Tóquio, 2020
Realizados depois das datas previstas por causa da pandemia de Covid, os jogos de Tóquio tiveram a sua preparação marcada por problemas e conflitos que são endémicos nestes eventos (gastos milionários, deslocação forçada de populações, militarização do espaço público e propaganda verde para mascaram impactos ambientais massivos.
No caso do Japão, somou-se a indiferença do Comité Olímpico Internacional pelos riscos associados à pandemia, colocando vidas humanas em risco não só dentro da bolha olímpica, mas também fora dela. Quando se realizaram os jogos, apenas 22% da população japonesa estava completamente vacinada. As taxas de contágio em Tóquio aumentaram ao ponto de constituir uma quinta vaga, agravada pela invasão da variante Delta altamente transmissível. A impopularidade do evento na área metropolitana de Tóquio (37 milhões de habitantes) era total.
Rio de Janeiro, 2016
Duas semanas antes do início dos Jogos, a Vila Olímpica destinada ao alojamento dos atletas recebeu atenção internacional. Problemas de acabamento e derrames de água fizeram as delegações da Austrália, Argentina e Suécia recusarem-se a ficar no local. Cinco vezes acima do previsto, o gasto público com a Vila atingiu 255 milhões de reais, obras realizadas por um consórcio envolvendo a Odebrecht, empresa financiadora de campanhas do então prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB).
Depois do Mundial de Futebol de 2014, que custou 15 mil milhões de dólares (derrapagens de 75%) e foi o mais caro da história da FIFA, os custos dos Jogos Olímpicos do Rio em 2016, previstos em 4600 milhões de dólares, derraparam 50%. Ambos os mega-eventos foram considerados maus investimentos. O Brasil enfrentou a pior recessão em 25 anos, houve cortes na saúde e educação e a polícia ficou sem receber por várias semanas.
Nas vésperas da abertura, o Comité Popular da Copa e das Olimpíadas no Rio de Janeiro divulgou um mapa dos “Jogos da Exclusão”, indicando comunidades expulsas para as obras, favelas ocupadas militarmente, crimes ambientais e irregularidades de todo o tipo nas empreitadas.
Desde 2009, quando a cidade venceu a disputa para sediar os Jogos, mais de 77 mil pessoas perderam as suas casas no Rio de Janeiro. O prefeito Eduardo Paes invocou a construção das vias rápidas ou alegando riscos de desabamentos, sem nunca discutir com os afetados alternativas aos despejos, como seriam alterações de trajetos e obras de contenção.
Sochi, Rússia 2014
Fora desta série, merecem referência os jogos de inverno de 2014, promovidos pela Federação Russa. O lema olímpico “mais rápido, mais alto, mais forte” aplica-se tanto ao desempenho dos esquiadores quanto ao orçamento do evento. Para Vladimir Putin, o acolhimento dos jogos era uma oportunidade de celebrar a identidade nacional, reafirmar o poder do Estado no Cáucaso (a ocupação parcial da Geórgia teve lugar seis anos antes) e de afirmar o lugar da Rússia no jogo das potências. Esse tabuleiro viria a ficar muito diferente, logo uma semana após o final dos jogos, quando tropas de Putin anexam a Crimeia.
Londres, 2012
Com o antecedente dos engarrafamentos massivos dos Jogos de 1996 em Atlanta (que impediram alguns atletas de chegar às competições), o presidente da Câmara de Londres em 2012, o conservador Boris Johnson, lançou uma campanha para persuadir os londrinos a evitarem o centro durante os Jogos. O resultado foi uma cidade fantasma. Restaurantes e teatros vazios, ruas sem muita gente, quebra abrupta no comércio. O número de visitantes na famosa Torre de Londres perdeu 56% de visitantes.
Jogos Olímpicos de Paris
69 atletas olímpicos palestinianos mortos por Israel em Gaza
A polémica aconteceu também quando a multinacional Dow Chemical surgiu entre os patrocinadores das Olimpíadas. A Dow fabricou agente laranja, legado da guerra química no Vietname. O Vietname não boicota esta competição, mas apresentou um protesto formal perante o Comité Olímpico Internacional.
Pequim, 2008
O governo chinês quis demonstrar ao mundo a entrada do país na categoria das superpotências. Mas não conseguiu livrar-se das acusações de violações de direitos humanos e de aplicar o capitalismo mais selvagem sobre o seu povo. Foi muito divulgado à época que a China executava anualmente mais de sete mil penas capitais (a média mantém-se até hoje), ou seja, 80% das penas de morte então aplicadas no mundo. Além disso, a estabilidade do gigante era ameaçada por outros perigos: uma previsível quebra bolsista, inflação alta, desastre ecológico, motins sociais.
O "milagre" chinês assenta até hoje na repressão e exploração de um imenso exército de trabalhadores que fabrica para o mundo inteiro todo o tipo de bens de consumo baratos. Às vezes trabalham entre 60 e 70 horas por semana, recebendo menos do que o salário mínimo. Anualmente, em 2008, mais de 15 mil operários morriam em acidentes de trabalho. Os conflitos sociais não paravam de crescer: greves selvagens, revoltas de pequenos agricultores, além do escândalo das crianças escravas.
Uma das poucas tradições chinesa que o Partido Comunista pretendeu esconder do mundo durante os Jogos Olímpicos foi a dos rios de peticionários que afluem à capital para obter justiça. Este sistema, herdado da época imperial, permite que os habitantes das províncias se dirijam ao "centro" se se considerarem vítimas de injustiça, desvendando assim a face sombria da China. Nos meses anteriores aos jogos, organizações de defesa dos direitos do homem como a Amnistia Internacional acusaram Pequim de expulsar os peticionários da capital antes do grande evento desportivo.