em detrimento das autonomias, subiu de um para cinco deputados, atingindo 4,69 por cento. Uma votação conquistada através de franjas desiludidas do PSOE e sectores de direita que não se revêem no pós-franquismo que o PP não abandonou apesar da troca de Aznar por Rajoy.
Os dados políticos mais significativos, e que testarão a relação entre a capacidade de negociação e o autoritarismo do novo governo, surgiram de Comunidades Autonómicas, sobretudo do País Basco, devendo, neste caso, ser avaliados em conjunto com Navarra..
A coligação Amauir, representando a Esquerda Abertzale através da formação de um bloco eleitoral entre a Bildu e o Aralar, conquistou sete deputados em Madrid e tornou-se o partido da região basca com maior representação no Congresso nacional, ultrapassando o Partido Nacionalista Basco. Os resultados confirmam a tendência já registada nas eleições regionais de Maio, em que a Bildu foi a coligação com mais eleitos.
A coligação Amaiur ficou apenas a três mil votos de ser o partido mais votado no País Basco e Navarra, superado apenas pelo PP que, ficando em quarto lugar no País Basco, manteve o seu bastião forte em Navarra. A Esquerda Abertzale deixou os nacionalistas conservadores do Partido Nacionalista Basco a dez mil votos e com menos dois deputados (7-5) no conjunto das duas regiões.
Uma viragem que não pode ser ignorada em qualquer circunstância porque foi obtida pouco depois de a ETA ter renunciado às armas. A questão basca entra decididamente no plano apenas político e as tendências manifestadas pelos cidadãos bascos estão em cima da mesa e não deixam margens para muitas dúvidas.
Estas questões passaram, logo segunda-feira de manhã, ao lado dos mercados, preocupados com outros números. As bolsas espanhola e europeias não revelaram qualquer satisfação especial com a vitória da direita e, noutra vertente, em termos de dívidas soberanas, o dia foi negro para Espanha.
Numa primeira reação aos resultados eleitorais, a dívida espanhola trepou mais um pouco em direção à zona vermelha dos 500 pontos do prémio de risco – relação entre os títulos espanhóis e alemães – colocando-se praticamente a par da italiana, que saiu ao de leve dessa zona. Os 500 pontos assinalam a marca teórica a partir da qual as dívidas dos países caem nas garras dos resgates e nas mãos da troika.
Entre o governo moribundo de Zapatero, na sexta-feira, e as promessas governamentais de Rajoy, na segunda-feira, a dívida espanhola subiu 27 pontos nessa escala, para 467, a de pior comportamento relativo entre as que estão “sob suspeita”. A italiana, com o “efeito Monti”, saiu dos 500 para os 485. Os juros da dívida espanhola atingiram um máximo histórico de 6,5 por cento. Os resultados não são mais graves porque, contra vontade, o Banco Central Europeu continua a intervir nas dívidas espanhola e italiana.
Segundo os analistas que multiplicaram comentários desde segunda-feira muito cedo, a mensagem dada pelos mercados à direita espanhola é a de que “deve saber ouvi-los”, pelo que o governo a formar, pesem embora todas as promessas de dinamização económica e combate ao desemprego, deve ter em conta as “experiências tecnocráticas” em curso em Itália e na Grécia. Neste quadro a perspetiva dos espanhóis é a mesma de antes das eleições: agravamento da austeridade, estagnação ou mesmo recessão e ainda mais desemprego.
Publicado no site do Grupo Parlamentar europeu do Bloco de Esquerda