Chegam acompanhadas das mães, irmãs, amigas, noivos ou maridos. Outras, em menor número, chegam sozinhas. Sentados no passeio, mulheres e acompanhantes tentam dormir, apesar do frio, enquanto amanhece e começa a distribuição de fichas para o atendimento. Apenas as 30 primeiras serão atendidas. O restante tem de voltar outro dia.
O sistema de saúde local conta com 15 hospitais para garantir o direito das mulheres a um aborto seguro, mas a Clínica de Saúde Reprodutiva Beatriz Velasco concentra um quarto das interrupções legais de gravidez registadas na capital mexicana desde Abril de 2007.
Nessa época, a Assembleia Legislativa do Distrito Federal, base de boa parte da Cidade do México, aprovou uma lei que permite o aborto até 12 semanas.
“Os homens são excelentes para trazê-las aqui, mas não para assumir o encargo de manter os filhos”, disse à IPS uma mãe que acompanhava a sua filha menor de idade na fila.
Mais atrás, uma auxiliar de escritório conta que é a terceira vez que tenta conseguir uma senha e que ninguém na sua família ou no trabalho sabe que está grávida. “Embora digam que não, ainda há muitos preconceitos”, assegurou a jovem. “Já temos dois filhos e este ano ficamos ambos desempregados, por isso não penso noutra coisa”, explicou secamente outra mulher abraçada pelo marido.
Em três anos, cerca de 65 mil mulheres consultaram sobre os procedimentos e 40 mil exerceram o seu direito de decidir, informou este mês a Secretária de Saúde distrital. Destas, 9.500 vivem noutros Estados e deslocaram-se à capital para poderem abortar em segurança e legalmente.
A grande maioria provém do Estado do México, onde fica esta megalópole latino-americana, com cerca de 20 milhões de habitantes. As outras, aproximadamente 1.200 mulheres, 3% dos casos, são dos outros 31 Estados do país.
Entre elas, 550 mulheres interromperam legalmente a sua gravidez no último ano graças a um grupo de jovens que trabalha no Fundo de Aborto para a Justiça Social Maria.
O Maria (Mulheres, Aborto, Reprodução, Informação e Acompanhamento) foi criado em Maio de 2009 para fornecer informação, apoio e recursos económicos a quem quer abortar e não mora na capital.
“Trata-se de fazer com que a lei do Distrito Federal estenda os seus braços”, disse à IPS Oriana López Uribe, directora operacional do projecto, que já chega a 203 membros.
O Maria integra a Rede Nacional de Fundos de Aborto dos Estados Unidos e recebe financiamento de organizações mexicanas que trabalham em favor da saúde reprodutiva. Desde Dezembro conta também com uma rede de doadores individuais para fortalecer a segurança económica do projecto.
É um sistema novo, ao qual se pode ter acesso inclusive com cartões de presentes. Actualmente, o objectivo do grupo é capacitar os acompanhantes, que normalmente dão um apoio “mais logístico”.
“O conceito de que é um direito ainda é muito débil. Sentem isso, mas é preciso tê-lo claro, como se houvesse uma discrepância entre o que acreditam e o que é correcto, e o que lhes é dito”, afirmou López.
O DF é governado desde 1997 pelo esquerdista e opositor Partido da Revolução Democrática.
Em Abril de 2007, a sua Assembleia reformou o Código Penal e aprovou a lei de Interrupção Legal da Gravidez nas primeiras 12 semanas de gestação.
Segundo o governo distrital, 83% dos abortos são feitos com medicamentos, 12% por aspiração e 5% por raspagem.
A lei provocou uma contra-reforma dos sectores mais conservadores do país, impulsionados pela hierarquia da Igreja Católica e agora em 18 Estados o aborto é crime, mesmo nas três situações em que está despenalizado no país: perigo de morte da mãe, incesto ou violação e má-formação do feto.
O Supremo Tribunal de Justiça teve de ratificar, no dia 27 de Maio, a obrigação de todos os centros de saúde oferecerem às vítimas de violação a pílula anticoncepcional de emergência, como estabelece a Norma Oficial Mexicana 046, diante de uma acção do direitista governador do Estado de Jalisco, Emilio González, contra a sua aplicação.
A organização Católicas pelo Direito de Decidir lançou, em 31de Maio, a campanha “Outro Olhar Católico sobre o Aborto”, com outdoors e anúncios no rádio.
Precisamente dos Estados de Jalisco, México, Puebla, Veracruz e Oaxaca, todos no centro e sul do país, procede a maioria das mulheres que procuram o Fundo Maria.
“Não podemos fazer divulgação directa nos Estados, porque pelas suas leis estaríamos incitando à violência. Mas criamos redes com organizações e buscamos meios aliados”, explicou López.
As mulheres fazem contactos por email, pelo formulário na página digital do fundo ou por uma linha telefónica gratuita.
“Para nós é melhor o telefone, porque podemos conversar”, disse.
“Não assumimos logo de início que elas querem interromper a gravidez”’, disse a activista, detalhando que dão às mulheres apoio psicológico e espiritual, junto com outras organizações, como a Católicas pelo Direito de Decidir.
Se a gestante decide que quer abortar, viaja para a capital um dia antes da intervenção e hospeda-se num hotel próximo à clínica.
Em casos especiais é oferecida a atenção privada. Por exemplo, quando a mulher foi violentada e exige apoio psicológico, ou quando é impossível que falte ao trabalho, já que os centros públicos só fazem o aborto voluntário nos dias úteis.
Segundo o governamental Conselho Nacional de População, o aborto é a terceira causa de morte entre grávidas no México. As mais afectadas são jovens e pobres, afirma o Grupo de Informação em Reprodução Escolhida.
Das mulheres que interromperam a gravidez no Distrito Federal, mais de duas mil eram crianças ou adolescentes, 5,5% do total, e cerca de 300 tinham menos de 14 anos.
O Maria apoiou cerca de 60 casos de menores de 18 anos, embora a média de idade das que buscam ajuda seja de 20 anos.
“É um trabalho difícil, porque ouvimos histórias nem sempre agradáveis e é preciso ter habilidade para não se envolver, porque não é possível ajudar se formos para o pântano junto com elas”, disse López.
“O objectivo do Fundo não é assistencialista, mas dar às mulheres as ferramentas para que assumam o seu corpo e a sua vida, e tenham consciência de que é um apoio para exercer um direito, não é um favor”, concluiu.
17/6/2010