Ao mesmo tempo que se sabe que, em Gaza, morreram já 210 pessoas, 100 das quais crianças, devido à fome causada pela ação militar de Israel, em vários pontos do mundo este sábado foi de manifestações contra o genocídio. Muitas delas organizaram-se em resposta ao apelo de um “Dia Global de Ação por Gaza” lançado por organizações como o Global Movement to Gaza e o Palestine Youth Movement. Estes exigiam “o fim do genocídio e do cerco em Gaza, o fim da cumplicidade dos estados europeus e Estados Unidos que financiam e apoiam politicamente o projeto colonial sionista, a imposição de sanções a Israel e o embargo de armas” e “a descolonização e libertação da Palestina, do rio ao mar”.
Centenas de ativistas detidos por apoiar Palestine Action
Uma destas manifestações decorreu em Londres, onde a polícia anunciou ter detido 466 pessoas por terem mostrado apoio ao grupo Palestine Action que, numa iniciativa inédita das autoridades, é desde o início do mês passado considerado uma “organização terrorista” depois de ter organizado uma ação em que pintou aviões da Força Aérea contra a cumplicidade das forças militares britânicas no genocídio em curso em Gaza.
De acordo com a Lei Antiterrorismo de 2000, o apoio ou participação numa organização considerada terrorista é um crime que pode ser punido com pena máxima até 14 anos de prisão. Os ativistas pró-Palestina e em defesa dos direitos humanos não têm baixado os braços e foram já detidas centenas de pessoas apenas por se manifestarem contra a designação de “terrorista” aplicada a uma organização que advoga o princípio da não violência.
Mas este sábado foi o dia em que mais manifestantes foram detidos de uma vez. Nesta ocasião, todos os que, de alguma forma, demonstraram solidariedade para com a Palestine Action foram presos. Foi sobretudo o caso dos que tinham cartazes em que estava escrito “Oponho-me ao genocídio, apoio a Palestine Action” que a polícia tratou de ir prendendo um a um. As autoridades não conseguiram deter todos os que tinham cartazes, segundo o grupo Defend Our Juries que explica que havia aproximadamente mil pessoas com cartazes deste tipo. Um porta-voz da organização explicou que “o facto de um número sem precedentes tenha vindo hoje arriscando ser detidos e possivelmente uma pena de prisão mostra quão enojadas e envergonhadas as pessoas estão com a cumplicidade do nosso governo com um genocídio transmitido em direto e quão longe as pessoas estão preparadas para is na defesa das liberdades antigas deste país”.
Uma das detidas, levada pela polícia enquanto falava ao Guardian, dizia que a ação da Palestine Action tinha sido de protesto e “não de todo terrorismo”. Para ela, “aqueles aviões são os terroristas” por estarem a auxiliar ataques a civis.
A Amnistia Internacional do Reino Unido, pela voz de Sacha Deshmukh, considerou entretanto a existência de prisões em massa “profundamente preocupante”, insistindo que estes manifestantes não estavam a incitar a qualquer tipo de violência e que é “inteiramente desproporcional ao ponto do absurdo tratá-los como terroristas”.
Cerca de 100.000 em Telavive, familiares dos reféns convocam greve geral
Deste dia de manifestações, destaque ainda para o que aconteceu em Israel. De acordo com o Fórum das Famílias dos Reféns, que integra a organização da manifestação, foram mais de 100.000 as pessoas que participaram na ação de protesto contra os planos de ocupação total de Gaza anunciados pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu esta semana.
Aqui pede-se o fim imediato da campanha militar israelita e negociações que possam permitir a libertação dos reféns nas mãos do Hamas. Os familiares e amigos destes têm estado ao longo dos últimos tempos na primeira linha da luta contra a ação do governo israelita que acusam de querem levar adiante os seus projetos para Gaza à custa da vida dos reféns.
Numa intervenção na manifestação, Omri Miran, mulher de um dos reféns, diz que “isto não é apenas uma decisão militar. Pode ser a sentença de morte para as pessoas que mais amamos”.
Na sequência desta mobilização, numa conferência de imprensa, um grupo de familiares e amigos de reféns anunciaram a marcação de uma greve geral para o próximo domingo. Na segunda-feira, reunirão com a Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores para pedir que esta apoie a greve.
Do lado da oposição surgiram imediatamente várias declarações de apoio à paralisação. Yair Lapid, dirigente do maior partido da oposição, avançou nas redes sociais que "o apelo das famílias dos reféns para o encerramento da economia é justificado e apropriado". E Yair Golan, do Partido Democrata, juntou-se apelando "a todos os cidadãos de Israel, a todos aqueles que valorizam a vida e a garantia mútua, para que se juntem a nós e tomem as ruas para lutar". Para ele, "não devemos continuar com a nossa vida quotidiana sem prestar atenção aos nossos irmãos e irmãs em Gaza. Não podemos permanecer em silêncio face a esta realidade".
Em Portugal também se saiu à rua
No nosso país, este sábado também foi dia de luta. Em Faro houve uma marcha silenciosa e uma palestra sobre a história e a situação da Palestina e em Coimbra houve um concerto, exibição de vídeos e uma sessão de poesia livre.
Mas foi no Porto que mais pessoas saíram à rua. De acordo com a Lusa, foram “várias centenas” as que participaram numa marcha até à Câmara Municipal do Porto e numa vigília pela Palestina. Muitas bandeiras da Palestina, lenços palestinianos, cartazes a dizer “Free Palestina”, uma faixa a dizer “Comprar produtos de Israel financia o genocídio do povo palestino” e bonecos “ensanguentados” a simbolizar as crianças mortas pelo Estado sionista, acompanharam o bater de tachos e panelas e as palavras de ordem “Israel assassino, viva o povo palestino”.
Isabel Oliveira, da organização, mostrava-se satisfeita pela afluência, declarando à agência noticiosa nacional que “é muito importante perceber que o silêncio traz impunidade. E nós não podemos deixar este crime impune”.
A ativista defendeu ainda que “é evidente que neste momento o urgente é alimentar a população em Gaza, parar o genocídio e libertar as pessoa”. Mas é também “prioridade máxima” “quebrar o cerco a Gaza” já que “o bloqueio deliberado feito de uma forma maquiavelicamente planeada” “está a exterminar o povo palestiniano”. Para contribuir para isso, “é fundamental sancionar Israel e condenar Israel publicamente e objetivamente por todos os crimes e os governos europeus e dos Estados Unidos têm de se alinhar com os direitos humanos, com as decisões do Tribunal Penal Internacional e condenar o fim deste ‘apartheid’.”