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Marisa: "Em Portugal há o país de Berardo e o país das trabalhadoras da Sioux"

Marisa Matias criticou a irresponsabilidade de banqueiros e multinacionais, que contrasta com os direitos de trabalhadores por todo o país. "Se na Europa as empresas não têm fronteiras então as responsabilidades também não podem ter fronteiras. Precisamos de uma Europa de direitos contra a irresponsabilidade e contra os irresponsáveis."
Marisa Matias no comício do Bloco no Porto. Foto de Paula Nunes.

No comício deste sábado no Porto (ver fotogaleria), Marisa Matias centrou a sua intervenção na visita que fez de manhã a Lousada, onde esteve com as trabalhadoras da Sioux e famílias que dependem dos rendimentos que auferem do trabalho nesta empresa. “Estas trabalhadoras e trabalhadores estão há mais de uma semana à frente da Sioux, por turnos, para impedir que os patrões retirem de dentro da empresa aquilo que são os ativos porque sabem que no momento em que esses ativos forem retirados menos sobrará para eles, [algo que] já vimos isso a acontecer vezes demais em Portugal”, explicou.

Segundo Marisa, “a lentidão e a inoperância da justiça nestas situações faz com que os trabalhadores e as trabalhadoras não vejam reconhecidos os seus direitos mais elementares ou que seja, no final de contas, a segurança social a suportar esses direitos e assumir com o nosso dinheiro o que deve ser e tem de ser, nestas situações, responsabilidade das empresas”. Recordou o trabalho feito por Miguel Portas e Alda Sousa no Parlamento Europeu, que conseguiram aprovar o Fundo de Ajustamento à Globalização “que garante que quando tudo falha estas pessoas conseguem ter alguns recursos para recomeçar a sua vida, e esse trabalho foi feito porque infelizmente nós desconfiamos muito de todos os processos. As empresas não assumem as responsabilidades e em muitos casos as pessoas e trabalhadores/as acabam por deixar de ter esses direitos”, disse Marisa, lembrando que esse fundo já foi usado várias vezes em Portugal, como foi o caso, mais recentemente, com as ex-trabalhadoras da Triumph.

As empresas multinacionais mudam de país para país e em cada país vão deixando uma rasto de destruição social.

Ainda assim, Marisa defendeu precisarmos muito mais do que instrumentos públicos quando as empresas falham as suas responsabilidades, com o caso da Sioux a ser bem representativo da história da capitalismo globalizado, cuja multinacional da qual é dependente nem sequer está em falência. “As empresas multinacionais mudam de país para pais e em cada país vão deixando uma rasto de destruição social. A cada mudança os salários baixam, a cada mudança os direitos vão desaparecendo, e a União Europeia não pode nem deve servir para isto”, frisou.

Na opinião da candidata do Bloco às Europeias, “uma multinacional não pode deixar de ser responsabilizada pelo que fizeram as suas subordinadas, se não é possível assegurar isto através da legislação nacional, então que se assegure através de legislação europeia. As multinacionais não podem continuar na mais completa impunidade, a responsabilidade limitada não se pode transformar em irresponsabilidade ilimitada”.

Aproveitando a deixa da irresponsabilidade, Marisa disse existirem dois países em Portugal, “há o país de Berardo e há o país das trabalhadoras da Sioux. Em Portugal um trabalhador deve 1000 euros ao banco, não consegue pagar, e pode perder a casa, se um banqueiro deve 1000 milhões e não quer pagar, o que é que faz? Vai rir-se para a Assembleia da República”. Para a eurodeputada “o riso de Berardo quando confrontado com a sua delinquência financeira é o melhor retrato da elite mediocre e parasitária, mas é também o retrato da impunidade que esta elite continua a beneficiar aqui e na União Europeia”.

Marisa Matias saudou ainda a presença dos trabalhadores das pedreiras, dos estivadores e de tantos/as cuidadores informais, “que ainda não viram nenhum dos seus direitos reconhecidos mas em relação aos quais nós não desistimos”.

José Soeiro: “Na Europa são precisas vozes como a da Marisa, que olham nos olhos, que estão próximas dos de baixo e não dos de cima”

José Soeiro, deputado do Bloco, a quem coube abrir este comício, lembrou que foi há precisamente 100 anos (e 4 dias), na 1ª República, que foi aprovado um decreto-lei que estabelecia que a jornada de trabalho em Portugal passava a ser de 8 horas, interrompida por descanso e o trabalho extraordinário passava a ser pago ao dobro do preço. No entanto, segundo um relatório divulgado esta semana pela Organização Internacional do Trabalho, um sexto da população europeia trabalha mais de 48 horas semanais e em Portugal a média é de 45 horas, horas extraordinárias que em muitos casos não são sequer remuneradas.

A esse respeito, lembrou a luta constante que o Bloco tem travado lado a lado com trabalhadores e trabalhadoras. Lembrou a visita à Sioux, efetuada pela Marisa Matias, pelo José Gusmão e pelo Sérgio Aires, três primeiros candidatos do Bloco às Europeias, e disse que “nós sabemos onde estamos e de que lado estamos”, defendendo que “na Europa são precisas vozes como a da Marisa, que olham nos olhos, que estão próximas dos de baixo e não dos de cima”. José Soeiro elogiou igualmente José Gusmão, que descreveu como alguém que “vê na economia uma estratégia para o desenvolvimento justo e não uma tática do corte”, e Sérgio Aires, que considera ser, provavelmente, a pessoa que mais sabe de pobreza em Portugal.

Sérgio Aires: "A União Europeia ao invés de produzir riqueza, produz ricos"

Foi precisamente sobre pobreza que falou Sérgio Aires, que esclareceu que estatísticas da pobreza são também elas muito pobres pois deixam imensas pessoas de fora. Salientou que “a pobreza não é um problema exclusivamente nacional, o problema é de um modelo da União Europeia que ao invés de produzir riqueza produz ricos, um modelo que não distribui a riqueza, um modelo que potencia e favorece a concentração da riqueza e permite a escandalosa fuga de capitais para paraísos fiscais”.

Luís Fazenda: "Privatizações e desregulação do mercado de trabalho são as famigeradas reformas estruturais da União Europeia”

Já Luís Fazenda defendeu que “a Europa em cada país é a Europa que lá está, é a Europa que lá discutimos”. Respondendo a quem afirma que não se discute Europa nesta campanha, o fundador do Bloco disse que “não estamos é a discutir outra coisa”, dando como exemplos os debates em torno das PPP’s na saúde ou da precariedade no emprego, pois “quer as privatizações quer a desregulação do mercado de trabalho são as famigeradas reformas estruturais da União Europeia”, ou “quando discutimos que há um freio no investimento público na educação, na saúde” isso é resultado da “compressão das políticas da União Europeia que nos visam limitar por efeitos do défice”. Para o dirigente bloquista, “nós estamos a discutir as políticas europeias, estamos a combater as políticas liberais, estamos a combater as políticas de ultra-direita, estamos a lutar por outra política, social, ambiental, por políticas de bens comuns, por políticas de estado-social, por políticas de estado estratégico e progressista”.

Este comício no Porto, que decorreu na Praça dos Poveiros, contou ainda com intervenções de Catarina Martins, que criticou o primeiro-ministro António Costa pela participação num comício em França ao lado de Macron, aliando-se à direita liberal europeia, de António Capelo, mandatário da candidatura do Bloco às europeias, e ainda de um momento musical a cargo de Jorge Palma.

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