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Marrocos vai receber mais 500 milhões da UE para reprimir migrantes

A verba aprovada para os próximos cinco anos representa um aumento de quase 50% em relação ao atual acordo. Ativistas condenam financiamento do "assassinato sistemático de migrantes na fronteira".
Cerca de 400 migrantes foram resgatados junto à ilha de Lanzarote na semana passada. Foto Adriel Perdomo/EPA

Semanas depois do massacre de Melilla e poucos dias após a chegada do maior número de migrantes à ilha canária de Lanzarote, a União Europeia anunciou o reforço do financiamento ao regime marroquino para o período 2021-2027 com o objetivo de travar a entrada de migrantes em território europeu a partir de Marrocos. A verba aprovada é de pelo menos 500 milhões de euros, superando em quase 50% os 343 milhões do anterior acordo de financiamento.

Segundo uma fonte da Comissão Europeia citada pelo El Pais, "esta verba dá uma ideia do grau de ambição de Bruxelas que desmente os medos que a Espanha teria de que se descuidasse a vizinhança do sul". Além de projetos anunciados como de integração e proteção aos refugiados em Marrocos, o dinheiro servirá também para pagar os repatriamentos forçados e a cooperação policial com Espanha.

A negociação do acordo foi prolongada e repleta de episódios de pressão, como quando Marrocos deixou passar 10 mil migrantes, incluindo mais de mil crianças, em maio de 2021, numa ação que foi comparada às pressões feitas pelos líderes da Turquia e da Bielorrússia, utilizando migrantes como arma de arremesso nos seus braços de ferro com a União Europeia.

Para os ativistas espanhóis solidários com o Sahara Ocidental, o acordo pode traduzir-se de forma simples: "cada migrante que os marroquinos deixam 'passar' e a seguir 'caçam' e recuperam é uma fonte de rendimentos, os 'caçadores' cobram por cabeça. Marrocos recebe dinheiro por não os deixar passar, ameaça-os e utiliza a arma da emigração como forma de chantagem, e quando não consegue o que quer, deixa passar os emigrantes, que em seguida captura para voltar a receber o financiamento". Nem o salto das vedações nem a saída de embarcações precárias são possíveis sem a cumplicidade das autoridades marroquinas, dizem estes ativistas.

"Não se trata de uma corrupção individual, mas de uma política de Estado e de um sistema endémico continuamente fomentado e pago pela UE e a NATO", afirmam, acusando Marrocos de "usar as vidas dos seres humanos em risco para o seu próprio benefício político".

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