O arranque de 2026 trouxe o aumento da pressão sobre o orçamento das famílias portuguesas, com os indicadores económicos recentemente divulgados a desenharem um cenário de erosão acelerada do poder de compra.
Embora a taxa de inflação global tenha registado um ligeiro abrandamento para 2,3% em 2025, os preços dos bens de primeira necessidade não param de subir, com os alimentos e bebidas não alcoólicas a inverterem a tendência de queda para crescerem 2,8%.
Esta aceleração é particularmente acentuada em produtos essenciais não transformados: a carne e o peixe ficaram, respetivamente, 7,7% e 7,3% mais caros, enquanto as frutas registaram uma subida de 5,1%.
O Instituto Nacional de Estatística (INE) confirma que a inflação está agora mais concentrada em itens de consumo obrigatório, revelando que cerca de 63% do cabaz total de bens e serviços registou subidas de preço superiores às verificadas em 2024.
Em contraciclo com o sufoco das famílias, os principais operadores do retalho alimentar continuam a acumular lucros históricos, demonstrando uma elevada capacidade de retenção de margens, mesmo num período de alegada pressão sobre os custos.
A Jerónimo Martins (Pingo Doce) fechou o ano de 2024 com lucros líquidos de 599 milhões de euros e manteve a trajetória de crescimento em 2025, registando uma subida de 10% nos lucros dos primeiros nove meses.
No mesmo sentido, a Sonae (Continente) atingiu um volume de negócios recorde próximo dos 10 mil milhões de euros, com os lucros do primeiro semestre de 2025 a dispararem 41%. Este aumento de lucros ocorre num setor recorrentemente sancionado pela Autoridade da Concorrência por práticas de cartelização indireta, o esquema conhecido como hub-and-spoke, que serviu para alinhar artificialmente os preços de bens essenciais através de fornecedores comuns durante mais de uma década.
A este quadro de especulação alimentar junta-se uma crise de acesso à habitação sem precedentes, agravada pelo desajustamento entre os rendimentos e os preços de mercado.
O relatório do Observatório do Imobiliário indica que a aquisição de uma habitação de tipologia T2 é hoje inacessível para as famílias com salários médios nos principais centros urbanos, com a taxa de esforço nacional média a fixar-se nos 53%.
Em certas regiões, a situação é descrita como crítica: no Algarve a taxa de esforço atinge os 70%, nos Açores os 68% e no distrito de Lisboa os 59%. No mercado de arrendamento, o cenário é de exclusão social, com os valores médios em Lisboa e Faro a implicarem que o arrendamento de uma casa custe mais de dois mil euros mensais, o que impossibilita a permanência da classe média nas cidades.
Face a esta realidade, o deputado Fabian Figueiredo, confrontou formalmente o Governo através de um conjunto de perguntas dirigidas ao Ministério da Economia e da Coesão Territorial.
O Bloco exige saber se o executivo prevê tomar medidas extraordinárias para mitigar a inflação nos bens e serviços essenciais e se pretende reforçar a fiscalização da ASAE e da Autoridade da Concorrência sobre a formação de preços e as margens de lucro na cadeia de distribuição. Fabian Figueiredo questiona ainda a passividade do Governo perante o facto de os preços dos alimentos frescos continuarem a acelerar enquanto os custos de energia e matérias-primas descem, exigindo a implementação de novos mecanismos de monitorização em tempo real para detetar e travar a cartelização e a retenção indevida de margens pela grande distribuição.