Memória

Marx e o debate de género na Iª Internacional

10 de agosto 2025 - 10:16

Na primeira organização internacional de trabalhadores, Marx opôs-se às teorias de que o lugar das mulheres era forçosamente em casa. Era preciso lutar vigorosamente contra as condições terríveis do trabalho feminino mas o trabalho feminino criaria condições para libertar as mulheres do jugo que sofriam no ambiente doméstico.

por

Inessa Armand

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 Inessa Armand
Inessa Armand

Os primórdios da organização internacional da classe trabalhadora coincidiram com os desafios impostos ao movimento operário pela entrada expressiva de mulheres na força de trabalho industrial. Encurraladas entre condições de trabalho ainda mais degradantes e a hostilidade dos seus camaradas homens, "coube ao movimento operário feminino resolver uma questão básica" que permitiu fortalecer o movimento de trabalhadores de então. Em "As trabalhadoras na Iª Internacional", escrito em 1920, a revolucionária francesa que vivia na Rússia, Inessa Armand, retoma o processo de fundação da organização internacionalista e avalia o papel dos comunistas, especialmente de Marx e Engels, na luta por direitos e auto-organização das mulheres trabalhadoras.


Quando, há cinquenta anos, surgiu a primeira Associação Internacional dos Trabalhadores, a Iª Internacional, o movimento internacional dos trabalhadores encontrava-se nos primeiros estágios do seu desenvolvimento. Em alguns países, como na Rússia, esse movimento ainda não existia por completo; noutros, apenas se iniciava. Em nenhum lugar havia partidos políticos do proletariado – os socialistas compunham apenas pequenos grupos esparsos, que ainda não representavam uma grande força organizada. Os trabalhadores estavam reunidos em cooperativas, clubes, sindicatos. Naquela época os sindicatos existiam apenas nos países mais avançados e eram amplamente organizados apenas na Inglaterra.

É claro que as trabalhadoras despreparadas estavam ainda menos organizadas.

Desde o começo do século anterior, o trabalho feminino ajustou-se de modo crescente à produção, e no momento da criação da I Internacional as trabalhadoras já eram largamente utilizadas nas fábricas e oficinas.

As trabalhadoras não estavam organizadas de modo algum nem sabiam lutar contra o capital. Sendo assim, as condições de trabalho eram verdadeiramente tenebrosas.

Se os trabalhadores eram explorados e oprimidos, as trabalhadoras enfrentavam condições ainda piores numa escala cem vezes maior. Com a utilização delas nas fábricas e indústrias, a situação de vida e a luta da classe operária foram significativamente precarizadas. O aconchego doméstico e a escassa vida em família dos trabalhadores foram destruídos, e as crianças foram privadas dos cuidados e da atenção maternos.

Junto com isso, o trabalho feminino ajustou-se ao capitalismo exatamente como o trabalho mais barato, mais humilde, e os proprietários, na sua luta contra os trabalhadores, utilizavam o trabalho feminino como um meio de piorar as condições de trabalho ou de mantê-las no patamar anterior, assim como uma forma de dominar os trabalhadores insubmissos. Por exemplo, em caso de greve, os operários eram despedidos, e mulheres eram colocadas no seu lugar.

Desta forma, num primeiro momento, o emprego do trabalho feminino foi uma catástrofe para a classe trabalhadora. Não é à toa que nessas condições os operários mais simplórios e pouco conscientes tentaram combater o trabalho feminino, não deixavam que as mulheres entrassem nas fábricas e nos seus sindicatos, partiam as máquinas. Também não por acaso as trabalhadoras ainda mais simplórias e menos conscientes com frequência faziam o papel de “capacho”, de fura-greve.

Assim, por exemplo, na cidade inglesa de Halifax, em 1871, foi dito aos tecelões que o seu salário diminuiria. Os trabalhadores entraram em greve, e mulheres foram contratadas no seu lugar. Em 1872, na cidade escocesa de Edimburgo, as trabalhadoras também assumiram os postos dos grevistas, e assim por diante.

No entanto, se a classe operária e principalmente a sua ala feminina não estavam organizadas, nos países mais avançados, como França e Inglaterra, o proletariado já fazia oposição aos seus inimigos de classe, à burguesia e aos capitalistas e fazia os seus primeiros combates de classe. É verdade que os trabalhadores, mesmo que de uma forma confusa e às cegas, começavam a identificar o caminho para a sua libertação. Muito antes do surgimento da Iª Internacional, em 1848, operários parisienses tentaram pela primeira vez no mundo arrancar o poder da burguesia através da revolta armada, e as mulheres trabalhadoras combateram e morreram nas barricadas junto com os homens. Já os trabalhadores ingleses tentaram através da luta persistente conseguir direitos políticos e melhorar as condições de trabalho.

A revolta da classe operária francesa foi reprimida. Mas esse evento serviu de lição a todo o movimento operário e ajudou os trabalhadores de vanguarda a entender que, para a sua libertação, devem lutar pelo poder. Depois vieram os anos pesados da reação. Mas, logo antes da criação da Iª Internacional, de novo sopraram os ventos da revolução por toda a Europa. Os operários ingleses conseguiram conquistar a jornada de trabalho de dez horas, e os de Rochdale (um lugarejo na Inglaterra) fundaram a primeira cooperativa operária. Noutros países, a luta dos trabalhadores despertava.

Já fazia algum tempo que os trabalhadores se consciencializavam da necessidade de se unirem internacionalmente para lutar contra a burguesia. A I Internacional foi fundada pelos trabalhadores de vanguarda franceses e ingleses, a quem depois se uniram os alemães, os suíços, os italianos, os espanhóis e os norte-americanos.

Desta forma, a I Internacional foi a primeira tentativa consciente de associação internacional dos trabalhadores. Tal associação, encabeçada pelos nossoe mestres Marx e Engels, logo estabeleceu para si objetivos revolucionários plenamente definidos.

A I Internacional procurou organizar os trabalhadores de diversos países para realizar a revolução. Ela quis ser o órgão, o instrumento dessa revolução e estabelecia como tarefa a luta política contra os burgueses, contra a reação e em prol do poder proletário. Era também necessário unir o movimento operário de forma ideológica. Os trabalhadores daquela época, mesmo os de vanguarda, não tinham claras as questões mais básicas da sua luta, não se tinham concertado em aspetos que hoje parecem completamente simples e óbvios a todo trabalhador e toda trabalhadora. Por exemplo: será preciso adotar a greve como forma de luta contra os burgueses? Será que os trabalhadores devem se organizar em sindicatos? Por fim, eles não tinham os objetivos finais do movimento esclarecidos, a necessidade da luta pelo socialismo como o único caminho para a libertação dos trabalhadores e trabalhadoras.

Todos estes temas, além de muitos outros, como a relação dos trabalhadores com a guerra, com o Estado e com as cooperativas, foram discutidos em detalhes nos congressos da I Internacional. Os comunistas da época, liderados por Marx e Engels, viram-se obrigados a enfrentar um embate violento sobre cada uma dessas questões, de um lado, com os então mencheviques-proudhonistas, que se declaravam contra a greve, os sindicatos e o socialismo e, de outro lado, com os anarquistas.

Os comunistas conseguiram prevalecer em quase todos esses debates. Os congressos decidiram pela necessidade da luta com greve, pela criação de sindicatos, pelo socialismo. Desta forma, os comunistas criaram as bases iniciais de um programa trabalhista que, em certa medida, até hoje orienta os trabalhadores e as trabalhadoras.

Mas coube ao movimento operário feminino resolver uma questão básica, que definiria toda a relação posterior dos operários com o movimento das operárias: o posicionamento dos operários em relação à presença da mão de obra feminina na indústria. Impôs-se aos comunistas resistir ao combate. O tema foi discutido no primeiro congresso da I Internacional, em Genebra. O trabalho feminino na indústria trouxe à classe operária tanto sofrimento e sacrifício que mesmo os trabalhadores de vanguarda se viram num beco sem saída e não sabiam como lidar com esse facto. Os então mencheviques-proudhonistas apoiavam a ideia de que a participação das mulheres na produção era uma barbárie. Com intervenções tocantes, reivindicavam que a mulher permanecesse no aconchego doméstico para proteger e educar os seus filhos e, nas suas resoluções, propunham protestar contra o trabalho feminino como o mal que acarreta a degradação social, moral e física da classe trabalhadora.

Na resolução proposta por Karl Marx e aceite pela maioria do congresso, manifestava-se um ponto de vista completamente diferente. Era indicada não apenas a inutilidade, mas também o caráter reacionário de todas as tentativas de impedir a presença das mulheres na indústria ou de restituí-las à força ao ambiente doméstico. Sem dúvida, as condições do trabalho feminino são terríveis, e é preciso lutar vigorosamente contra as formas abomináveis do emprego dele; mas o trabalho feminino nas fábricas e indústrias é bom por si só, porque ele liberta a mulher do jugo familiar, leva a trabalhadora do círculo estreito das atribulações familiares para a arena ampla do trabalho social, capacita o desenvolvimento da independência de seu caráter, cria as condições imprescindíveis para transformá-la numa combatente que guia a luta comum com os trabalhadores.

O trabalhador não deve lutar contra o trabalho feminino dessa forma, mas deve organizar a trabalhadora e combater as difíceis condições enfrentadas por ela.

Enquanto os burgueses sempre reprimiram as mulheres, afastaram-nas de toda a vida social de forma intensa, enquanto a burguesia não encontrava palavras suficientes para expressar o seu desprezo, com ditos como “o cabelo é longo, mas a inteligência é curta”, o trabalhador, desde os primeiros passos da sua luta consciente, desejou atrair as trabalhadoras para a luta, esclarecer a sua consciência, organizá-las. E a Iª Internacional fez muito para despertá-las e atraí-las para a luta dos trabalhadores.

Com o atraso do movimento operário de então, a Iª Internacional não podia abranger de forma organizada as amplas massas trabalhadoras. Mas em relação às greves que se desdobravam em diversos países, a força e a influência da Internacional continuaram a expandir-se e a firmar-se. Entre 1866 e 1870, ocorreu uma série de greves por toda a Europa. A grande greve dos bronzistas, em Paris; greves volumosas na Inglaterra; as greves incessantes dos mineiros, na Bélgica; greves na Suíça. Em todas elas, a Internacional tomou parte de maneira bastante viva. Ela organizava para os grevistas a ajuda e o apoio dos trabalhadores de outros países, criando com isso as primeiras manifestações efetivas de solidariedade internacional de massas. Ela apoiava os grevistas na imprensa, estimulava-os, ajudava-os na defesa no tribunal, enviando-lhes advogados etc.

Após essas greves, séries inteiras de trabalhadores de sindicatos declaravam a sua adesão à Internacional.

As trabalhadoras tomaram parte em todas estas greves de maneira fulgurante e também aderiram à Internacional. Em Ricamarie, as torcedoras de seda que entraram em greve recorreram ao auxílio da organização, que as ajudou. Depois disso, ingressaram na Internacional. As trabalhadoras das cidades francesas de Lyon e Rouen procederam da mesma forma. Na época das grandes greves dos mineiros na Bélgica, nas quais se envolveram tanto os trabalhadores quanto as trabalhadoras, uns e outras declararam a sua filiação à Internacional. E assim foi noutros locais.

Desta forma, aos poucos o movimento revolucionário alastrou por toda a Europa. Muitos dos trabalhadores de vanguarda esperavam uma explosão revolucionária próxima. Marx e Engels também aguardavam a revolução.

Mas em 1870 começou a guerra entre a Alemanha e a França. Teve início um momento de enorme prova de solidariedade internacional. Os trabalhadores de vanguarda resistiram inteiramente à experiência. É verdade que eles não podiam impedir a guerra, pois as massas ainda eram demasiadamente despreparadas e desorganizadas para tal. Mas os trabalhadores de vanguarda alemães e franceses responderam ao conflito com um protesto intenso, que ganhou a adesão de trabalhadores de outros países.

A guerra terminou com a derrota da França e, depois, a revolta dos trabalhadores franceses, que levou à Comuna de Paris.

A Comuna foi um dos maiores acontecimentos na história do movimento trabalhador.

Os trabalhadores parisienses, revoltados com a traição da burguesia francesa, insurgiram-se, tomaram o poder nas próprias mãos e formaram o primeiro governo de trabalhadores, que consistia em representantes dos trabalhadores e dos pobres urbanos e parecia-se muito com os nossos sovietes. Essa era a Comuna. Os trabalhadores mantiveram o poder por dois meses. Mas então os burgueses franceses, com a ajuda dos alemães, conseguiram afundá-la em sangue.

Desde o início, as trabalhadoras parisienses participaram ativamente dessas lutas e da construção da Comuna. Com seu ânimo e sua firmeza, apesar dos tempos bastante difíceis – Paris tinha acabado de atravessar a guerra e o cerco, e os trabalhadores aguentaram privações severas –, elas apoiaram a Comuna de todas as formas, e quando foi preciso defendê-la, quando os burgueses, com crueldade sem precedentes, passaram a reprimi-la, as trabalhadoras formaram grupos de combate que, lado a lado com os trabalhadores e de armas nas mãos, lutaram heroicamente e morreram em nome da Comuna.

A Comuna mostrou qual será o poder dos trabalhadores, o que eles devem fazer quando estiverem no comando. A luta da Comuna foi a luta pelo poder dos trabalhadores, sem o qual o proletariado não conseguirá a sua libertação. Ao participar das batalhas da Comuna, as trabalhadoras uniram-se à grandiosa revolução internacional de forma indissolúvel, marcaram a nobre luta do proletariado pelo comunismo com o seu sangue, que a bandeira vermelha do trabalho também exibia já naquela época.

Com a extinção da Comuna, a I Internacional não durou muito tempo e reuniu-se pela última vez no ano de 1875.

Numa das suas últimas conferências, ocorrida em Londres, em 1871, foi retomada a questão sobre as trabalhadoras e sua organização. Além da sua aceitação na secção da Internacional, decidiu-se pela criação de associações especiais para elas. Com esta última proposta, é evidente que pensavam estabelecer um contrapeso às associações feministas servis, que as mulheres burguesas começavam então a preparar para as trabalhadoras.


Texto publicado originalmente na antologia A revolução das mulheres: emancipação feminina na Rússia soviética, organizada por Graziela Schneider. Traduzido por Renata Esteves. Republicado pelo Blog da Boitempo. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.