Chamaram-se a si próprios “Médicos pela Verdade”, copiando o nome de um grupo espanhol de desinformação sobre a pandemia. Têm feito campanha contra o uso de máscara e desvalorizado a ameaça da covid-19. Depois de várias queixas, a Ordem dos Médicos abriu processos disciplinares contra sete médicos desta organização.
O grupo não tem nenhum especialista em saúde pública, infecciologia, epidemiologia ou pneumologia. Nasceu em agosto e inclui, para além de médicos, dentistas, enfermeiros e psicólogos. Por isso, a Ordem dos Psicólogos diz que também está a averiguar a situação.
Na sua página de Facebook, onde têm mais de 50 mil seguidores, o tom que assumem é o da revelação de uma verdade que todos os outros estariam a ocultar. O Polígrafo, ainda em agosto, identificou “sete fake news” divulgadas pela plataforma, baseando-se no discurso da “casa mãe” espanhola: sobre a necessidade de usar máscara e os supostos efeitos prejudiciais de o fazer, sobre a ineficácia dos testes para detetar a doença, sobre a correlação entre a vacinação da gripe e os casos mais graves de Covid-19, sobre a eficácia da hidroxicloroquina e de anticoagulantes e anti-inflamatórios no combate à doença e do dióxido de cloro na prevenção e mesmo sobre a propagação do coronavírus através do 5G.
Para além dos "médicos pela verdade" espanhóis, copiam o discurso e os argumentos de outros obscuros grupos internacionais como World Doctors Alliance, desmistificado também este por sites de verificação de informação.
Os “médicos pela verdade” portugueses admitem que a doença tem consequências muito graves, mas apenas em “pacientes com imunidade deprimida, doenças pré-existentes ou idade muito avançada”, desvalorizando as repercussões nos outros. Dizem igualmente que os assintomáticos não contraíram a doença e por isso não se deveriam confinar. E, tal como os seus contrapartes espanhóis, alegam que “o uso de máscaras pela população em geral aumenta o risco respiratório” e que os testes PCR criam “falsos positivos”. Com tudo isto, pretendem explorar a rejeição a algumas das medidas de combate à epidemia, baseando-se na ideia de que há “discrepâncias” entre “a gravidade atual da Covid-19 e as medidas que estão a ser implementadas”.
O diretor de serviço de Neurorradiologia do Hospital Egas Moniz, Gabriel Branco, é um dos alvos de processo disciplinar. Ao Público confirmou o processo disciplinar e fala em “perseguição” a quem apenas “discorda do discurso oficial”. Ao Observador acrescenta que “a opinião dos especialistas vale zero quando há estudos publicados,” desvalorizando na prática os estudos existentes e referindo-se apenas aos apoiantes do seu movimento. Só que, para além do discurso, é acusado por colegas do seu hospital de atos contrários à saúde pública: não usaria máscara nas áreas comuns do hospital. O visado nega.