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Massacre em Uvalde foi o mais mortífero dos últimos 10 anos em escolas nos EUA

19 crianças e dois professores morreram na terça-feira num tiroteio numa escola em zona rural do Texas. Lóbi das armas mantém a sua festa anual este fim de semana no Texas, enquanto as medidas para o controlo de armas continuam a esbarrar no Senado norte-americano.
Placa de trânsito numa estrada de Uvalde serviu como alvo de tiro, Texas. Foto mlhradio/Flickr

Apenas onze dias depois do ataque racista que deixou 10 mortos num supermercado em Buffalo, no estado de Nova Iorque, os Estados Unidos voltam a estar de luto por causa de mais um massacre, desta vez numa escola básica em Uvalde, no estado do Texas. Pelo menos 19 crianças e dois professores foram mortos e há feridos no hospital em estado crítico. Trata-se do massacre mais mortífero desde o ocorrido na escola de Sandy Hook em Newton, no estado do Connecticut, que em 2012 vitimou 20 crianças e seis professores. Nas contas do Washington Post, desde o massacre de Columbine em 1999, 311 mil crianças em 331 escolas foram expostas a situações de tiroteios que mataram 185 alunos, professores e outros funcionários e feriram outras 369 pessoas.

O autor deste massacre em Uvade foi morto pela polícia no local e identificado como Salvador Ramos, de 18 anos. Colegas da escola secundária da localidade descrevem-no como uma pessoa com dificuldade em fazer amigos, alvo de bullying por causa da gaguez desde a infância e que faltava muito às aulas, além de ser um adepto de jogos de vídeo de atiradores, como Fortnite ou Call of Duty. Contam também que o ambiente familiar era marcado por discussões frequentes com a mãe, utilizadora de drogas, o que o fazia passar cada vez mais tempo em casa da avó, a primeira a ser alvejada a tiro na terça-feira, escapando com vida, antes de Salvador partir para a escola para o assassinato em massa com as armas que adquiriu legalmente na semana passada, quando fez 18 anos.

Segundo o Gun Violence Archive, só este ano até meados de maio houve 215 tiroteios em que quatro ou mais pessoas acabaram feridas ou mortas nos EUA, com 10 deles a resultar em mais de quatro mortes. No ano passado ocorreram 693 destes tiroteios em massa, com 28 a resultar em quatro ou mais mortes. Logo no dia seguinte ao ataque racista de Buffalo houve outros dois tiroteios, um deles provocado pelo ódio à comunidade taiwanesa em Laguna Woods, na California, que resultou em um morto e quatro feridos. Em Houston, no Texas, o motivo foi uma rixa entre dois grupos num mercado ao ar livre, com dois mortos e três feridos graves a lamentar.

FBI: Ataques com atiradores contra população indiscrimada aumentaram 52% em 2021

Na véspera deste massacre de Uvalde, o FBI divulgou dados que mostram que o ano passado morreram 103 pessoas e outras 130 ficaram feridas em ataques protagonizados por um ou mais atiradores com a intenção de matar pessoas numa área com movimento. É uma subida de 52% face a 2020 e o maior número de vítimas mortais desde 2017, ano em que o ataque de um sniper sobre uma multidão em Las Vegas matou 58 pessoas. O FBI alerta para outra tendência em crescimento: a dos atiradores que percorrem vários locais à procura de mais vítimas. E confirma que a grande maioria das armas usadas nos massacres são adquiridas legalmente, embora possam depois ser alteradas de forma ilegal para aumentar a frequência de tiro ou a capacidade de munições.

Biden quer "passar da dor à ação", mas propostas continuam bloqueadas no Senado

O Presidente norte-americano reagiu à notícia do massacre com uma declaração emocionada ao país. "Porquê? Porque é que estamos dispostos a viver com esta carnificina? Porque é que continuamos a deixar que isto aconteça?", perguntava-se Biden, apontando o dedo ao lóbi dos fabricantes de armas. "É altura de passar da dor à ação", respondeu, mas sem anunciar novas medidas de controlo de armas ou apelar ao Congresso para aprovar legislação de imediato. Biden era vice-presidente do país na altura do massacre de Sandy Hook e preparou legislação para o controlo de armas, que na sua maioria acabou por não passar no Senado norte-americano por causa da oposição do Partido Republicano.

O bloqueio republicano à mudança das leis das armas voltou a ser lembrado pelo líder da maioria democrata na Câmara dos Representantes. "Quantas vezes mais irão os senadores republicanos mostrar a sua indignação face aos tiroteios horrendos como o de hoje em Uvalde e em seguida bloquear legislação importante e bipartidária sobre verificação dos antecedentes de quem compra armas, que é apoiada por nove em cada dez americanos e proprietários responsáveis de armas?" perguntou Steny Hoyer. As leis em causa foram aprovadas em março do ano passado na Câmara dos Representantes mas continuam por agendar num Senado dividido ao meio entre democratas e republicanos. Um dos mais ferozes opositores das leis e que prometeu "fazer tudo o que estiver ao meu alcance para me opor ao confisco de armas pela extrema-esquerda" foi o congressista republicano Tony Gonzales, que representa os eleitores de Uvalde e viu esse seu tweet relembrado nas redes sociais pouco depois do massacre.

Lóbi das armas mantém festa anual este fim de semana no Texas, com discurso do governador e de Trump

Com as mudanças nas leis das armas bloqueadas no Senado, a Câmara dos Representantes aprovou na quarta-feira uma lei contra o terrorismo doméstico, tendo como um dos alvos os supremacistas brancos, mas também esta dificilmente terá o apoio dos 10 senadores republicanos de que necessita para seguir caminho com rapidez nos trâmites legislativos.

Apesar da comoção gerada por mais este massacre, o principal lóbi das armas nos EUA, a Associação Nacional de Armas (NRA), anunciou que irá manter a sua festa anual este fim de semana em Houston, no Texas, onde prevê juntar 55 mil pessoas e ouvir discursos de convidados, dos quais se destacam o ex-Presidente Donald Trump, o governador do Texas Greg Abbot e o senador republicano Ted Cruz. A associação recusou os apelos ao cancelamento do evento após o massacre e continua a vender bilhetes para "um fim de semana para toda a família onde celebramos a Liberdade, as Armas de Fogo e a Segunda Emenda", anuncia o site do evento.  

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