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Marighella estreia na Berlinale 2019

Carlos Marighella não teve tempo para ter medo. Este é o ponto de partida do filme com o qual Wagner Moura se estreia como realizador e cuja rodagem foi ameaçada pela extrema-direita. Com Seu Jorge no papel do protagonista, será apresentado mundialmente esta quinta-feira no festival de cinema de Berlim.
Foto de Eunheui/Flickr

Assim que se soube da sua existência, a cine-biografia de Carlos Marighella começou a dar que falar. À direita suspeitou-se que se tratava de um louvor àquele que é considerado um terrorista pela sua oposição armada à ditadura militar. À esquerda temia-se que se pudesse cair em mais uma caricatura do lutador social enquanto sanguinário idealista e irracional. E o autor alimentou inicialmente esse suspense dizendo estar preparado para “ser odiado pela direita e criticado pela esquerda”.

Até a cuidadosa sinopse agora apresentada ao festival de cinema alemão pareceria indicar um exercício de equilibrismo politicamente correto. Esclarece que a narrativa segue o período entre 1964 e 1969, data da sua morte; apresenta a ditadura militar como ilegítima, o que seria à partida dizer pouco mas já é muito em tempos em que parte significativa da direita brasileira se reconhece nela; apresenta Marighella como o “sucessor dos revolucionários latino-americanos” que lidera um grupo de jovens na resistência armada à ditadura. E se indica o seu ímpeto contra a opressão, o seu “compromisso para com a dignidade e a justiça”, também refere imediatamente que isso o “conduz à violência e ao terror”. Em contraponto, o seu perseguidor é também classificado como “brutal”.

Numa outra sinopse, esta enviada à imprensa brasileira, o tom é diferente: “Marighella não teve tempo pra ter medo. De um lado, uma violenta ditadura militar. Do outro, uma esquerda intimidada. Cercado por guerrilheiros 30 anos mais novos e dispostos a reagir, o líder revolucionário escolheu a ação”. Acrescenta-se que ele “tenta articular uma frente de resistência enquanto denuncia o horror da tortura e a infâmia da censura instalados por um regime opressor.”

Só que afinal, diz o próprio realizador, o filme “tem lado”. Wagner Moura vê em Marighella algo mais do que o revolucionário apaixonado e levado por isso ao excesso ou o dirigente cercado pela paixão alheia que o arrasta para uma determinada situação. Em entrevista ao Brasil de Fato, o autor esclarece a sua versão que é ainda substancialmente diferenciada das duas sinopses. Aí apresenta o autor do “Manual do Guerrilheiro Urbano” como alguém “que militou na legalidade o quanto pôde” mas foi que empurrado para a clandestinidade pela repressão do regime. E acha “muito cruel” o julgamento leviano “de quem naquele momento, cerceado de todos os seus direitos básicos, optou por enfrentar com força quem estava oprimindo.” Porque “é um direito de qualquer povo: defender-se do totalitarismo e da opressão.”

Portanto, considera que o seu filme “está frontalmente em oposição a quem chegou ao poder no Brasil” e “vem para disputar” a narrativa que ganha força sobre a ditadura militar, “para dizer que foi ruim, que foi horrível” e, mais, “que teve gente que teve coragem de enfrentar aquilo.”

Para desta oposição declarada, pelo simples facto de existir, o filme sobre o guerrilheiro urbano despoletou à partida o ódio da extrema-direita. Moura denunciou as ameaças de violência a que a rodagem do filme esteve sujeita e informou que a segurança do filme foi assegurada por 15 jovens de uma frente anti-fascista.

Uma outra controvérsia se gerou quando se soube que o seu protagonista era Seu Jorge com a direita a acusar Moura de “empretecer” Marighella. Moura respondeu que “Seu Jorge, de fato, tem a pele mais escura do que a de Marighella, mas ele era preto, neto de escrava sudanesa”. E que este era o ator certo para popularizar a história e trazer “um exemplo de resistência, sobretudo para jovens negros”. O ator que ficou conhecido mundialmente pelo filme “Tropa de Elite” e pela série da Netflix “Narcos” não deixa de sublinhar que pretende que o filme fale “sobretudo [para] as pessoas pelas quais Marighella lutava, o que é uma questão quando você pensa que o cinema é um divertimento elitizado no Brasil”.

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