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Marrocos fez lóbi junto de eurodeputados para não aprovarem condenação

Pela primeira vez em 25 anos, o Parlamento Europeu aprovou um voto de condenação a Marrocos. Mas o grupo parlamentar da Esquerda europeia lembra o que ficou de fora desta condenação e revela as pressões feitas pelas autoridades marroquinas.
Rei de Marrocos. Foto de Abellah alghalib/Wikimedia Commons.

Apesar do carácter apenas simbólico da resolução, foi ainda assim a primeira vez em 25 anos que o Parlamento Europeu aprovou um voto de condenação a Marrocos, exigindo respeito pela liberdade de imprensa e liberdade para presos políticos e jornalistas.

Apesar do chamado Qatargate continuar a ser investigado, um caso de corrupção que também envolve Marrocos, as autoridades do país não se coibiram de pressionar os eurodeputados a não votar esta proposta e a fazer uma reunião para a discutir. Ao Euronews,o Grupo da Esquerda no Parlamento Europeu mostrou a carta enviada aos seus eurodeputados. O eurodeputado Miguel Urbán diz que “não é ilegal, mas é impróprio, é ética e politicamente reprovável. Não deveria acontecer, muito menos enquanto decorre este escândalo”.

O El Diário detalha a existência de “e-mails, reuniões e argumentários” através dos quais “Marrocos se empenhou a fundo nos últimos dias para tentar suavizar as críticas que de forma praticamente inédita” o Parlamento Europeu se preparava para aprovar.

Os protagonistas do trabalho de lóbi terão sido a delegação parlamentar que participa na Comissão mista Marrocos-UE. O primeiro contacto foi um e-mail enviado apenas 14 horas depois do Parlamento Europeu ter marcado um debate de urgência sobre o tema das violações de direitos humanos no país. Este veio do co-presidente daquela comissão, Lahcen Haddad, e estava intitulado “por que os eurodeputados deveriam abster-se de votar a favor de uma resolução que defende um jornalista acusado de violar uma companheira que denuncia ter sido violada”. Quem tornou esta missiva pública foi a também eurodeputada da Esquerda Europeia, Manon Aubry, na sua conta de Twitter.

O mesmo jornal espanhol insiste que não se sabe se algum dos eurodeputados chegaram mesmo a reunir com os marroquinos, porque “é um dos problemas da Euro Câmara que falta transparência sobre o trabalho que desempenham os lóbis, uma vez que não é obrigatório para os representantes europeus revelaram as reuniões que mantêm”.

Depois disso, os parlamentares marroquinos fizeram chegar aos deputados europeus um comentário à proposta de resolução que condenava os abusos de direitos humanos no país em que vincavam que a “a liberdade de expressão e imprensa se expandiu consideravelmente em Marrocos”.

Para além disso, os socialistas na Câmara dos Representantes marroquina escreveram aos seus homólogos europeus que “uma possível resolução que ponha em causa uma decisão judicial sobre um assunto de direito comum seria difícil de entender para a opinião pública marroquina e prejudicaria a cooperação entre a UE e Marrocos nesta área específica”.

Mas estes parlamentares parecem ser parte interessada no caso do jornalistas Omar Radi, um dos que está no centro das críticas. Numa carta publicada no Mediapart, Fatiha Cherribi e Driss Radi, os pais do jornalista, esclarecem que dois dos principais responsáveis da “União Socialista das Forças Populares”, pertencente à Internacional Socialista de que o PS é o representante português, Lahbib Elmalki e Driss Lachgar, constavam de uma investigação feita pelo seu filho por terem sido favorecidos na compra de terrenos em Rabat, pagando 35 euros por metro quadrado por terrenos cujo “preço de mercado ascendia a 3.000”.

Em comunicado, o The Left sublinha precisamente tanto este caso quanto as limitações do texto votado. Recorda-se que desde que Mohammed VI ascendeu ao trono de Marrocos, em 1999, várias organizações não governamentais têm documentado “dezenas de condenações de jornalistas depois de julgamentos injustos por queixas politicamente motivadas”. Considera-se o exemplo de Omar Radi como “parte de um padrão das autoridades marroquinas de prisão de jornalistas independentes”, tendo este sido preso pela primeira vez em dezembro de 2019 por ter criticado uma decisão de um juiz de prender manifestantes do “Hirak” marroquino, o movimento de protesto popular que atravessou tanto o país como a Argélia. Sobre o escândalo de apropriação de terras públicas, lembra que o jornalista investigou a sua apropriação por cem pessoas, “incluindo responsáveis de alto nível”. E vinca-se que os observadores consideram que as queixas contra Radi são “motivadas politicamente”.

Sobre a resolução adotada, escreve-se que “apesar de haver sinais crescentes de que as autoridades marroquinas procuraram interferir com o processo democrático do Parlamento Europeu, a resolução não apela à aplicação das mesmas medidas aplicadas aos representantes do Qatar”, não se pede a suspensão do acordo de Associação UE-Marrocos e negligenciam-se as violações dos direitos humanos cometidas no Sahara Ocidental.

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