Faleceu esta terça-feira em Lisboa a escritora e jornalista Maria Teresa Horta. O anúncio foi feito pela editora Dom Quixote, a pedido da família, acrecentando tratar-se de “uma perda de dimensões incalculáveis para a literatura portuguesa, para a poesia, o jornalismo e o feminismo, a quem Maria Teresa Horta dedicou, orgulhosamente, grande parte da sua vida.”
Recentemente, Maria Teresa Horta tinha sido escolhida pela BBC para a lista das “100 mulheres mais influentes e inspiradoras de todo o mundo” e para isso terá contribuído seis décadas de vida literária e de comprmisso com a luta feminista em Portugal. Na nota biográfica publicada pelo Abril é Agora no tributo realizado em outubro de 2022, pode ler-se que Maria Teresa Horta conseguiu impor-se ainda antes do 25 de Abril no meio jornalístico que, tal como a sociedade d época, era profundamente machista. Passou pelo Diário de Lisboa, A Capital, República, O Século, Diário de Notícias e Jornal de Letras e Artes, entre outras. N’A Capital esteve à frente do suplemento Literatura e Arte, por onde passaram nomes como Alexandre O’Neill, Natália Correia, Ary dos Santos, Mário Cesariny, entre tantos outros.
Maria Teresa Horta ousou ainda ser diretora de um cineclube, o ABC, numa altura em que o movimento cineclubista tinha um peso considerável na luta política de resistência à ditadura. “Pobre país este, que já tem mulheres diretoras de cineclubes”, exclamava César Moreira Baptista, que à época liderava o Secretariado Nacional de Informação, instrumento da propaganda da ditadura.
Autora de uma extensa obra, a escritora viu o seu livro de poesia Minha Senhora de Mim apreendido pela PIDE oito dias após a sua publicação. Posteriormente foi alvo de uma feroz perseguição e de um processo de pura humilhação. Chegou a ser fisicamente agredida em plena rua: “É para aprenderes a não escreveres como escreves”, disseram-lhe.
Foi exatamente na sequência do escândalo provocado pelo livro Minha Senhora de Mim, e da perseguição de que foi alvo a sua autora, que Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa decidiram desafiar o regime fascista e “tecer”, a seis mãos, a obra Novas Cartas Portuguesas, publicada há 50 anos.
O regime fascista considerou o conteúdo de Novas Cartas Portuguesas “insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública” e ameaçou com uma pena entre seis meses a dois anos de prisão. As “Três Marias” foram alvo de uma tentativa implacável de as humilhar e intimidar e de fingir que não se tratava de um processo político. Mas Marcelo Caetano não contava com a inédita onda de solidariedade internacional que se gerou. Simone de Beauvoir, Marguerite Duras e Christiane Rochefort receberam cópias da obra e despoletaram um conjunto alargado de iniciativas em solidariedade com Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa.
O julgamento coincidiu com a primeira conferência internacional de mulheres, que teve lugar em Boston, entre 3 e 5 de junho de 1973. As Novas Cartas Portuguesas foram o tema central deste encontro, e adotadas como a primeira causa feminista internacional. As mulheres presentes na iniciativa comprometeram-se a dar apoio a esta causa em cada um dos seus países. E as ações internacionais de solidariedade foram-se multiplicando.
A leitura da sentença chegou a estar marcada, após um primeiro adiamento, para o dia 25 de Abril de 1974. Mas a Revolução dos Cravos fez cair o regime fascista, e a sessão final acabou por decorrer a 7 de maio de 1974, com a absolvição das três escritoras. Em entrevista ao Esquerda.net em 2020, Maria Teresa Horta falou sobre o processo de criação literária, a perseguição de que foram alvo e o movimento de solidariedade que atemorizou o regime fascista, afirmando que “escrever as Novas Cartas Portuguesas foi uma das coisas mais importantes da minha vida”
Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno estiveram na origem da criação do Movimento de Libertação das Mulheres, que reuniu mulheres de várias classes sociais e constituiu um espaço de partilha, denúncia e de visibilização das várias opressões machistas existentes. A manifestação organizada por este movimento a 13 de janeiro de 1975, e a violência machista com que esta foi recebida, foi ilustrativa do longo caminho ainda a percorrer no sentido da efetiva libertação das mulheres. Em 2021, a escritora recordou esse dia, que há poucas semanas fez 50 anos, ao Esquerda.net: “Estávamos em liberdade, mas, de repente, as mulheres foram as únicas que sentiram que afinal não havia tanta liberdade quanto isso. Liberdade só para os homens, e talvez para as mulheres que se mantivessem quietinhas e caladinhas”.
Convidada pelo Partido Comunista Português, da qual foi militante entre 1975 e 1989, a chefiar a redação da revista Mulheres, Maria Teresa Horta entrevistou mulheres com grande reconhecimento na área da política, cultura e literatura, entre as quais figuram Marguerite Duras, Maria Bethânia, Maria de Lourdes Pintasilgo ou Marguerite Yourcenar. Esta revista tornou-se numa experiência inédita, ímpar até aos nossos dias, enquanto baluarte das lutas feministas e espaço de representatividade de todas as diferentes realidades vividas pelas mulheres portuguesas.
Distinguida com inúmeros galardões, em 2011, Maria Teresa Horta, ainda que aceitando o Prémio D. Dinis pela sua obra As Luzes de Leonor, recusou recebê-lo pelas mãos de Pedro Passos Coelho, a quem acusou de querer “destruir o país”.
Sem nunca abandonar a intervenção cívica e política, Maria Teresa Horta continuou a apoiar a causa feminista, tendo sido também apointe da candidatura de Marisa Matias às eleições presidenciais de 2021.
Em 2022, ofereceu um poema inédito ao Bloco de Esquerda, com o título "Nós mesmas".
Nós somos
a liberdade
vamos além de nós
mesmas
Somos aquelas
que voam
não queremos
a violência
…que nos impõe
a desgraça
nos humilha
e despedaça
O Bloco de Esquerda e o Esquerda.net enviam as suas sentidas condolências à família e amigos de Maria Teresa Horta.
O velório de Maria Teresa Horta decorre na quarta-feira, entre as 18h e as 22h, na Basílica da Estrela, em Lisboa. Na quinta-feira após a cerimónia reservada à família e amigos, o funeral sai às 14h30 para o Cemitério dos Prazeres,