Quem tiver sido uma criança que cresceu na Nigéria, conhece Funmilayo Ransome-Kuti como a primeira mulher nigeriana a conduzir um carro. À medida que se cresça e se familiarize com o Afrobeats, o movimento musical que o seu filho inspirou, ela passa a ser frequentemente mencionada como a mãe de Fela Kuti. E até o filme biográfico Funmilayo Ransome-Kuti, da aclamada cineasta e veterana do teatro Bolanle Austen-Peters, começa com uma reencenação do infame saque a Kalakuta, que acabou por levar os soldados a lançá-la de um prédio de dois andares.
No entanto, Funmilayo Ransome-Kuti sempre foi muito mais do que isso. Ela era uma educadora determinada em democratizar o acesso à educação na sua cidade natal, Abeokuta, no sudoeste da Nigéria. Foi feminista numa época em que o feminismo não era bem visto ou amplamente celebrado. No filme, há uma cena marcante que nos mostra o lado travesso do seu feminismo, uma rebeldia lúdica que contrastava com o seu trabalho sério como ativista. Quando visita a família do seu futuro marido pela primeira vez, o pai dele, um clérigo autoritário, fez algumas perguntas incisivas sobre as suas opiniões sobre religião e o papel da mulher na sociedade. O seu parceiro, Israel Ransome-Kuti, interpretado por Ibrahim Suleiman, faz-lhe sinal para que concorde, mas Funmilayo responde de uma forma típica de uma feminista, irritando o pai dele, que então perde o apetite. No entanto, ele acaba na mesma por abençoar o casamento — facto de que Funmilayo se orgulha e fala com carinho.
Ransome-Kuti também foi uma humanitária e ativista política corajosa que lutou pelo direito das mulheres nigerianas ao voto, à participação no governo e ao acesso à educação. Uma das suas lutas mais conhecidas foi um protesto contra a taxação injusta das mulheres de Egbalândia na década de 1940 pelo Alake (governante tradicional), que resultou na inclusão das mulheres, na até então exclusivamente masculina união de chefes de Egba.
Estes são alguns dos aspetos da vida de Ms. Ransome-Kuti que Austen-Peters deseja destacar neste filme biográfico – mostrar que a mãe de Fela era muito mais do que isso. O filme é um clássico caso nigeriano da arte a preencher as lacunas das aulas de história nas escolas.
Funmilayo Ransome-Kuti começa com uma Funmilayo mais velha, interpretada pela respeitável Joke Silva, mas rapidamente nos leva aos seus dias de juventude como uma criança inteligente cujo pai queria mais para ela – para que a jovem Funmi fosse mais do que apenas uma costureira. Ele leva-a para a então exclusivamente masculina Abeokuta Grammar School e, de alguma forma, convence a administração a admitir a sua filha – a primeira menina da escola. Lá, ela conhece Israel, o seu futuro e sempre apoiante marido, que era líder estudantil, que o filme sabiamente relega ao segundo plano, apesar de ele ter sido bastante influente na sua vida.
Após o ensino secundário, ela vai para o Reino Unido estudar e retorna à Egba para ser educadora. Numa ocasião, visita o mercado depois de uma das suas alunas não ter comparecido à escola, e lá testemunha o tratamento cruel infligido às mulheres do mercado. Este tratamento, ordenado pelo Alake de Egbaland, agrava-se com a tributação indiscriminada das mulheres do mercado.
Isso irrita Funmilayo, que encoraja as mulheres do seu círculo, o clube de elite da Egba Ladies Club, a unirem-se às mulheres do mercado e lutarem por essa causa. Após algumas agitações e eventual rebelião de algumas das suas amigas cujos maridos estão associados ao trono e por isso não quiseram participar, o clube transformou-se na Abeokuta Women’s Union (AWU), aceitando mulheres de todas as classes, incluindo as do mercado, e juntas lançam um protesto contra o Alake e a sua tirania, inicialmente exigindo que ele retire a pesada taxação. Quando ele reage batendo-lhes e usando sistemas tradicionais como o Oros contra elas, vão mais longe, exigindo sua destituição do trono.
O filme de Austen-Peters fornece um bom resumo de quem foi Funmilayo Ransome-Kuti. Capta a sua teimosia, bravura e empatia enquanto lutava incansavelmente pelos direitos das mulheres. É um retrato fiel de uma figura importante na história da Nigéria, que foi reduzida a trivialidades por ter sido a primeira mulher a dirigir um carro ou a mãe de um génio musical.
Ela foi uma mulher que enfrentou um rei, os seus chefes e os seus mestres coloniais e venceu a um grande custo pessoal – uma mulher tão destemida que merece ser conhecida pelas suas ações sociais e políticas.
No entanto, o filme frequentemente parece excessivamente simplificado e cauteloso. Contenta-se em preencher lacunas das aulas de história, evitando explorar a vida pessoal de Funmilayo e o impacto que as suas lutas tiveram nela e na sua família. Falta aqui a tensão que outras biografias semelhantes conseguem transmitir. As perdas pessoais que os seus protagonistas enfrentam, juntamente com os seus conflitos internos e externos como ativistas que lutam por causas maiores enquanto suas vidas familiares sofrem, são mais profundamente sentidas noutros filmes. Esses conflitos são abordados de forma muito breve em Funmilayo Ransome-Kuti.
Há uma cena em que Funmilayo, enquanto está na prisão após ser espancada pelos guardas do Alake, se questiona se deve continuar sua luta contra os chefes. A passagem foi breve, mas momentos como esse, que humanizam a sua personagem e a mostram sob outra luz, não acontecem na trama. Em vez disso, temos uma história unidimensional de uma mulher toda-poderosa, toda-conquistadora, o que acaba por tornar a personagem previsível e aborrecida. Ela vence e vence e sofre apenas um pouco. Na realidade, ela venceu e sofreu, sofreu e venceu e depois sofreu novamente.
Daniel Okechukwu é crítico de cinema, jornalista e co-fundador da In Nollywood, uma empresa de comunicação social dedicada ao cinema nigeriano.
Publicado originalmente no Africa in a Country.
Traduzido por Priscilla Marques para a Jacobina. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.